A CONSTRUÇÃO DA FEMINILIDADE E O CONTEXTO HISTÓRICO

Texto escrito para palestra por Carmen Cerqueira Cesar, baseado em:

Kehl, Maria Rita, “Deslocamentos do Feminino”, Imago, Rio de Janeiro, 1998

André, Serge, “O que quer uma mulher?” Jorge Zahar, Campo Freudiano no Brasil, Rio de Janeiro, 1986


A Cultura produz discursos. E o ser humano, seja ele homem ou mulher, está imerso na Cultura. Quando nascemos, já existe um discurso que pré-existe ao nosso nascimento. Portanto, a gente nasce mergulhado num universo lingüístico que nos situa, nos dá um lugar, de acordo com os valores vigentes de uma dada sociedade, suas crenças. Assim, todos os sujeitos estão inscritos de uma forma específica, num determinado momento histórico. E cada momento histórico vai definir, ao longo do tempo, uma maneira de ser HOMEM ou MULHER.

Ninguém nasce HOMEM ou MULHER. Nós nos tornamos homens ou mulheres ao longo do percurso de nossa constituição enquanto sujeitos. Assim, a construção da FEMINILIDADE tem a ver não só com as IDENTIFICAÇÕES relacionadas às figuras parentais como também ao contexto cultural.

Vamos examinar o campo onde as mulheres tentam se constituir como sujeitos, para além do desejo de um homem, ou para além do discurso cultural - para além do par maternidade/casamento. Porque vamos observar que “os tais lugares” determinados culturalmente (quase sempre pelo discurso masculino), teriam sempre estado a serviço de “algo mais” - ou seja, teriam sempre servido de sustentáculo a um determinado modo de produção, a uma determinada organização econômica.

Voltando às origens da sociedade burguesa, na segunda metade do século XIX, podemos perceber que havia toda uma produção discursiva e um campo imaginário sobre uma suposta “natureza feminina” eterna e universal. Essa “verdade” colocada definia a mulher. Ser mulher era aquilo, se não fosse assim... não era mulher. Ex. Chiquinha Gonzaga aqui no Brasil. A mulher era objeto de um discurso muito consistente, muito bem elaborado, cheio de justificativas, e este discurso era incontestável. Mas aquela era a verdade do discurso de alguns homens e esta verdade sustentava o modo de produção capitalista, que tinha na família seu esteio. A função da mulher era ser esposa e mãe, a Rainha do Lar. Ela “dava força” ao marido, que vivia a grande aventura burguesa.

Mas acontece que as mulheres desejavam também outras coisas, elas também queriam dar uma dimensão heróica à própria vida, construindo o seu próprio destino. A Revolução Francesa (1789) pregara como ideais a Igualdade, Fraternidade e Liberdade. E a burguesia agora dava a cada um a liberdade de criar seu próprio destino, conforme fosse o seu desejo. Havia então nesta época, uma contradição muito grande entre os ideais da Modernidade e o lugar destinado às mulheres pela cultura. Aliás, toda vez que ocorrem mudanças sociais, culturais, há que se produzir novos discursos, novos saberes.

E era isto que estava se colocando para as mulheres naquela época. Mas como as coisas ainda não estavam bem claras, havia um certo mal-estar, um conflito. Algumas poucas mulheres tentavam expandir seu espaço de participação na sociedade, dando vazão aos seus desejos. Escreviam, liam, estudavam, muitas vezes escondidas, publicavam sob pseudônimo masculino. Outras não, não conseguindo expressar o seu mal-estar num mundo mutante, acabavam produzindo “sintomas”, adoeciam.

É nesse momento que surge a Psicanálise, em Viena, no final do século XIX. Sigmund Freud, um jovem médico, começou o escutar as suas “histéricas” o que lhe possibilitou descobrir a existência do inconsciente. Os sintomas neuróticos nada mais eram do que “formações de compromisso” entre o retorno do recalcado (o desejo) e as forças da repressão. Tinha havido nesta época um afrouxamento do recalque social. Madame Bovary, de Gustave Flaubert, talvez encarnasse esta mulher que queria mudar de vida, mas que não se deu bem, pois não foi capaz de simbolizar o seu desejo. Fêz inúmeras atuações no real...

Já no século XX há, a meu ver, dois momentos super importantes. O pós-guerra a partir de 1945; e o Feminismo, que já vinha desde a virada do século XIX para o XX com as sufragistas, mas que teve o seu “boom” nos anos 60. A Segunda Grande Guerra havia lançado um enorme contingente de mulheres no mercado de trabalho, por razões óbvias. Este fato mudou a cara do Europa e do mundo.

Com relação aos direitos civis e às conquistas sociais, a mulher já vinha conseguindo muitas coisas, mas nos anos 1960 houve uma explosão que trouxe uma grande revolução inclusive dos costumes. O advento da pílula anticoncepcional trouxe “liberdade sexual” para a mulher, que ao entrar no mercado de trabalho foi conquistando independência financeira e se tornou responsável pela própria vida. Simone de Beauvoir publica “O Segundo Sexo”... um marco na discussão das questões relacionadas à feminilidade.

A mulher vai deixando de ser “cúmplice” do discurso machista para começar a escrever sua própria história. Conquista o espaço público, do qual se considerava privada, emblema fálico que antes só pertencia aos homens.

Mas, o que significa ser mulher hoje?

Nestes últimos 50 anos muitas mudanças ocorreram. Globalização, profundas transformações na economia e na organização social. Avanços tecnológicos que há apenas algumas décadas parecia filme de ficção científica, hoje fazem parte do nosso cotidiano.

A intensificação do “discurso capitalista” da cultura contemporânea gerou imperativos para homens e mulheres: de consumo, da máxima eficiência, produtividade e lucratividade.

Convivemos também com a força poderosa da mídia que veicula “verdades” incontestáveis sobre a mulher, “idealizações” do que é ser mulher hoje: a profissional 100%, a ditadura do corpo perfeito, relacionamento perfeito, filhos perfeitos. O imaginário da completude. Nada falta a esta mulher idealizada, a verdadeira encarnação da Mulher Maravilha.

Vivemos na era da imagem, que é vendida e consumida. É a sociedade do espetáculo. São novos imperativos que vigoram, funcionando da mesma forma que no antigo modelo do século XIX. Só que desta vez com uma cara moderna.

Observamos o enorme esforço de muitas mulheres para sustentar a imagem! Plásticas, lipoaspiração, horas de academia, terapias de todos os tipos, pra tudo, antidepressivos e ansiolíticos receitados a torto e direito... Tudo isto por quê? Porque a imagem não suporta máculas, um pontinho fora do lugar. E ela tem que ser sustentada a qualquer custo. É o campo dos impossíveis.

Não somos ingênuos a ponto de não percebermos que por trás de tudo isto existe um mercado que dita as regras. Uma ideologia que se cria e que está a serviço do consumo dando embasamento ao MODO DE PRODUZIR CAPITALISTA. Indivíduos super-exigidos, exaustos, que acabam adoecendo. Nunca se ouviu falar tanto em depressão, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, anorexia, bulimia, obesidade, droga-dicção e alcoolismo, como ultimamente.

Há um transbordamento, um COLOCAR EM ATO ou no próprio corpo, algo que não pode se expressar pelas palavras, algo que não encontra caminhos para a simbolização. É um outro mal-estar.

A meu ver, a mulher conquistou muitas coisas relacionadas ao TER, mas ainda restam questões relacionadas ao SER. Foi uma solução imaginária, pois ainda muitas vezes ela se pergunta pela sua identidade. E tenta articular um discurso próprio.

Na verdade, em relação à mulher há um saber que nunca pára de se construir.

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FUNÇÃO PATERNA
A relação pai-filha e os caminhos da feminilidade



Nos primeiros tempos de vida de uma criança seu primeiro objeto de amor é a mãe. Com ela a criança estabelece uma relação quase fusional, porém necessária para a sua constituição. A mãe investe seu bebê amorosamente, transmitindo-lhe as primeiras marcas em seu psiquismo, pela fala, pelo toque, fundando o narcisismo primário. Nesse momento, a criança parece ser tudo para a mãe, ela a completa imaginariamente, como se ali não houvesse falta. Ela supõe ser o objeto que satisfaz o desejo do outro (a mãe).

Mas, com o tempo, esta ilusão de completude deve acabar - para o bem de todos. Para que isto ocorra, o pai deve entrar nesta relação e funcionar como um terceiro, promovendo uma primeira separação entre a mãe e a criança. Ele as frustra e priva, ao estabelecer limites, para que a criança não fique cativa dessa relação primitiva (que se continuar se tornará mortífera) presa à onipotência do desejo materno.

Isto é o que chamamos em Psicanálise de função paterna. Ela constitui o eixo fundamental na estruturação psíquica do sujeito. É uma função simbólica, sustentada pelo pai encarnado. É o que Freud chamou de castração, a Lei que interdita o incesto e que possibilita a entrada dos sujeitos na linguagem e na cultura.

Mas a mãe precisa autorizar este pai e sua palavra, precisa mostrar para a criança que ela (mãe) deseja outra coisa que não só a filha - ela deseja o pai e reconhece sua lei como aquela que media o seu próprio desejo. A filha, ao perceber o olhar da mãe direcionado para o pai, vai nessa direção, em busca dele, de seu amor ou do que ele supostamente tem. Nesse momento, ela consegue se separar da mãe, rivalizando com ela, para mais tarde se identificar com ela (são duros os caminhos de uma mulher para se tornar mulher!!!)

O acesso da menina ao pai será facilitado ou não pela mãe, dependendo de suas condições psíquicas. Se a mãe não facilitar, não puder se “desgrudar” da filha e a função paterna não operar, ou operar de maneira falha, a menina apresentará dificuldades em seu desenvolvimento psico-sexual - dificuldades de acesso à feminilidade e de se tomar adulta.

Quanto mais próximo um pai estiver da filha mais ela poderá desfrutar de seu amor o que a despertará para o amor de outros homens, uma vez que este homem não é permitido. Assim o pai abre para a filha um campo de possibilidades.

A função paterna tendo interditado o incesto, pela castração lhe mostrou a falta, fez a separação necessária (entre ela e a mãe) e abriu-lhe os caminhos de seu Desejo.

O pai pode não operar suficientemente bem se for neutralizado, desqualificado, desautorizado pela fala materna, uma mãe que é a própria encarnação da Lei e que imaginariamente parece não estar a ela submetida. Este pai é o pai que pode estar presente fisicamente, mas ausente da função. Por outro lado, um pai mesmo ausente fisicamente ou morto, pode operar, a mãe falar dele, falar dele com amor e com respeito. Ele estará cumprindo seu papel.

Tendo passado pelo Complexo de Édipo a mulher vai se identificar com traços dos dois genitores e fazer sua identificação sexual. É quando ela tem acesso à feminilidade e pode se posicionar em relação ao próprio desejo. Nesse momento abre-se para ela um campo de possibilidades e condições favoráveis para o amor e a maternidade.

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O papel da mulher na sociedade contemporânea


O ser humano está imerso na "Cultura". E a Cultura produz "Discursos". Quando nós nascemos já existe um discurso que pré-existe ao nosso nascimento. Portanto, a gente nasce mergulhado nisto, nos valores vigentes numa dada sociedade, nas crenças. Assim, os sujeitos, sejam eles homens ou mulheres, estarão inseridos, ou melhor, inscritos, de uma forma específica, num determinado momento histórico. Num determinado momento, ser homem é isto, ser mulher aquilo. Mas, não podemos nos esquecer que o discurso cultural pode alienar, e isto vai depender do jeito que cada um está posicionado em relação ao próprio desejo. De qualquer forma, quando ocorrem mudanças sociais, culturais, há que se produzir novos discursos, novos saberes.

É bom lembrar que ninguém nasce homem ou mulher, nós nos tomamos homens ou mulheres num determinado percurso, que vai construindo, no nosso caso, a nossa feminilidade. Aí entram as "identificações", que têm a ver com a evolução psíquica de cada uma, passando pelo Complexo de Édipo, com a introjeção de traços das figuras parentais e da cultura.

Imaginariamente, a masculinidade acredita que a castração está só do lado das mulheres, e os homens acham possuir aquilo que supostamente "complementaria" as mulheres, aquilo que as satisfaz. Sim e não. A feminilidade, por sua vez, organiza-se em torno do imaginário da falta, e a mulher se oferece como falo, objeto valorizado, para ser tomada pelo homem, desse lugar da falta, ser resgatada pelo seu desejo (dele). A mulher faz até parecer que é isto. Se faz objeto para a fantasia masculina. Só que ela bascula entre se fazer este objeto e ser sujeito de seu próprio desejo. Vamos tentar examinar o campo onde as mulheres tentam se constituir como sujeitos, ao longo do tempo, para além do desejo de um homem, ou para além do discurso cultural.

Talvez tenhamos que pensar nas origens da sociedade burguesa, na segunda metade do século XIX. Havia toda uma produção discursiva e um campo imaginário para que as mulheres se constituíssem como sujeitos naquele período. O discurso vigente era de que havia uma "natureza feminina" eterna e universal. A dificuldade da mulher era deixar de ser objeto de um discurso muito consistente, sendo que ali se colocava uma "verdade" sobre a sua natureza. E esta era incontestável. Vocês viram "Chiquinha Gonzaga? Aquela era a verdade do desejo de alguns homens, e esta verdade significava o sustentáculo de um modo de produção capitalista, que tinha na família seu esteio. A função da mulher era ser a esposa e mãe, a Rainha do Lar, desta forma, dando força pata o marido que vivia a grande aventura burguesa.

Mas as mulheres desejavam outras coisas, elas também queriam dar uma dimensão heróica à própria vida, construindo o seu próprio destino. Havia, de fato, uma contradição entre os ideais da Modernidade e o lugar designado para as mulheres na cultura.

Se a gente pensar nos ideais da Revolução Francesa, 1789, final século XVIII, Igualdade, Fraternidade, Liberdade, isto já vinha de longe. Com a queda do Antigo Regime, da aristocracia, e a ascensão da burguesia, agora com poder político também, além do econômico, que já tinha, cada um podia construir seu próprio destino, conforme fosse o seu desejo, não dependia mais só do nascimento.

Havia um certo mal-estar para as mulheres, um conflito. Algumas escreviam, liam, estudavam, muitas vezes escondidas, publicavam sob pseudônimo, iam ocupando seu lugar, dando vazão aos seu desejo. Outras não, não conseguiam expressar o seu mal-estar num mundo mutante e acabavam produzindo “sintomas". E é nesse momento que surge a Psicanálise, no final do século XIX, quando Sigmund Freud, um jovem médico de Viena, começou a escutar as suas "histéricas", o que lhe possibilitou descobrir a existência do inconsciente. Os sintomas nada mais eram do que "formações de compromisso" entre o recalcado que retornava, o desejo, e as forças repressivas que atuavam.Acho que houve nessa época um afrouxamento do recalque.

Maria Rita Kehl, em seu livro, "Deslocamentos do Feminino", relaciona esta questão com a personagem Emma Bovary, de Gustave Flaubert. Emma, talvez encarnasse esta mulher, que queria "mudar de vida". "... uma grande histérica em busca de homens a quem ela pudesse atribuir um saber que lhe oferecesse resposta para a questão: "Quem sou eu?" (para o seu desejo). E ainda em "Deslocamentos: "... Se é que o próprio amor, sobrecarregado pelos ideais românticos de fazer de cada sujeito um herói de sua própria existência, não é por si só um delírio, mais caro às mulheres do que aos homens em geral." Madame Bovary, querendo escapar do tédio do seu casamento, fazia dívidas que não podia pagar, se entregava a loucas paixões. E acabou morrendo. Faltou-lhe poder simbolizar o seu desejo, para além de seus sintomas.

No século XX há, a meu ver, dois momentos super importantes. O pós-guerra - 1945 - e o Feminismo - década de 1960. A guerra lançou um contingente enorme de mulheres no mercado de trabalho. Este fato mudou a cara da Europa e se refletiu aqui também. Com relação aos direitos civis, às conquistas sociais, a mulher já vinha conseguindo alguma coisa, mas, com o Feminismo nos anos 60 a coisa explodiu. Foi uma grande revolução de costumes, o advento da pílula anticoncepcional, trouxe a liberdade sexual, a mulher passou a trabalhar, a ganhar seu dinheiro e independência, tornou -se responsável pela própria vida.

Acho que ela deixou também de ser cúmplice de um discurso machista, onde ela não se responsabilizava por nada. (filmes da Dóris Day, década de 50, a loira, bonita e burra, mulher infantilizada). Acho também que o Feminismo obteve acertos, mas também criou alguns mal-entendidos, algumas confusões, que trouxeram conseqüências para as relações homem- mulher (porque existem diferenças, não é igual). De qualquer forma, as mulheres conquistaram o espaço público do qual historicamente se consideravam privadas, emblemas fálicos, que pertenciam somente aos homens, mas pela via do TER. Foi uma solução imaginária, na verdade. Restam coisas a serem respondidas, com relação à identidade. Porisso estamos hoje aqui. Há um saber que nunca para de se construir. O debate hoje é mais pela via do SER, uma clínica da falta de identidade, segundo J.A. Miller. Será? Os homens nunca criaram movimentos para pensar a sua identidade. Acho que agora eles vão ter que se perguntar, que se repensar.

Nos últimos 50 anos o mundo mudou e muito. Já estamos vivendo em pleno século XXI. A globalização, as profundas transformações na economia, as conseqüentes modificações sociais. A era tecnológica, da cibernética, que há algumas décadas parecia filme de ficção científica aí está, a pleno vapor.

Acho que a alienação e a submissão hoje são outras. E não é só da mulher, é do homem também. É aquela do discurso capitalista contemporâneo, no qual estamos inseridos hoje, que vem com o imperativo do consumo, da máxima eficiência, da produtividade. Há uma mídia poderosa, que também é boa, porque informa, debate, mas que também provoca alienação. No caso da mulher, a imprensa especializada nela, as publicações e revistas femininas, que, dependendo do lugar que falam, entram com "verdades" incontestáveis, idealizações sobre A Mulher. É o corpo perfeito, "a felicidade", o casamento perfeito, filhos perfeitos. Há aí um imaginário que encarna a perfeição, a completude. Como se isso fosse possível. A esta mulher idealizada nada falta. Ela existe? É real? Claro que não! É simplesmente a Mulher Maravilha. Será que ela é feliz? Como deve ser duro sustentar esta imagem, e a gente está na era da imagem, que esforço! Ela não erra nunca, não se cansa, não tem TPM, enxaqueca. Nunca se irrita com os filhos, nunca sentiu inveja ou ciúmes. Ah, ela não tem celulite, nem flacidez. Come e não engorda. Mas vejam, a super mulher, está no terreno dos impossíveis, é a outra face da mulher desqualificada. É a mesma moeda. Sim, porque aquela que tentar acreditar nisto, ou que é, ou que tem que chegar lá, a hora que aparece o furo, a falta - a primeira celulite - que é da vida, ela se sente destruída! Ela não é nada, não vale mais nada. (ex. uma atriz bonita e famosa, uma mulher que viveu da imagem sempre, agora está envelhecendo, quais seus recursos internos para dar conta disto? Entra nas drogas?) As adolescentes anoréxicas e bulímicas hoje estão aí, cada vez em maior número. Tem a ver com isto.

Hoje muita gente toma antidepressivo, ansiolítico. Ouve-se falar muito em Síndrome do Pânico e depressão. Não há dúvida de que isto representa um avanço da ciência, e que em alguns casos são recomendados, mas há que se tomar cuidado. Não é para qualquer um, nem de qualquer jeito. Não se trata de anestesiar o sujeito. Geralmente este precisa se expressar, ser escutado, contar sua história. Para que esta faça sentido.

O perigo hoje da alienação é que existem mil atalhos, mil ofertas de felicidade fácil e rápida no mercado. Consome-se como a um lanche no Mc Donald's. Mas o sujeito paga um preço muito alto por isto. E o único preço que vale a pena pagar é o preço do desejo.

Não adianta viver "como se". Daí todos os sintomas contemporâneos. Que se fazem, onde a falta não está inscrita, onde o sujeito está alienado, onde os limites do impossível não estão colocados. A gente faz o que pode, esta é a grande e aliviante verdade. É onde se abre um espaço de possibilidades.

Acho que se trata no caso da mulher, de separar as mulheres ideais do século XIX e XX. Reconhecer um campo de possibilidades identificatórias que constituem a diversidade das "escolhas de destino" e não só de "escolhas de neurose" das mulheres como sujeitos para além do par casamento/maternidade; para além de um modelito "mulher contemporânea", reconhecer os recursos fálico-identificatórios das mulheres contemporâneas, não como sintomas a serem curados, mas como expansões dos limites do eu, e modalidades de satisfação pulsional ao alcance de qualquer sujeito.

A mulher pode tudo isto, hoje, a não ser que ela se coloque submetida, que ela não se reconheça, que ela não se autorize, não se respeite, enfim, que não se responsabilize pela própria vida.

Acho que os sintomas das mulheres hoje têm a ver com a busca de possibilidades desses sujeitos se constituírem com seu discurso próprio, marcando sua passagem pelo mundo de alguma forma – a sua. Falar, trabalhar, escrever, criar filhos, amar. Produzir. Lugares privilegiados para marcar as diferenças. Para afirmar seu desejo. Construir sua história. Cada uma, na sua singularidade. E tentar responder, talvez numa costura de bordas, com um saber faltoso, qual é o significado de estar no mundo com um corpo de mulher? Nem tudo poderemos dizer.

CADA UMA de vocês, na singularidade de seus desejos, na especificidade de suas histórias, com certeza vivem, CADA UMA, a sua própria aventura. Heroínas de suas próprias vidas, basculando entre serem sujeitos de seus destinos, e, muito femininamente, poderem se fazer objetos altamente qualificados para o desejo/fantasia masculino. Todas nós e UMA A UMA sabemos das dificuldades e alegrias deste nosso caminho.

 

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FUNÇÃO MATERNA E VIDA PROFISSIONAL



No primeiro ano de vida do bebê é de fundamental importância sua relação com a mãe. O papel do afeto na relação mãe - bebê cria um clima emocional favorável sob todos os aspectos para o desenvolvimento da criança. Cria um mundo completo de experiências úteis. A atitude emocional materna, seus afetos, servirão para orientar os afetos do bebê e conferir qualidade de vida à sua experiência.

Trata-se fundamentalmente da qualidade das trocas afetivas que se dão nesse período entre eles e que serão estruturantes para o psiquismo da criança. O investimento amoroso (libidinal) lançará as bases do narcisismo e auto-estima do sujeito. Através do olhar, da voz, do toque, do cheiro, a mãe introduz a criança num mundo de experiências e sensações, que conferirão ao bebê uma qualidade de vida, um clima emocional que favorecerá ou não (dependendo da qualidade dessas trocas) seu desenvolvimento.

A mãe funciona como espelho antecipando simbolicamente o que o bebê está sentindo. Com seus olhares zangados, ameaçadores ou ternos, empresta significados às manifestações do bebê.
 
A mãe funciona também como concha, ou seja, ela é continente para as angústias do bebê, reduzindo seus transbordamentos emocionais, o que lhe transmitirá segurança para toda a vida.

A mãe através de seus cuidados imprime a marca do seu Desejo no corpo da criança (corpo+psiquismo) para ali fundar um sujeito desejante. Mais tarde, ela também fará intervir a função paterna.

Nessa fase ocorrem importantes processos de maturação do sistema nervoso e psicomotor, aos quais é importante que a mãe esteja atenta e que também dependem do desenvolvimento emocional da criança.

Para uma mulher, ou para qualquer pessoa, a vida não deveria se resumir ao trabalho. No entanto, as empresas não facilitam a vida de quem tem filho. Poucas dessas empresas estão sensibilizadas para essa questão. Somente algumas dispõem de “creches” ou berçários para que a mãe possa levar seu bebê à empresa, amamentá-lo, estar com ele, ou permitem que suas profissionais trabalhem em casa para cuidarem de seus filhos pequenos. Horários flexíveis que também seriam extremamente convenientes ainda são raros.  Infelizmente, aqui no Brasil, embora venha se falando nisso muito ultimamente, ainda é sonho.

A desintegração da sociedade patriarcal (enfraquecimento da função paterna) no mundo contemporâneo, aliada á privação do convívio materno, que se iniciou com a industrialização na segunda metade do século XIX, traz conseqüências para a vida dos filhos. A privação ou insuficiência do alimento afetivo que lhes é devido leva à aridez afetiva, baixa auto-estima, agressividade e violência.

A maternidade, de fato, muitas vezes, interrompe projetos profissionais. Aí é uma questão de escolha. A carreira pode ser retomada, enquanto que o filho cresce e não dá para recuperar o que se deixou de fazer por ele.

Embora a mulher tenha a capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, ela ainda precisa de uma estrutura de apoio para crescer profissionalmente. E um filho precisa caber na vida dessa mulher.


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Por Amor, vale tudo?
Comentários sobre a evolução da novela “Por amor” de Manoel Carlos – Rede Globo, 1998



A questão da troca dos bebês na novela “Por Amor”, da Rede Globo, vem suscitando discussões acaloradas, desde o final do ano passado, quando, naquela noite fatídica, a personagem Helena, interpretada por Regina Duarte, entrega seu próprio filho e de Atílio, para Eduarda, a fim de poupar-lhe a dor de uma perda. E tudo isto teriaentão sido feito – “Por Amor”.
 
Lacan dizia que “Amar é dar o que não se tem, a quem não é”. Vamos tentar entender melhor esta frase.

Somos seres incompletos, fundados numa falta fundamental, que nos constitui como sujeitos e nos dá a nossa condição de humanidade. É assim que nos tornamos sujeitos desejantes, falantes, sempre impulsionados para a frente, pela dinâmica da vida, em direção a nossos objetivos, sonhos e fantasias. Porém, o Desejo só existe onde existe falta, onde não há uma identificação com a consistência do “ser” ou do “ter” para o Outro/outro, ou seja, “ser” ou “ter” aquilo que supostamente complementaria a sua falta.
 
Há um momento precoce na vida do bebê, em que ocorre essa identificação - na relação com o Outro/outro primordial, a mãe ou aquele que cuida. É o chamado Estádio do Espelho, quando nos alienamos no discurso do Outro, supondo “sermos” ou “termos”. A mãe investe a criança com amor e lhe demanda. A criança sorri “para a mamãe”, bate palminhas “para ela”, faz xixi ou come “para ela”. Este momento é importantíssimo, pois estrutura o Ego, mas também funda um lugar de alienação, pois Ego é imagem, pura ilusão.
 
A“Função Paterna” (geralmente sustentada pelo pai real e autorizada pela mãe, pela sua palavra) traz a marca da separação, entre estes dois indivíduos - mãe/bebê, que não podem ficar no espelho para sempre, configurando a marca da castração. A criança descobre não “ser” aquilo que falta à mãe, fica castrada, e a mãe vê que não tem o falo, não há como tamponar a falta. Ela se frustra. O importante é que aí ocorre uma interdição - do incesto, ou seja, da pretensa possibilidade de fazer UM com o outro, de supôr que se pode responder à sua demanda, completá-lo, preencher a sua falta. Em outras palavras, a criança deixa de se identificar ao significante do Desejo materno, e começa a se perguntar pelo seu próprio Desejo. “Se não “sou” (o falo), então “Quem sou? O que desejo?”...

Esta seria a saída “saudável’, esperada, digamos assim. Permanecer no estado quase fusional da relação mãe/bebê é que seria problemático, patológico, em que se tenta sustentar algo da ordem do impossível. Traçar os limites entre possível/impossível é fundamental para a vida humana.

Por mais que eu ame, eu não posso viver PARA o outro, nem PELO outro. A atitude de Helena nos deixou a todos horrorizados por nos parecer “louca”, delirante. Helena passou dos limites (da neurose) e adentrou o terreno do impossível onde não há Lei, onde vale tudo, uma terra de ninguém. Além disto, nos espantou por parecer inverossímel - por toda a sua história anterior: uma mulher aparentemente equilibrada, sensata, “legal” marcada mesmo pela Lei. Mas isto também não nos importa muito, pois estamos no campo da ficção, e não de pessoas reais. O nosso foco é sobre a questão do Amor. Helena passou por cima dos sentimentos do homem (que além de ser um gato, ou um tigrão) o Atílio, um cara excepcional, ideal de homem para 98% das brasileiras e que mereceria um capítulo à parte) enfim, Helena passou por cima dos sentimentos e das cabeças de todos os envolvidos nesta história, especialmente do próprio bebê. Ela não mediu as conseqüências do seu ato, que se fez direcionado pela lei do seu próprio e exclusivo desejo. Não acho que isto seja “Por Amor”, e de fato não é, porque ela não enxerga o outro. Me parece mais “por desespero” de alguém que não consegue se sustentar mais como sujeito do seu próprio Desejo, suportando e podendo ver o outro suportar as dores, as tristezas, as perdas, que são inerentes à vida. Mas isto é dela, não da filha.

Voltando à frase lacaniana inicial, Helena não pode dar à filha a completude (um filho, no caso, que na verdade é seu irmão...) porque ela também não TEM. Ela também é castrada, não há como tamponar a falta, a não ser “enlouquecendo”. Helena, narcisicamente faz PELA filha, tenta poupá-la dos sofrimentos da vida, mas faz isto para si mesma. É ela que não agüenta a falta. A figura do pai (Paulo José), alcoólatra, com dificuldades profissionais e financeiras, também é afastada de Eduarda embora esteja presente no discurso.
 
De qualquer forma, parece que Eduarda vem se virando muito bem ultimamente, tendo em si algo mais que a situa como sujeito, para além da demanda materna. Suportou uma separação, vem cuidando do filho, está indo à luta pela sua autonomia. Está deixando de ser uma menininha mimada, que só podia querer uma coisa: as glórias de um casamento idealizado, com um homem idealizado. E principalmente, ela está se separando da mãe, no discurso, e, consequentemente, na vida. Está se “revelando”, mostrando ser o que é.
 
Helena talvez precisasse de uma menina dependente. Parecia haver uma dificuldade de separação. Claro, é uma estrada de duas mãos. Eduarda era frágil, imatura, com pouco contato com a realidade. Está agora descolando disto tudo para ser ela mesma. O que talvez se possa concluir é que quem sabe “a fragilidade de Eduarda”, seu sintoma, pudesse funcionar como uma resposta a demanda materna.
 
Quero lembrar que aqui também estamos no terreno da ficção. Como disse no início a questão era somente levantar a pergunta: “Por Amor, vale tudo?” Categoricamente NÃO. A Lei permeia tudo, não só o Amor. Nele, como na vida, só vale o possível. O impossível angustia, desestrutura, enlouquece.
 
Amor não á fazer do outro a minha continuidade, o meu reflexo. Porque aí eu “aniquilo” o outro, ele deixa de ser outro, para ser eu mesmo. Amar é se relacionar com o outro, com o diferente. Enxergá-lo. Escutá-lo. Isto parece fácil, mas muitas vezes as pessoas se confundem. Temos que nos lembrar sempre que são dois corpos. Dois sujeitos. E sobretudo, dois desejos. Amar implica em ser e deixar ser, suportando a falta, em si e no outro, sabendo que isto é da vida.
 
O espaço vazio, a perda, contêm em si espaços de criatividade e crescimento. Busca de soluções, novos caminhos. Lugar de se perguntar pelo próprio Desejo.
 
Que disto, todos os amantes (me refiro a todos aqueles que amam, sejam lá quem forem e a quem amem) enfim, que disto todos os amantes não se esqueçam jamais!

 


Sociedade dos Saberes Femininos (Abril 2003)
Debate: Carmen Cerqueira Cesar e Chantal Brissac
Apresentação Carmen


PRESENÇA DE MULHERES

 

  • O casamento e a maternidade deixaram de ser as únicas opções para as mulheres. => AUTONOMIA E PODER
  • Presença no mundo do trabalho e dos negócios => fazem brilhar as características ditas "femininas" no mundo empresarial; vêm conquistando posições e salários mais elevados nas empresas => PODER ECONOMICO
  • Nas universidades => nível educacional mais elevado que os homens; presentes nos ambientes culturais da cidade;
  • No cenário social => nos espaços de lazer e cultura => cinemas, restaurantes, teatros, clubes e discotecas. Circulam sozinhas ou acompanhadas, não precisam necessariamente de uma companhia masculina. Animados grupos de mulheres - espaço de convivência prazeroso, criativo, enriquecedor, rede de solidariedade, apoio e cumplicidade
  • Nas portas das escolas e nos supermercados: sinal de que as mulheres ainda acumulam tarefas (dupla jornada) =  as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos.
  • Às vezes parecem viver alheias ao sexo oposto ... "Que fenômeno é esse? O que está mudando na concepção de lazer e companhia requeridos pela mulher?
  • É fundamental poder ser sozinha, ter seu espaço próprio de vida (amizades, pensamentos, interesses) até para poder ficar com o outro!
  • Ficar com o outro nunca por necessidade, mas sim por amor.
  • A solidão pode ser opção ou sintoma.

O cenário contemporâneo

  • Individualismo e Narcisismo
  • Valorização da Imagem: sociedade do espetáculo = o que vale é o que PARECE SER.
  • Ideais de completude e perfeição (demandas contemporâneas)
  • Idealização = identificação imaginária aos ideais fálicos = alienação do sujeito no discurso da cultura
  • A mulher e a cultura “Fast Food, Speedy , descartável” (corpo e relacionamento amoroso)
  • a idéia de investimento amoroso, num processo gradual, baseados na realidade e marcadas pelos limites do possível, parece estar esquecida. As pessoas não têm paciência, dá muito trabalho, está todo mundo cansado.

Solidão como sintoma

  • quando a mulher ocupa um lugar, uma posição extremamente fálica e idealizada, mesmo inconscientemente => quando ela se identifica ao novo "modelito”de mulher criado pela mídia e que a escraviza tanto quanto o modelo patriarcal anterior. Substituiu um modelo pelo outro. São as Meninas Super Poderosas. A Mulher Maravilha. As que podem tudo. A questão aqui é em relação à posição subjetiva, pois existem mulheres executivas, com poder e autonomia e que estão acompanhadas = feminilidade = papel profissional e outros papéis - não estão coladas à posição fálica.
  • para algumas mulheres não existe encontro amoroso possível
  • Conflito inconsciente entre TER x SER (a questão atual da mulher)
  • SER da mulher = cada uma na sua singularidade
  • O medo do encontro verdadeiro leva ao encontro fictício, virtual, fast e altamente frustrante

Solidão Feminina e Masculina – Desencontro atual

Visão Feminina: não encontram parceiros que queiram criar vínculo, compromisso ou que" estejam à sua altura" ; Desejo x dificuldade de se relacionar com o outro = porque, estar junto implica em:

  • aceitar o diferente quebrar a imagem idealizada e criar algo mais humano e possível
  • ser parceiro e amigo (e aí precisa às vezes ceder, dividir, não se julgar onipotente)
  • criar cumplicidade e construir gradualmente a intimidade ( a ansiedade não dá tempo ao desejo de se configurar, porisso é que também os relacionamentos não duram)
  • abandonar as crenças generalizadoras e simplistas de que todos os homens são todos iguais e de que falta homem no mercado.

Visão Masculina: também querem encontrar parceiras, mas se sentem muitas vezes inseguros. Desejo x dificuldade de se relacionar com o outro = porque, estar junto implica em:

  • aceitar o diferente
  • quebrar a imagem idealizada e criar algo mais humano e possível
  • ser parceiro e amigo ( e aí precisa às vezes ceder, dividir, não se julgar onipotente)
  • criar cumplicidade
  • construir gradualmente a intimidade ( a ansiedade não dá tempo ao desejo de se configurar, porisso é que os relacionamentos não duram)
  • enxergar para além da imagem que a mulher ostenta de super poderosa = posição tão fálica que eles brocham (insegurança) =
  • elas passam idéia de completude, parece que não lhes falta nada, eles não se sentem desejados, nem que existe lugar para eles na vida delas. Elas são tão auto-suficientes!!!
  • DEFESA masculina: tornam-se arredios e volúveis (somem)
  • precisam sentir que existe espaço para eles na vida delas, para que aí o desejo possa se inscrever.

Cotidiano

  • Antigos valores culturais que definiram por séculos o que era ser homem e o que era ser mulher caíram por terra.
  • Nenhuma mulher é menos feminina se trabalha e sustenta a casa e nenhum homem é menos masculino se ajudar nas tarefas domésticas e cuidar dos filhos. As funções definidas pela cultura como exclusivamente femininas ou masculinas hoje são questionadas.
  • Idéia de parceria: divisão de tarefas.
  • Empresas: brilho das características" femininas" - as empresas que não as desenvolverem num futuro próximo estarão fadadas ao fracasso;
  • Afetivo-sexual: encontros possíveis e desencontros
  • Solitários por opção
  • insatisfação = quando existe insatisfação ( tanto sozinho/a quanto acompanhado/a) é disfarçada pelo excesso de trabalho, suprimida temporariamente pelos ansiolíticos, anti-depressivos, pelo consumo/ busca cumplicidade no grupo de amigas.

Tendências

  • descolamento dos ideais fálicos, levando a uma crescente humanização das relações homem-mulher; reorganização de seus próprios ideais;
  • trabalho com a mulher abrindo-lhe a possibilidade de articulação de um novo discurso que dê conta das transformações ocorridas sem perder a sua essência feminina;
  • possibilidade de enxergar o homem não como opositor, mas também vítima do discurso da sociedade patriarcal.
  • trabalho com o homem no desrecalcamento de sua sensibilidade/emoções;
  • possibilidade de enxergar o masculino e feminino dentro de cada um de nós =equilíbrio;
  • reintrodução da solidariedade e amorosidade que se perderam nos últimos 8.000 anos quando o feminino se tornou invisível;
  • nascimento de uma força de resistência contra a violência e competitividade;
  • busca da espiritualidade; de outros sentidos pare a vida x excessivo materialismo
  • construção de uma rede de solidariedade, apoio e cumplicidade entre homens e mulheres (assim como no grupo de mulheres);
  • desenvolvimento da justiça de gênero: divisão de tarefas e responsabilidades;
  • inserção de todos enquanto cidadãos na defesa de políticas públicas que sejam o reflexo desta nova mentalidade.

 

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H I S T E R I A


Arlete Machado
Carmen Cerqueira Cesar

Palestra 10/06/1994

INDICE:

Parte 1. Introdução
Parte 2. Lol V. Stein
Parte 3. O Baile
Parte 4. O Deslumbramento
Parto 5. Depois do baile
Parte 6. Durante esses 10 anos...
Parte 7. De volta...
Parte 8. Reflexões
Parte 9. A identificação histérica e o enigma da feminilidade
Parte 10. Conclusão
Parte 11. Bibliografia

Parte 1 - Introdução

O trabalho que trazemos hoje para vocês nasceu a partir de encontros que Carmen e eu tivemos a fim de elaborar esta apresentação de hoje.

Primeiramente recorremos a vários autores, psicanalistas é claro, em busca de referentes ao tema proposto. Foi profundamente enriquecedor, sem dúvida; mas, sendo o campo extremamente vasto restava-nos uma decisão – “Por qual recorte abordar a Histeria?”

Após algumas indecisões, eis que, por sugestão de um colega, comecei a reler um velho romance, de 1964, “O Deslumbramento de Lol V. Stein”, e, a partir dai, sugerindo-o também à Carmen, eis que surge a idéia de tomá-lo como referência em nossa busca, tentando, dessa forma, passar para vocês não só algumas reflexões, mas junto a isso a genialidade da autora, Marguerite Duras, de quem nos fala Lacan numa homenagem que a ela fêz em Dezembro de 1965, nos Cahiers Renaud—Barrault: “Reconheço no — “Deslumbramento do Lol V. Stein”, que, Marguerite Duras demonstra saber, sem mim, aquilo que ensino.” Diz também Lacan nesse mesmo artigo, que “a única vantagem que um psicanalista tem o direito de tirar de sua posição é de se lembrar, como Freud que, em sua matéria o artista sempre o precede.” Diz ainda nesse artigo, dirigindo—se a Marguerite Duras - “...que a prática da letra é convergente com o uso do inconsciente, eis aí tudo o que testemunharei ao lhe render homenagem.”

A história do “Deslumbramento de Lol V. Stein”, representa os elos perdidos do passado, o não essencial, os estados de ausência da heroína, a pausa dos silêncios e das emoções desmesuradas.

Parte 2 - Lol V.Stein

Diz o narrador: “A adolescente Lol V. Stein, nascida em S. Tahla, vive ali uma grande parte de sua juventude. Pai professor universitário, um irmão mais velho que ela. De sua infância nada e se sabe que me impressionasse. Sua melhor amiga dos tempos de colégio era Tatiana Karl.” Das duas nos conta uma cena em que elas dançavam no pátio da escola vazia ao som de um rádio vizinho.

Lol encontrou Michael Richardson aos dezenove anos, durante as férias escolares, certa manhã no tênis. Ele tinha 25 anos. Lol deveria ficar logo noiva e o casamento seria no outono. Ela havia saído, definitivamente, do colégio e estava de férias em T. Beach quando se realizou o grande baile da estação no Cassino Municipal.

Ouçamos agora Tatiana, a melhor amiga, que fala de Lol: “Faltava a Lol algo para estar presente. Dava a impressão de tolerar, num tédio tranqüilo, uma pessoa com quem julgava ter a obrigação de parecer e do quem ela perdia a lembrança na menor oportunidade. Glória de doçura, mas também de indiferença, nunca parecera sofrer ou estar magoada, nunca se lhe vira uma lágrima da moça”.

”Lol era bonita e disputada no colégio, embora escapasse das mãos como água, porque o pouco que dela se conseguia reter... compensava o esforço. Era engraçada, gozadora e muito sutil... embora uma parte dela estivesse sempre desligada, longe do interlocutor e do momento. Ausente... como se o coração não estivesse presente.”

Quando, pois, soube-se do noivado de Lol com Michael, Tatiana não pôde acreditar - na verdade, a quem Lol teria descoberto que tivesse merecido sua total atenção? Ficou, portanto, bastante abalada quando testemunhou a louca paixão que Lol dedicava a Michael Richardson. Duvidava: Estará Lol pretendendo apenas uma situação estável para o coração inacabado?

Parte 3 – O Baile

Voltemos ao baile no Cassino de T. Beach. É em torno dele que toda a trama é desencadeada e é a partir dele, também que Marquerite Duras cria...

“Nesta noite, no baile, Lol estava com seu noivo Michael. A orquestra parou do tocar... terminava uma dança. A pista havia esvaziado lentamente.... Ficou vazia...”

Começa então aqui, a descrição da entrada de duas mulheres no salão, uma mais velha o uma mais nova, sem dúvida mãe e filha. Ambas esguias,  tinham atravessado a pista e caminhavam para o fundo do salão onde estavam Lol e Michael Richardson.

Ambos olharam na direção das recém-chegadas e a descrição que segue é Tatiana quem faz e é interessante repetir um trecho: “Lol, momentaneamente imobilizada, tinha visto avançar, como ele, aquela graça... Era magra. Devia ter sido sempre assim... Havia coberto aquela magreza com um vestido preto bastante decotado, com duas sobressaias de tule igualmente pretas. Adivinhava-se a ossatura admirável de seu corpo e de seu rosto. Quem era?... Soube-se mais tarde: Anne—Marie Stretter. Era bonita? Quantos anos tinha? O que havia conhecido ela que os outros haviam ignorado? Por que caminho misterioso havia chegado ao que se apresentava como um pessimismo alegre, radioso, uma sorridente indolência, da leveza de uma nuança de uma cinza?”

Tinha olhado Michael de passagem? Tinha-o varrido com aquele não-olhar que ela passeava pelo baile? Era impossível sabê-lo...

E é aqui, diz o narrador, neste impossível, que começa a minha história... de Lol V. Stein...

Parte 4 - O Deslumbramento

Mais uma vez, recorreremos à pena de Lacan, na sua conhecida forma de lidar com os significantes: “deslumbramento” - de “ravissement” = captura - esta palavra nos coloca um enigma... É objetivo ou subjetivo àquilo com que Lol o determina?

O título original do romance “Le ravissement de Lol V. Stein” é, com efeito, enigmático, na medida em que “ravissement” pode siqnificar tanto “deslumbramento” (no sentido do êxtase, arrebatamento) como rapto, captura.

Ravi = no original, além de “capturada”, pode remeter a “radiante”, “muito feliz”.
Captora = também é a imagem que se nos irá impôr esta figura de machucada, exilada das coisas, a que não e ousa tocar... mas que faz de você sua presa.

Esta arte, diz Lacan, nos sugere que a captora é Marguerite Duras e nós, os capturados... A cena, da qual todo o romance não é senão a rememoração é, propriamente, o “deslumbramento” (captura) de dois em uma dança que os solda e, sob o olhar de Lol, terceira, junto com todo o baile, sofrendo ali a captura de seu noivo por aquela que nada mais fêz senão subitamente aparecer.

Novamente, pois, no baile.

Quando Michael Richardson tirou Lol para dançar, o fazia pela última vez em suas vidas. Tatiana achou-o pálido e preocupado, de forma tão arrebatadora que percebeu que ele também havia notado a mulher que acabara de entrar. E Lol, com certeza notou a mudança no noivo. Mas, estranhamente, era como se isto não a surpreendesse, como se a natureza daquela mudança lhe parecesse familiar. Estava mesmo enlevada diante dele. Ele se tornara diferente. Todos o perceberam. E Lol olhava-o mudar.

Os olhos de Michael haviam-se iluminado. A sua nova história começava a ser forjada...

Essa visão e essa certeza, no entanto, não pareceram acompanhar-se do sofrimento em Lol. Antes, o que nos revela é que não poderia ter ficado mais fascinada. E dançou ainda assim sua última dança com seu noivo.

Este agora dirigiu-se para a outra, Anne-Marie Stretter - e convidou-a a dançar, emocionado. E Lol... acompanhando a emoção.

Caminharam para a pista de dança. E Lol, os olhando (e o fazia como uma mãe olhando seus filhos se afastarem - parecendo mesmo amá-los).

Terminada a primeira dança, Michael Richardson se aproximou de Lol. Em seus olhos implorava uma ajuda, uma aquiescência. Lol sorriu para ele.

Ao fim da dança seguinte, não foi mais reencontrar Lol. Anne-Marie e Michael não mais se tinham separado.

O trecho seguinte vai mostrar-nos Lol voltando para trás do bar e das plantas verdes; Tatiana com ela, acariciava-lhe a mão.

Michael continuara até o fim dançando, capturado nesse novo amor.

A orquestra parou de tocar... o baile esvaziou—se, restando apenas o novo casal entre outros poucos pares e, ao fundo Lol e Tatiana Karl a olhá-los.

Naquele momento, uma mulher de certa idade, a mãe de Lol, havia entrado no baile. Injuriando-os perguntara-lhes o que tinham feito com sua filha, e quando a descobriu, uma modulação queixosa e terna invadiu o salão vazio. A um toque de seu ombro por sua mãe, Lol deixou enfim a mesa e somente então parece ter compreendido que um fim se esboçava, mesmo que de modo confuso.

A barreira de sua mãe entre eles e ela era o sinal prenunciador. Com força empurra a mãe que cessa então o seu lamento pela filha.

Lol então gritou pela primeira vez. Gritou sem descontinuidade. “Não era tarde, a hora de verão enganava” e suplicava a Michael que acreditasse nela. Seguiu então ao casal que se afastava e jogou-se contra o batente da porta que se fechara. Quando não mais os viu, caiu no chão desmaiada.

Parte 5 – Depois do baile

Conta a Sra.Stein que Lol, de volta à casa, permaneceu em seu quarto, sem sair para nada, durante algumas semanas, numa prostração marcada por sinais do sofrimento. Repetia sempre as mesmas palavras desconexas. Queixava-se de um cansaço insuportável, aborrecendo-se a ponto de gritar, exigindo um remédio imediato para aquela falta.

Depois de um tempo, entretanto, deixou de queixar-se e, aos poucos, deixou até mesmo de falar. Falou apenas para dizer que lhe era impossível expressar o quanto era aborrecido e custoso ser Lol V. Stein. Sua dificuldade em busca de uma única palavra parecia intransponível.

Os comentários eram que o grande abatimento de Lol seria atenuado com o tempo, sendo considerado menos grave que o primeiro delírio. Diziam que sua juventude acabaria com a doença. Que sua inferioridade era pelo abandono, pagando agora a omissão de sua dor no baile.

Depois, começou Lol a reagir, levando, aos poucos, uma vida mais normal; do casal não mais pediu notícias.

O amor antigo morria... era o que se via em Lol.

A primeira vez que saiu foi à noite, sozinha e sem avisar.

Lol acabava de sair de casa, quando o viu pela primeira vez. Escondeu-se atrás do uma pilastra do portal, para poder olhá-lo.

Esta cena precede o encontro dela com Jean Bedford, aquele que se tornaria seu marido e é, segundo a autora, os últimos fatos chocantes dela, nos próximos 10 anos que se seguem.

O encontro do Lol V.Stein e Jean Bedford se dá numa das muitas noites que ela sai a caminhar sem direção determinada, como se algo buscasse sem buscar nada. Jean passou a acompanhá-la com o seu consentimento e os seus encontros e as caminhadas se passavam de forma estranha - ela caminhava à êsmo, como se estivesse brincando, acompanhando agora um interessado, ou melhor, um fascinado interlocutor. Em meio à descrição monótona desses encontros, chama-nos a atenção este diálogo:

- “Você é a Srta. Stein, não é?”
- “Sou”, diz Lol, despreocupadamente.
- “O que você deseja?”

Ela não chegou a responder, apesar do esforço visível. Subtraiu-se então à fixidez do olhar e, em um soluço, disso suplicante:
- “Tenho tempo... que é longo.”
Jean Bedford pediu-a em casamento à sua mãe.

Todos comentaram que ele, talvez, só amasse mulheres com coração dilacerado ou que tivesse inclinação por moças abandonadas ou que tivessem ficado loucas.

E assim Lol casou-se com Jean e, dessa forma, sem mesmo querer, da forma que lhe convinha:
- sem passar pela selvageria de uma escolha;
- sem ter que plagiar o crime que teria sido aos olhos de alguns, a substituição do ex-noivo pelo outro;
- e sem ter traído o abandono em que fora deixada.

Parte 6 — Durante esses 10 anos...

Entra agora a narrativa em sua versão terceira, sendo a primeira, o baile e a segunda, o que se segue a ele. Nesta é interessante observar o personagem novo a ser introduzido, já que se trata daquele a quem Marguerite Duras dá a voz da narrativa - Jacques Hold.

Tudo ao passa agora em outro lugar: a cidade onde Lol V. Stein vai viver com seu marido. Nos anos seguintes teve três filhos, sendo nesses 10 anos fiel a seu marido.

Nunca mais quis saber das pessoas do passado, indiferente a tudo que a cercava, Lol tornou-se desde a história com Michael Richardson, até mesmo um tanto injusta e impiedosa - a morte da própria mãe deixou-a sem uma lágrima.

Com o marido (músico), dizia-se estava feliz. Acompanhava-o nos concertos e o encorajava a fazer tudo que gostava (até mesmo enganá-la).

Perfeita dona de casa, a arrumação dos quartos era uma réplica de vitrines de loja, a do jardim do qual ela cuidava, também daquela de outros jardins.

Lol imitava a quem?
Aos outros, a todos os outros, o maior número de outras pessoas.
Assim,  passaram-se os 10 anos do casamento.

Parte 7 - De volta...

O casal volta agora a S. Tahla... e vão morar na casa dos pais de Lol. Lol cuidava de tudo com o mesmo desvelo de sempre. Contratam uma governanta o que a alivia do cuidado com os filhos.

É nesse cenário, que um dia passa em frente à casa de Lol, uma mulher, acompanhada por um homem. Quando viu o casal, Lol escondeu-se atrás de uma cerca viva e eles não a viram. Lol ouviu a mulher dizer, como que em resposta a seu par: “- Talvez tenha morrido...”

Beijam-se e afastam-se.

Lol, em seu jardim, não tem certeza do ter reconhecido a mulher, mas a cena a perturbou.

É pouco tempo depois que inventa - ela que parecia não inventar nada - sair às ruas. É como se Lol se mexesse, se virasse, em seu sono...

Suas saídas se repetem então, de forma pontual. O passeio a cativava, totalmente, libertando-a de querer ser ou fazer, mais ainda que a imobilidade de um sonho.

Nesses passeios, ninguém - mesmo que a reconhecesse a abordava, respeitando assim o seu passado triste.

Da descrição do narrador sobre Lol, vai cada vez mais ficando clara a "belle indiference" já descrita.

Os lugares por onde Lol passa são os mesmos, sempre, mas ela está ali corno se fosse aprimeira vez. Da distância invariável da lembrança ela não mais dispõe. Está presente.

Lol passeava para pensar melhor no baile. Diz o narrador: "O baile ganha vida, treme, agarra-se a Lol. Ela aquece-o, protege-o, alimenta-o. Ele cresce, sai de seu esconderijo, se espreguiça ... está pronto."

"E Lol penetra nele todos os dias ...

E nele, nesse recinto aberto pelo seu olhar ... recomeça o passado, ordena-o, sua verdadeira casa, arruma."

De forma sutil e encantadora, Marguerite Duras, aqui, além de dar a voz de narrativa a Jacques Hold, o promove a personagem coadjuvante, passando-o, corno diz Lacan, de simples demonstrador da máquina a uma de suas peças e que, ademais, não sabe tudo que o prende a ela.

"Logo que Lol o viu, reconheceu-o. Era ele quem havia passado na frente de sua casa havia algumas semanas."

Saía Jacques Hold de um cinema quando Lol o viu, sendo por ele, atraída; parecia existir nele algo daquele olhar de Michael Richardson antes do baile.

A partir desse instante Lol o segue e começa no romance de Duras um novo tempo, um novo tempo nessa captura, deslumbramento a que nos leva Lol V. Stein.

Mas desde o inicio, quando começou a segui-lo Lol percebia que ele esperava por alguém... por uma outra ... outra que se fazia anunciar pelo modo corno ele olhava, bisbilhotava as mulheres, antegozando a sua chegada. E Lol ... esperava com ele.

Na verdade ela chegou e, nesse momento Lol a vê e reconhece. É Tatiana Karl, a amiga de antes, assistente de seu drama, em ato mesmo.

Nesse momento o que ocorre não é o acontecimento, mas é um nó que se refaz. E o que o nó encerra é o que propriamente captura...

Eis pois composto o novo par a quem Lol, como terceira, passa agora a acompanhar. São amantes que se encontram às escondidas (pois Tatiana é casada).

O cenário, a mesma cidade onde 10 anos antes Lol vivera a véspera e o dia seguinte de seu drama. (S.Tahla)

Seguindo-os pela pena de Marguerite Duras somos então levados a reencontrar uma Tatiana bela e sedutora, pele clara, olhos imensos, cabeleira negra e abundante, caminhando passo a passo com o amante rumo ao Hotel Des Bois de má reputação - local do encontro do casal. Localiza-se na Rue Boulevard de Bois - distante da cidade – tendo à sua frente uma fileira de amieiros muito velhos, sendo que faltavam alguns. E onde, atrás destes estendia-se um grande campo de centeio.

Na nova cena, agora a janela do hotel iluminada, qual um retângulo de luz, torna-se o palco. Tatiana e Jacques Hold - os personagens e, Lol V. Stein o público - solitária espectadora desde o campo de centeio.

Os atos que se sucedem neste palco solitário vão, desde o beijo ao desnudar-se e se revelam pelas sombras, àquela que, deslumbrada, os vê. Até que, após um tempo de desaparecimento do casal no retângulo de luz, esta se apaga, o que precede a partida do casal.

Durante os dias que se seguiram, Lol procurou encontrar-se com Tatiana e, conhecendo seu endereço, a partir dele faz roteiro para suas caminhadas, até que um dia decide visitá-la. Isso acontece num dia de verão, nos jardins da casa de Tatiana, fundo perfeito para o reencontro das amigas de outrora. Por perto, o marido de Tatiana e Jacques Hold - um amigo do casal. As amigas passam agora a trocar visitas, Lol agora muito alegre, estranhamente até, perdida quase sempre numa doce admiração por Tatiana, travando com ela ternos diálogos sob o olhar fascinado de Jacques Hold, também atento ouvinte das mútuas confidências.

Jacques, o amante de Tatiana e também o narrador, mais do que isso é aquele que nos sustenta para que, acompanhando Lol, se suporte o silêncio surdo o compacto de sua alienação.

É na tentativa do recobrir imaginariamente essa cruel repetição que ele está e que ficamos nós.

Após uma visita de Tatiana, marido e Hold à casa de Lol, este último permanece a sós com ela após a saída do casal e travam um curto diálogo entre muitos outros:
(neste já captado está Jacques Hold)
(J.Hold supõe que Lol ame e tenha encontrado um outro homem)
Pergunta Jacques Hold:
- “Então, e o encontro?”
Lol: - “Puxa Jacques... pensei que você tinha adivinhado.”
J.H.: “Diga-o mesmo assim.” (ele recorria à brutalidade, ela ao circo).
L.: - “O quê?”
J.H.: - “Quem é.”
L.: “É você, desde que o encontrei.”
J.H.: “Por quê?”
L.: - “Eu o escolhi.”
J.H.: “Mas... o quê quer você?”
Ela não sabe. Mas diz apenas – “Quero”. Lol intransitivamente, despótica, irresistivelmente, quer...
Diz Jacques Hold, narrando: - “Não se dá nada a Lol. Ela segura. Ainda tenho vontade de fugir. Não posso”.

Um diálogo forte e tenso continua e nele Lol se revela a Jacque Hold.
E diz:
- “Seu quarto iluminou-se e eu vi Tatiana passar na luz. Ela estava nua sob os cabelos negros.”
Diz Jacques Hold: - “Admirável puta, Tatiana.”
Lol: - “A melhor, a melhor de todas, não é?”
Jacques Hold: - “A melhor. Mas vou largá-la.”
Lol: - “Não, não faça isso, não quero... Você deve revê-la na 3ª feira.”

E nesse dia começa então uma estranha relação ternária, na qual movimentam-se Tatiana, que de nada ainda desconfiava, Jacques Hold, cheio de dúvidas, espanto, horror e alegria, naquele mesmo palco iluminado tendo ao limiar, no campo de centeio, aquela a quem era o ato endereçado: Lol V.Stein. Ela o vê e se sabe também vista por ele. Isto o acalma.

Diz Lacan: “É preciso ainda que ele lhe mostre, propiciatória à janela, Tatiana, sem se comover com que esta nada tenha percebido, cínico em tê-la, desde já à lei de Lol sacrificado, uma vez que é na certeza de obedecer ao seu desejo (de Lol) que ele irá saciar a amante...”

Não se enganem sobre o lugar do olhar aqui, até mesmo porque não é Lol que olha. Ela não é o voyeur. O que se passa a realiza.

Ali, onde está o olhar é demonstrado quando Lol o faz surgir em estado de objeto puro, com as palavras devidas, para Jacques Hold: “Nua, nua sob a cabeleira negra”.

Estas palavras que Lol pronuncia engendram a passagem da beleza de Tatiana (Sra.Stretter) à função de mancha intolerável que pertence a esse objeto.

Essa função é incompatível com a manutenção da imagem narcísica onde os amantes esmeram-se em conter sua enamoração.

Desde então é legível que, votados a realizar o fantasma de Lol, eles serão cada vez menos, um e outro.

A continuação da trama, não cabe (por questões de tempo mesmo) mais relatar-lhes. Cada um poderá sim, retomá-la, se quiser.

Deixo-lhes agora para reflexão uma questão: Que estranha homofonia existe entre os nomes Lol V. Stein e Lowestein, o analista de Lacan?

Parte 8 – Reflexões

O modo histérico de questionar a feminilidade se acha ai maravilhosamente ilustrado.

A observação do espetáculo dos casais felizes: Michael Richardson – Sra. Stretter e Jacques Hold - Tatiana Karl, parece ser o nó das questões de Lol V. Stein.

O processo de identificação histérica e o lugar que nela assume a escolha amorosa é complexo. A posição subjetiva de Lol, as identificações pelas quais ela se sustenta, e a função da outra mulher (Sra. Stretter, Tatiana Karl) só podem ser situadas corretamente se forem inscritas num quarteto construído a partir do modelo do esquema L de Lacan:

Tatiana, que fascina Lol (assim como a Sra. Stretter) representam para ela mais do que uma identificação: valem como a própria encarnação da feminilidade. Adquirem esse valor enigmático porque são o alvo do desejo de Michael (Sra. Stretter) e de Jacques (Tatiana). Elas são o alvo do desejo de um homem (assim se pensaria também a fantasia incestuosa). Talvez o espetáculo dos casais evocasse a Lol relações anteriores.O desejo de Lol não pode ser reduzido a um desejo por Jacques. Seria antes ser amada por “alguém anterior” como Tatiana é amada por Jacques?

A histérica se prova nas homenagens dirigidas a uma outra e oferece a mulher na qual adora seu próprio mistério ao homem cujo papel ela desempenha, sem poder dele gozar. (Lacan)

Para Lol, a mola-mestra de sua posição é da ordem de uma identificação ao desejo do Jacques Hold, mais do que um desejo ou anseio amoroso direto. É a relação entre Jacques Hold e Tatiana Karl que constitui o bem mais precioso, pois ela lhe propõe o mistério de uma feminilidade alimentada pelo desejo masculino. Lol protege essa relação: o que ela ama não é Jacques Hold, mas o desejo que este tem por Tatiana. (Exs. Elizabeth e o casal formado pela irmã e o cunhado; Dora e o casal formado por seu pai e a Sra.K).

Esta estrutura se mantém, mas sob uma condição: que o desejo de Lol permaneça insatisfeito, ou seja, que ela não tenha relações com Jacques Hold fora do casal que este forma com Tatiana. Ficar com Jacques Hold é para ela uma ameaça e ela pede que ele continue e encontrando com Tatiana.

Lol não pode ficar privada dessa referência feminina frente a Jacques Hold. Essa ausência de mediação constitui para ela a representação insuportável por excelência, pois ameaça a necessária insatisfação de seu desejo de histérica. Há uma necessidade de insatisfação do desejo como condição prévia para o amor.

Essas reflexões não deixam de se relacionar com nossa tentativa de abordagem da feminilidade. O que é um corpo de Mulher? Parece não existir uma resposta satisfatória. O corpo dito feminino se define por ser exterior ao saber, não tendo nenhum significante que permita responder pela distinção anatômica.

Indizível.
Não simbolizável.
Falta.
Lacuna.
Vamos examinar mais detidamente estas questões.

 

Parte 9 - A identificação histérica e o enigma da feminilidade

De Freud a Lacan, a Psicanálise chegou a designar na feminilidade a figura maior, e sem duvida original, desse “não-todo”, e na teoria da castração, a resposta que o inconsciente elabora em face do impossível de dizer que o sexo feminino encarna.

Essa resposta parece se desmanchar no ar. A castração é a construção pela qual o ser humano procura dizer a “falta”. Mas isto é impossível, uma vez que dizer a falta, significa preenchê-la. Mas, como fazer, se somos seres falantes, dependentes do significante? Como fazer se o inconsciente é estruturado como urna linguagem?

O ser humano não pára de querer falar daquilo que não pode dizer (a mulher, a morte, o pai... ) Assim, aquilo de que não pode falar, é preciso dizê-lo!

O quê significa ser uma mulher? O quê quer uma mulher? Mistério. Enigma. Mistificação. Mentira. Desconhecimento sobre a questão da feminilidade. Evidência alguma nos oferece seu apoio, como quando se trata de saber o que é um homem. Quanto ao que ela pode querer, jamais se está seguro.

Freud notou que aqui as considerações anatômicas não são de ajuda alguma. O caminho possível passaria talvez então pela questão da diferença sexual, para além da materialidade da carne, o órgão enquanto aprisionado pela dialética do desejo, e assim “interpretado” pelo significante. O ser falante se empenha em significar que o sexo é uma metáfora (multiplicidade de nomes dados aos órgãos sexuais).

Portanto, a realidade do sexo não é o real do órgão anatômico. Assim, já em 1908, Freud vai afirmar que só reconhece um único órgão, o pênis. Esse não-saber vai instigar as teorias sexuais infantis. O menino vê os genitais da menina e diz que o pênis ainda é pequeno, mas que irá crescer. Essa constatação vai bem mais além de um erro, uma mentira ou uma dissimulação. O que ocorre é que o significante se introduz no real, levando a uma espécie de funcionamento alucinatório do pensamento.

Já em 1923, Freud acentua ainda mais a ignorância fundamental do sexo feminino. Com a descoberta do primado do falo, é a própria castração, ou seja, aquilo que forma o núcleo do saber do qual o psicanalista espera os efeitos de “verdade”, que vem ocupar o lugar onde se elaboravam as teorias sexuais infantis. Falando dos meninos que descobrem as partes genitais femininas, Freud escreve: “Eles negam essa falta, acreditam ver apesar de tudo um membro, encobrem a contradição entre observação e preconceito dizendo-se que ele ainda é pequeno e crescerá dentro em pouco, e depois chegam lentamente a esta conclusão, de grande alcance afetivo: antes, de qualquer modo, ele estava lá, e depois foi retirado. A falta de pênis é concebida como o resultado de uma castração e agora a criança se encontra no dever de se confrontar com a relação entre a castração e a sua própria pessoa... Em tudo isso, o sexo feminino parece não ser jamais descoberto.”

Ai se chega à conclusão de que não há senão um sexo, o falo, com dois modos de manifestação: a presença ou a ausência. O que significa que a falta do pênis, se reconhecida, é enquanto falo a menos e não enquanto sexo feminino. A castração exclui, forclui o sexo feminino como tal. (Serge André)

A menina não está menos presa que o menino nesta lógica. Também ela, diz Freud, toma conhecimento de seu sexo com a ajuda do significante fálico, também ela vê aí um falo diminuído ou castrado. Assim, também para ela o sexo feminino permanece não descoberto. Não é que as crianças não tenham conhecimento da materialidade da vagina. O que ocorre é que estas constatações não são significadas no inconsciente como oposição entre dois sexos complementares. A vagina é bem conhecida como órgão, pedaço de corpo, mas não é reconhecida a nível significante como sexo feminino. (Simbólico)

Ora, a teoria da castração não é apenas a crença que o neurótico instala no lugar de um impossível de se suportar; ela é, também, o ponto de ancoramento do mito do Édipo sobre o qual Freud pretende fundar sua prática. A teoria da castração, embora permita explicar a construção da neurose, revela-se de fato impotente para fornecer a chave que permitiria sair dela. Essas dificuldades e contradições aparecem nos textos de Freud de 1931 e 1932, sobre “A Feminilidade” e “A Sexualidade Feminina”. Trata-se, em suma, de saber se é possível, com um saber faltoso (o da castração) fazer emergir a verdade de um ser que se julga encarnar essa própria falta: o ser feminino.

Não é essa, afinal, a própria questão que a histérica vem colocar para o psicanalista? Interrogando, à sua maneira, irônica, a potência do pai e sua capacidade de desejar, e, recusando-se, além disso, à posição de objeto sexual que lhe destina a fantasia masculina, a histérica sustenta um questionamento que ultrapassa largamente as relações intersubjetivas de seu romance familiar. Ela visa o limite do mito edipiano e da potência do falo. O discurso da histérica tem por função demonstrar que o mito edipiano e a lógica fálica desconhecem a existência da mulher como tal. Daí a ponta de desafio – entre esperança e desprezo - que marca freqüentemente a sua relação transferencial com o analista.

Lembramo-nos do fracasso de Freud com Dora, a quem ele quer a todo custo fazer reconhecer sua posição de objeto sexual para um homem o Sr.K - quando a questão de Dora visa antes o enigma que para ela representa a outra mulher - a Sra.K - (mulher do Sr.K e amante do pai de Dora). A posição de Dora se sustenta pelo culto de uma feminilidade misteriosa encarnada no corpo da Sra.K: esse corpo é sua questão. Se a Sra.K é exposta ao perigo de ser desvelada, decaída de sua aura de mistério, Dora se sente precipitada, rebaixada ao nível de puro objeto de troca entre seu pai e o Sr.K. É contra esse rebaixamento que ela se revolta; mas Freud, em 1899, não o entende, e, empurrando-a para o Sr.K, só faz repetir a fantasia de Dora: seu pai e o Sr.K não teriam firmado um pacto do qual ela é objeto?

Esta interrogação, pela qual a histérica tenta apreender seu ser, para além do que ela possa ser para um homem, ultrapassa em muito o campo de uma clinica da neurose. Suas demandas: “Quem sou eu?” “Qual é o objeto do meu desejo?” a obrigam a defrontar-se com sua falta de saber à respeito da feminilidade.

Assim a histérica protesta, em nome da Mulher, contra a divisão subjetiva que lhe impõe a impotência do saber para nomear o feminino.

É na fantasia inconsciente que o sujeito procura dar figura de mulher ao objeto causa do desejo.

Diante da falta de um significante do feminino, o sujeito é aí incitado a fazer uma divisão imaginária, pela qual se situa, ao mesmo tempo, num e noutro lugar dos parceiros de uma relação sexual. Como diz Freud, as fantasias histéricas têm uma relação com a bissexualidade e estabelece que, por trás de todo sintoma histérico, há sempre duas fantasias sexuais, das quais, uma tem um caráter masculino, e outra um caráter feminino. A bissexualidade histérica se refere a um bi-gozo (divisão do Id, cisão do sujeito do inconsciente).

É então, do lugar e do papel do outro, enquanto outro sexo, que se trata no sintoma histérico. Como o ilustram as fantasias de violação tão freqüentes no discurso ou nos sonhos da histérica, o sujeito histérico se apresenta como dividido, conflituado entre duas representações, que procura identificar como um outro e outro sexo.

Freud fez da “inveja do pênis” o rochedo incontornável no fim da análise das mulheres.

Nos “Três Ensaios...”, Freud falou que a sexualidade da menina é fundamentalmente masculina, e localizada no clitoris - que constitui o equivalente da glande masculina. Esta sexualidade masculina deverá mais tarde ser recalcada a fim do que a menina se transforme em mulher, e de que a zona erógena se desloque do clitoris para a vagina. Agora, se o sintoma é o retorno do recalcado, o sintoma histérico deverá ser considerado, na mulher, como o retorno da sexualidade masculina de sua infância.

Mas existiria algum outro caminho para as mulheres que não o da histeria (e da frigidez)? Mesmo a libido sendo única, ela conhece dois modos de satisfação, de gozo: um ativo e outro passivo. A criança tem um gozo passivo em relação à mãe. Assim, o problema da feminilidade se coloca nestes termos: a menina, como o menino, deve rejeitar esse gozo passivo, e, se separar da mãe para ingressar no Édipo; mas é necessário que volte a ele mais tarde para assumir seu destino propriamente feminino.

A noção freudiana de libido se divida não apenas a nível de seu modo de satisfação, mas também a nível do tipo de objeto sobre o qual se apoia essa satisfação.

Como vimos, a diferença de órgãos apresentada pela anatomia do corpo humano, não se significa, ao nível do inconsciente, como uma divisão entre os dois sexos. À partição masculino-feminino que a anatomia sexual parece colocar como evidência, o saber inconsciente prefere, de alguma forma, a oposição não-castrado/castrado. Isto traz conseqüências para o sujeito desse saber. A diferença sexual deve ser procurada menos entre os dois sexos do que entre duas posições do sujeito.

Se não há sexo feminino enunciável como tal, a feminilidade não pode ser concebida como um ser que seria dado desde o inicio, mas como um “se tornar” - um “vir-a-ser”, que se inaugura para a menina a partir do seu complexo de masculinidade.

Mas, como nasce uma mulher? Tem-se que trazer à luz a pré-história do Complexo de Édipo na menina. A menina não ama seu pai desde o início, como o menino ama a sua mãe. Ela é conduzida a isso progressivamente, através de sua relação com a mãe. A criança, qualquer que seja a sua anatomia, é inicialmente sempre um menino frente à mãe, e é, num segundo tempo, que uma feminização (na menina) pode se produzir frente ao pai (vide os três tempos do Édipo para Lacan).

Enquanto o Complexo do Édipo no menino se dissolve sob o efeito do Complexo da Castração, o da menina é tornado possível e introduzido pelo Complexo de Castração. Este inibe e limita a masculinidade e encoraja a feminilidade. É por efeito do Complexo que a menina deve se reconciliar com a sua anatomia.

A descoberta da castração da mãe acarreta, tanto para a menina como para o menino, uma desvalorização do personagem materno; além do mais, a menina, ao tornar a mãe responsável por sua própria falta de pênis, junta a esse desprezo um ressentimento, que se traduz por “desejo”¹ com relação àquele que tem o pênis. A menina é assim Levada a se voltar para o pai, portador do pênis, na esperança de receber dele aquilo que sua mãe, por natureza, não lhe pode dar. Em outras palavras, é na medida em que ela quer ter aquilo que falta à mãe, que se torna uma mulher. É porisso que a “inveja do pênis” é o termo insuperável da análise de uma mulher.

A menina deve, portanto, para se tornar mulher, mudar, ao mesmo tempo, de sexo (clitoris/vagina) e de objeto (mãe/pai). O sexo se determina, como vimos, não segundo um dado anatômico, mas segundo a posição do sujeito na sua relação com a castração.

Parte 10 — Conclusão

Lacan nos diz que não há significante do sexo feminino. Os termos “furo” ou “nada” só podem evocar o vazio que se esforçam por nomear.

Enfim, quando Lacan enuncia “a mulher não existe” - não seria esta uma forma de retomar a tese freudiana segundo a qual a feminilidade não é um ser, mas um se tornar?

Para Freud, a menina só dispõe da referência à castração para tornar-se mulher. Isto não basta, pois aí o sujeito se detém na inveja do pênis. Para Lacan, entre o furo e a castração, a relação não é de um simples recobrimento. Há aí a lógica do significante que vem nomeá-lo. O furo não aparece como tal senão pelo significante que recorta suas bordas e o produz como seu exterior. O falo não camufla o furo, fá-lo surgir como seu mais-além. A ruptura, a fenda, o traço da abertura, faz surgir a ausência - como o grito não se perfila sobre o fundo do silêncio, mas, ao contrário fá-lo surgir como silêncio. Se fôr seguida esta indicação - que delimita o significante em sua função criadora - o falo e a castração não se colocam como obstáculos à feminilidade, mas, ao contrário, como as condições para toda a feminilidade possível.

¹Em francês “envie”, que tem o duplo sentido de inveja e desejo.

Parte 11 – Bibliografia

Duras, Marguerite - “O Deslumbramento” (Le ravissement de Lol V.Stein), Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1986.

André, Serge - “o quê quer uma mulher?”, Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 1987.

Dor, Joel - “Estruturas e clínica psicanalítica”, Livraria Taurus-Timbre Editora, Rio de Janeiro, 1991.

Nasio, J.D. - “A Histeria”, J.Zahar Editora, Rio de Janeiro, 1991.

Freud, S.- “Fragmento da análise de um caso de histeria”, 1905/1901, in Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Vol.VII, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Freud, S. – “Estudos sobre a Histeria”, 1893-1895, in Edição Standard 8rasileira das Obras Completas. Vol.II, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1977.

Freud, S. - “Sexualidade Feminina”, 1931, in Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Vol.XXI, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1977.

 

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Leia também:

A função do pai em psicanálise > O complexo de Édipo em Freud e Lacan

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A função do pai em Psicanálise

Apresentação em Grupo de Estudo

Bibliografia: “O pai e sua função em Psicanálise”, Joel D’Or, Jorge Zahar editor


A noção de pai no campo conceitual da Psicanálise funciona como um operador simbólico que ordena uma função - Função Paterna - e não remete necessária e exclusivamente à existência de um pai encarnado. De fato, nada pode garantir que esta encarnação corresponda seguramente à consistência de um pai investido de seu legitimo poder de Intervenção do ponto de vista do Inconsciente.

A função paterna é universal e necessária aos seres humanos, pois nos estrutura enquanto seres sexuados. O pai real é o representante da Lei e tem a missão de representação junto ao par mãe-filho.

Para que o Pai real possa receber a investidura de Pai Simbólico é necessária a intermediação do Pai imaginário, pois o papel simbólico do pai é sustentado, antes de mais nada, pela atribuição imaginária do objeto fálico.

Acima de tudo, a instância simbólica do Pai é sua referência à Lei da proibição do incesto. O pai real é apenas o depositário legal de uma Lei que lhe vem de outro lugar, a qual ele nunca poderá se vangloriar de ser o detentor ou fundador. Mas, em compensação, recai sobre ele o “ter que se fazer valer” de ser seu representante.

A metáfora do Nome-do-Pai é uma operação simbólica na qual a criança substitui o significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai, que permitirá que ela entre na Cultura e se posicione enquanto sujeito desejante.

A proibição do incesto e o pai da “horda primitiva”


O mito freudiano do pai primitivo se apóia na concepção darwiniana de um pai violento, enciumado, que guardava todas as fêmeas e expulsava seus filhos à medida que cresciam. Esta horda primitiva era um bando de irmãos que viviam sob uma tirania sexual forçada. Excluídos, acabam se constituindo numa força suficiente para contestar o despotismo paterno. Sua união é capaz de realizar o que cada um individualmente não seria capaz de fazer. Condenam à morte o tirano, matam-no e o consomem num repasto canibalesco.

O pai violento era certamente o modelo invejado e temido de cada um dos membros dessa associação fraterna. Pela incorporação realizam sua identificação com ele, apropriando-se cada um de uma parte de sua força.

Esses sentimentos ambivalentes do Complexo paterno são os que encontramos em cada um dos neuróticos. Odiavam o pai que se opunha violentamente às suas necessidades sexuais e exigências de poder, mas ao mesmo tempo amavam-no e o admiravam. Depois de matá-lo e comê-lo, identificando-se com ele, apresentaram manifestações afetivas exageradas; ternura, remorso, arrependimento e culpa. O morto tornara-se mais poderoso do que enquanto vivia.

O que antes o pai impedia agora são os próprios filhos que se impedem em função dessa “obediência retrospectiva”.

No complexo de Édipo os sentimentos ambivalentes também aparecem: exigências sexuais dirigidas à mãe, de um lado, amor e ódio ao pai, de outro.

Algumas considerações sobre o desenvolvimento psico-sexual da criança

A Fase do Espelho

(fase oral e anal)

No início da vida do bebê, a relação é muito intensa e praticamente exclusiva com a mãe. Para o bebê não existe diferenciação entre o seu corpo e o corpo materno, que lhe supre todas as necessidades físicas e emocionais. Esta é uma relação primitiva, simbiótica e necessária. Não há diferenciação Eu-Outro. “... É dessa ordem a posição inicial da criança como objeto único do desejo materno, da Lei arbitrária e onipotente do seu desejo ao qual está submetida passivamente.”

Lacan situa o prenúncio do Complexo de Édipo no processo de maturação da criança num momento particular de sua vida psíquica, e que se chama Estádio do Espelho (por volta dos 06 meses aos 02 anos), a partir da identificação com a imagem do semelhante como forma total e pela experiência concreta em que a criança percebe a sua própria imagem num espelho.

A identificação primordial da criança com esta imagem promoverá a estruturação do “Eu”, terminando com essa vivência psíquica singular que Lacan designa como fantasma do corpo esfacelado. No entanto, não há ainda integração do esquema corporal.

Esta conquista da identidade é sustentada por um reconhecimento imaginário, pois a criança se identifica a partir de algo virtual (a imagem ótica). A fase do espelho simboliza a “pré-formação” do “Eu”, e pressupõe sua alienação imaginária, onde se delineia o “desconhecimento crônico” que o neurótico não cessará de alimentar em relação a si mesmo.

Primeiro Momento do Édipo

(fase fálica)

Ao sair da fase identificatória do estádio do espelho, a criança, em quem já se esboça um sujeito, nem por isso deixa de estar numa relação de indistinção quase fusional com a mãe. Ela busca identificar-se com o que supõe ser o objeto de seu desejo, o que é facilitado pelos primeiros cuidados e satisfação das necessidades. Ou seja, a proximidade dessas trocas coloca a criança em situação de se fazer objeto do que é suposto faltar à mãe. Este objeto suscetível de preencher a falta do Outro é o falo. Então a criança quer constituir-se como sendo o falo materno.

Neste primeiro tempo do Édipo o desejo da criança permanece totalmente submetido ao desejo da mãe, numa oscilação dialética de “ser ou não ser o falo”. A alienação da criança é total.

Se ela fizer aqui um ponto de ancoragem e fixar-se nesta questão, o sujeito pode vir a se constituir numa estrutura perversa, pois esta ambigüidade levará a criança a rejeitar a castração.

Segundo Momento do Édipo

(fase fálica - Pai Imaginário)

Pela intrusão da dimensão paterna a criança será introduzida no registro da castração. A mediação paterna irá desempenhar um papel preponderante na configuração da relação mãe-criança-falo.

A criança é intimada a questionar sua identificação fálica e a renunciar a ser o objeto de desejo da mãe. “Ser ou não ser”, a criança oscila, e rivaliza imaginariamente com este pai junto à mãe, ele que agora é suposto “ter” o falo, pois é para ele que o desejo da mãe agora se dirige. Isto conduzirá a criança a encontrar a lei do pai.

Sua intervenção virá sob a forma de privação, frustração e interdição: o pai priva a mãe do objeto fálico de seu desejo, frustrando-a e interditando à criança a satisfação do impulso.

Este é um tempo crucial no complexo de Édipo, pois o pai faz a criança pressentir que a mãe reconhece sua lei e que a ela está submetida. O segundo momento do Édipo é a condição prévia indispensável pela qual a criança deve passar para aceder à simbolização da lei, que marca o declínio do complexo de Édipo. Neste encontro com a lei do pai, ela é confrontada com a questão da castração, que a interpela através da dialética do ter,em cuja dependência o desejo da mãe se encontra dali para a frente.

A mediação introduzida pelo pai com relação à mãe que o reconhece como ditando-lhe a lei, leva a criança a fazer o Pai aceder a um lugar onde ele só pode lhe aparecer como depositário do falo.

O pai real, que aparece como “representante” da lei, é investido pela criança de uma significação nova, a partir do momento em que, desde esse lugar, ele é suposto deter o objeto do desejo da mãe: ele é assim elevado à dignidade de pai simbólico.

A mãe que aceita a enunciação da lei paterna, ao reconhecer a palavra do pai, funda o pai como mediador de alguma coisa que está para além de sua lei e de seu capricho, contribui igualmente para atribuir à função do pai um lugar simbólico aos olhos da criança. Neste ponto, a criança é levada a determinar-se em relação a esta função significante do Pai, que é o significado simbólico Nome-da-Pai.

Abalada pela certeza de ser ela mesma objeto fálico desejado pela mãe, a criança é, de agora em diante, forçada pela função paterna a aceitar, não somente não ser o falo, mas também não tê-lo, assim como a mãe, dando-se conta de que ela o deseja lá onde ele é suposto estar e onde então torna-se possível tê-lo. Nesse momento, a lógica é a seguinte: para que se possa ter o falo é preciso não sê-lo.

Terceiro Momento do Édipo

(fase fálica)

É o tempo do “declínio do complexo de Édipo”, que põe termo à rivalidade fálica em torno da mãe, na qual a criança se instalou imaginariamente junto com o pai. A partir do momento em que o pai é investido do atributo fálico é preciso que ele dê provas disto.

O tempo fundamental desta etapa é marcado pela simbolização da lei, que atesta que a criança recebeu sua plena significação. O valor estruturante desta simbolização reside, para ela, na determinação do lugar exato do desejo da mãe. A função paterna só é representativa da lei sob esta condição. A confrontação da criança com a relação fálica, modifica-se de maneira decisiva, no sentido em que ela deixa a problemática do ser para aceitar negociar, por conta própria, a problemática do ter.

Isto só acontece quando o pai não lhe aparece mais como um falo rival junto à mãe. Na medida em que há o falo, o pai não é mais aquele que priva a mãe do objeto de seu desejo. Ao contrário, por ser o detentor suposto do falo, ele o reinstaura no único lugar em que pode ser desejado pela mãe. A criança, tal como a mãe, encontra-­se então inscrita na dialética do ter: a mãe que não tem o falo pode desejá-lo naquele que o detém: a criança, igualmente desprovida, poderá também cobiçá-lo lá onde ele se encontra.

A dialética do ter convoca assim o jogo das identificações e do desejo. A reposição do falo em seu devido lugar é estruturante para a criança. Representa a instalação do processo da metáfora paterna e do mecanismo intrapsíquico que lhe é correlativo, o recalque originário.

A metáfora Paterna – Nome-do-Pai


Enquanto interventor no complexo de Édipo, o pai não é um objeto real, mas uma metáfora. Um significante que vem ocupar o lugar de um outro significante. O recalque originário aparece como o processo fundamental e estruturante que consiste numa metaforização. É o ato da simbolização primordial da Lei, que se efetua na substituição do significante fálico pelo significante do Nome-da-Pai.

É preciso que a coisa se perca para ser representada”(Lacan). A partir de então a criança é conduzida a colocar-se como sujeito de seu próprio desejo e não mais como “objeto” do desejo do Outro. Ela começa a falar em seu próprio nome e a seguir em busca da realização do seu desejo. A dialética de ser, recalcada em prol da dialética de ter, impõe à criança que engaje, a partir de então, seu desejo no terreno dos objetos substitutivos do objeto perdido. Para tanto, o desejo não tem outra saída a não ser fazer-se palavra, desdobrando-se numa demanda. E ele se perde na cadeia dos significantes do discurso.

A metáfora paterna institui um momento radicalmente estruturante na evolução psíquica da criança. Além de inaugurar seu acesso à dimensão simbólica, afastando a criança de seu assujeitamento imaginário à mãe, ela lhe confere o status de sujeito desejante. O benefício desta aquisição só advém, entretanto, às custas de uma nova alienação. Com efeito, tão logo advém como sujeito desejante ele torna-se cativo da linguagem na qual se perde enquanto tal, pois nela se faz representar, através de objetos substitutivos, que persistem em designar, à revelia do sujeito, seu desejo original.

Função Paterna e Estrutura Perversa


A identificação perversa perpetua, sob uma fixação particular, a identificação fálica primordial da criança. A atribuição fálica do pai que lhe confere a autoridade de pai simbólico (representante da Lei) nunca será reconhecida, exceto para ser incansavelmente contestada. Daí o exercício incapaz de ser superado de dois estereótipos estruturais que atuam regularmente nas perversões: o desafio e a transgressão.

O discurso da mãe do perverso deixa em suspenso o questionamento da criança quanto a ser o objeto de desejo materno. Ela não sabe significar para a criança sua falta e que jamais seria satisfeita pelo filho enquanto falo. Além disto, o pai do perverso não aparece claramente para a criança como aquele que é suposto deter o objeto que a mãe deseja. Nestes casos o que se percebe é o apelo sedutor e a cumplicidade libidinal da mãe associados à complacência silenciosa do pai.

Função Paterna e Estrutura Obsessiva


O sujeito obsessivo teria sido amado excessivamente pela mãe e se lamenta passiva e repetidamente com relação à invasão desse amor. Gemendo sob o estatuto de objeto privilegiado do desejo materno, testemunha o investimento fálico que se operou sobre ele, que despertou um investimento libidinal precoce na criança.

Encontra-se num lugar de objeto junto ao qual a mãe encontraria aquilo que seria suposto esperar do pai. O filho então entraria como suplência à satisfação do desejo materno, já que parece que o pai não foi bom o suficiente, não a satisfez. Trata-se de uma vacância parcial da satisfação do desejo materno que a mãe deixa entrever e que suscita na criança, a necessidade de preenchê-la.

Ocorre então um apelo regressivo à manutenção da identificação fálica. Daí a “nostalgia” do obsessivo de um retorno ao ser, vivamente cobiçado, mas nunca plenamente realizado. O obsessivo terá sempre uma problemática na relação com o desejo e a Lei, tendo problemas de competição e rivalidade com figuras de autoridade, que reativem a imago paterna. Desdobra-se para substituir o pai e tomar o seu lugar, o que abre campo para todas as lutas gloriosas e dolorosas de prestígio.

Num despedaçamento épico este herói sofre entre a Lei do Pai, à qual é preciso tudo sacrificar, e ao mesmo tempo, derrotar e dominar.

Seu desejo carrega o selo exigente e imperativo da necessidade (ele tem que...) o que provoca uma enfermidade do lado da demanda e o inscreve numa passividade masoquista. O outro tem que adivinhar o que ele não consegue demandar.

Sofre de uma servidão voluntária, ocupando de bom grado o lugar do objeto de gozo do outro.

A culpa o domina porque, de forma quase incestuosa, tentar isentar-se da castração. Fixado eroticamente na mãe, o obsessivo morre de medo de perder (medo da castração).

Ao mesmo tempo em que ele se faz tudo para o outro, ele também deve, despoticamente tudo controlar e dominar para que o outro não lhe escape nunca.

Função Paterna e Estrutura Histérica


Mais uma vez é em torno da passagem do ser ao ter que demarcamos os pontos de cristalização determinantes da organização histérica quanto à função paterna.

A lógica do desejo histérico se inaugura no investimento psíquico da atribuição fálica do pai. A histérica vai interrogar e contestar sem descanso a atribuição fálica.

Os traços estruturais mais notáveis da histeria estão enraizados no terreno da reivindicação do ter.

Continuamente tenta conquistar o atributo do qual se acha injustamente privada - o objeto de desejo edipiano - o falo - só que através do Outro que é suposto tê-lo. Esse Outro é sempre pressentido como tendo a resposta para o enigma do desejo, o que serve de suporte para a identificação histérica (a outra mulher, o Mestre...) Aliena-se desta forma no desejo do Outro e deseja por procuração.

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O COMPLEXO DE ÉDIPO EM FREUD E LACAN

Para Freud o primeiro objeto de amor, tanto da menina como do menino, é a mãe. No caso do menino, ele ama a mãe e rivaliza com o pai. Pelo temor da castração ele vai recalcar esse amor pela mãe e sair do Édipo. É como se o pai lhe dissesse “esta mulher não pode, mas poderá todas as outras". Desta forma, haverá a identificação com o pai e estará aberto seu caminho para a masculinidade.

Ele então entra no período de latência (no qual vai recalcar este sentimento de amor, que será reativado na puberdade).

Já para a menina é um pouco mais complicado: ela ama a mãe e tem que passar a amar o pai e rivalizar com a mãe. Depois ela tem que se voltar novamente para a mãe para se identificar com ela. Sente-se castrada, reclama com a mãe pelo que não tem, e busca no pai, o pênis do qual se sente destituída. No caminho da feminilidade a menininha deseja o pai pelo que ele tem/é suposto ter: o pênis /atributo fálico. E como vimos, ela terá que fazer uma nova operação (uma a mais que o menino) que será se identificar com a mãe.

Segundo Freud ela sai do Édipo pela Inveja do Pênis e, assim como o menino, recalca seu amor incestuoso para entrar no período de latência até a puberdade.

Algumas meninas ficam detidas lá no período pré-edipiano, nesse amor encantado com a mãe, sem condições de acederem à feminilidade (não são necessariamente homossexuais, mas sim imaturas no seu desenvolvimento psicossexual).

Então, enquanto o menino sai do Édipo pela Angústia de Castração (ele teme perder o seu pênis/o que ele supõe ter), a menina sai do Édipo pela Inveja do Pênis (ela vai buscar o que supõe que o outro tem/ou o que o outro tem).

Podemos notar que Lacan, ao reler Freud, dá um estatuto simbólico ao pênis e o coloca como falo, algo ao qual é atribuído valor, mas que de fato ninguém tem. O falo circula no discurso.

Nos primeiros tempos de vida, a criança, seja ela do sexo feminino ou masculino, ao constituir-se como sujeito, sofre uma alienação primordial, por estar submetida ao desejo materno. Ela é o falo materno (ilusoriamente é claro) aquilo que falta à mãe e que a preenche.

Essa alienação é necessária por ser estruturante para a criança (porque a mãe investe libidinalmente a criança, fundando o narcisismo primário), mas tem que ser rompida pelo ingresso de um terceiro, geralmente o pai, que cumpre a tão necessária função paterna, separando a criança da mãe, interditando o incesto, evitando que a criança fique refém do desejo materno, com todas as implicações que isto possa ter.

Mas para que a função paterna opere é necessário que a mãe autorize a entrada desse pai. A criança então torna-se sujeito de seu próprio desejo, ingressa na cultura e na linguagem e começa a escrever a sua própria história.

 

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CONFLITOS NA FAMÍLIA E O QUE ISSO REPRESENTA PARA A CRIANÇA
A família, a criança e o sintoma


Não dá para fa­lar de criança e seu sintoma sem falar da família. Na verdade, todas as famílias têm problemas, mal-entendidos, coisas veladas. Não existe perfeição, mas é importante poder pensar sobre certas questões. A ajuda de um terapeuta em muitos casos é necessária. A criança pode apresentar sintomas como distúrbios escolares, de comportamento, além de sintomas físicos, como enxaqueca, insônia, enurese, encoprese, alergias, asma, bronquite, etc.

Nenhum de nós vive sozinho. A vivência com outros seres humanos nos enriquece e nos faz crescer. Precisamos das outras pessoas. Um bebê não sobrevive sem a ajuda do adulto. A vida é uma experiência compartilhada. Nos primeiros anos de vida essa troca é quase que exclusiva com a família, que acaba sendo a unidade básica de crescimento e experiência, desempenho ou falha, saúde ou neurose. Mais tarde, a troca passa a ocorrer com o social cada vez mais amplo.

No início da vida do bebê, a relação é muito intensa e praticamente exclusiva com a mãe. É uma relação primitiva, simbiótica, mas necessária. Mais tarde, o pai vai ter que ir entrando nessa relação, se interpondo com sua palavra entre mãe e filho, para que essa criança se desenvolva. Sua presença e importância devem chegar até a criança via discurso materno e isso é essencial para o seu desenvolvimento. Porque o pai significa a Lei, a proibição do incesto, a entrada da criança no social mais amplo. Quando a mãe é quem manda e exclui o pai da relação, se agarrando na criança, esta fica aprisionada no desejo materno, não podendo se tornar uma pessoa saudável e independente.

A família pode ser vista como um organismo vivo, no qual os órgãos estão numa inter-relação. O que acontece com um membro da família acaba refletindo nos outros. Portanto, estamos falando de um sistema com uma dinâmica própria. Ele se auto-regula, tem um equilíbrio. É como um móbile. Nada mais equilibrado que um móbile. No entanto, nada mais instável.

Na família, os ciclos da vida se sucedem: as pessoas nascem, crescem e morrem. Um bebê nasce, começa a engatinhar, a andar, vai para a escola. Isso representa mudanças. Como os pais reagem a isso? Como a criança reage a isso? Depois a criança cresce mais, se torna adolescente. Que mudança! Como os pais reagem? Como os irmãos mais novos reagem? É um novo ciclo de vida para a família que vai ter que se adaptar a essa mudança. Se, por exemplo, há uma separação do casal. Como isso é sentido e elaborado? Uma filha namora e se casa. Como isso é sentido pelos pais? Pais que estão envelhecendo, pais que estão tendo que se reformular o tempo todo.

O sistema familiar precisa estar unido, mas também precisa permitir a diferenciação de seus membros, de seus filhos, não impedindo seu crescimento. E eles nem sempre são ou fazem o que os pais querem ou esperam. Como então deixar isto acontecer?

A família tem uma identidade familiar, mas é composta por várias identidades individuais. É preciso dar condições para que os filhos possam responder às exigências sociais nas várias fases, para que eles possam passar pelos ciclos de vida. Assim eles se desenvolvem psicológica e socialmente, se diferenciam do todo familiar, guardando alguns traços para que um dia possam formar um novo sistema, uma nova família.

Para que tudo isto aconteça é preciso que a família tenha flexibilidade - como o móbile. Que seja dinâmica, criativa, disponível à mudança. Isto permite que a família passe por crises (que são normais), rupturas, sendo capaz de criar novas formas de relação sempre que fôr necessário. A família precisa tolerar o processo de crescimento e diferenciação de seus membros, suportando os períodos de instabilidade que possam ocorrer. E aí então voltar a procurar um novo equilíbrio, uma reorganização.

A família passa por momentos de desorganização quando um estágio é rompido para se preparar para a mudança para outro estágio mais conveniente. Isto é possível quando a família é flexível.

Numa família cada pessoa, pelo seu jeitão ou pelo seu comportamento, passa a ter um papel, uma função. Por exemplo, duas irmãs, uma é super responsável, faz tudo por todos e a outra é desligada, sonhadora, vive no mundo da lua, deixando toda a responsabilidade para a outra. Uma não pode sonhar, a outra não assume responsabilidade por nada. Mas só é assim porque a outra faz por ela. E se um dia esta que é a responsável mudar? E se ela deixar de fazer pela irmã? A desligada vai ter que se ligar.

A inter-relação do sistema permite a complementaridade das funções. Assim, a mudança numa pessoa muda o sistema. Outro exemplo: quando uma criança começa a melhorar com a terapia, o resto da família vai sentir uma alteração no equilíbrio familiar. O menino-problema, que só tirava notas baixas na escola e que trazia bilhetes da diretora todos os dias era o assunto da hora do almoço ou jantar. A família inteira se ocupava dele, mil discussões, conversas, etc. Quando ele melhora do que se vai falar? Dos problemas deles!!!

Vamos voltar um pouco. Estávamos falando de famílias saudáveis, flexíveis. E as outras famílias que são rígidas? Nelas as funções permanecem cristalizadas, estáticas. As pessoas não podem crescer. Qualquer mudança é vista como extremamente ameaçadora. Se um membro muda, melhora, o que vai ser do outro? Vai ter que se ver com os seus problemas, vai ter que encarar aquilo de que está fugindo! Exemplo, uma mãe que inconscientemente impede a filha adolescente de crescer, ou porque ela vai ficar sem ter o que fazer se a filha ganhar independência, ou porque vai se sentir velha se a filha arrumar um namorado... ou porque vai se deparar com um vazio interior e com o seu medo e a sua angústia, de talvez sair para trabalhar, olhar para um marido que não a satisfaz mais...

Nestas famílias as relações, os papéis ficam congelados. Ou são pessoas muito distantes, ou excessivamente próximas, interferindo demais na vida uns dos outros. Às vezes, formam alianças, como por exemplo, um pai com uma filha, deixando a mãe de lado... ou transformam um filho em bode expiatório; Joãozinho é um fracassado crônico, esse menino não tem jeito. Joãozinho na verdade é a válvula de segurança para os pais não terem, por exemplo, que falar de seus problemas conjugais. Joãozinho é assunto de conversa 24 horas por dia. Este mecanismo é inconsciente. Os pais conscientemente querem que o filho me­lhore, mas inconscientemente não, não querem mudar nada, para se defenderem de si mesmos. Não é por mal.

Esses comportamentos-problemas de uma criança têm uma função no grupo familiar. As mudanças não são desejadas, tudo é feito para que as coisas permaneçam como estão. Outro ex: uma criança com o sintoma - medo, este medo pode desaparecer se o casal mudar a forma de se relacionar entre si, buscando uma aproximação. Como nem sempre o casal está disposto a isso, o sintoma do filho cumpre uma função - mantém os pais unidos na preocupação com o filho - e afastados de uma relação mais próxima entre si. Como já vimos, esse processo não ocorre de forma voluntária, por parte dos pais e filho, mas acaba se cristalizando numa forma de relacionamento que resiste à tentativa de mudança. São relações invisíveis, inconscientes, porisso tão difíceis de enxergar.

Nestas famílias ocorrem muitos conflitos: sempre se briga por motivos banais e as verdadeiras questões ficam encobertas. São familias que se perdem em críticas, exigências, acusações, silêncios, duplas mensagens, ou seja, o que a criança escuta é diferente daquilo que percebe. Os papéis são mal definidos, com filhos desempenhando papéis paternos. Pais com dificuldade de assumir papel de pais. Trabalhei com famílias onde não se sabia quem era mais imaturo, se os filhos, ou os pais. Pais que ainda eram filhos. Então se observava um bando de crianças.

Assim, vamos chegando à conclusão que a condição psicológica de uma criança tem muito a ver com a estrutura da família da qual ela faz parte. É uma trama familiar na qual ela está envolvida, que contém trocas e mensagens conscientes e inconscientes, mensagens mudas, mas que as pessoas sentem, fantasias desconhecidas de cada um e que complicam ainda mais o relacionamento.

Não devemos nos esquecer que os pais trazem para a sua família atual toda uma história de vida anterior, com sua própria família de origem: conflitos, traumas, bloqueios, inibições, enfim, estilos de comportamento e de sentir, de se relacionar, que vão afetar desde a escolha do parceiro, sua relação com ele e a relação com os filhos.

A experiência mostra que numa análise de crianças, quando se faz um trabalho paralelo ou junto com os pais, com a família, esta passa a perceber os esquemas de relacionamento, fantasias, expectativas, etc, e começa a experimentar novas formas de se relacionar. Os sintomas da criança tendem a desaparecer.

Nessa análise entram as características individuais da criança, seus processos dinâmicos internos e a situação familiar. Não se deve, a meu ver, nem colocar a criança como “criança-problema” e tratá-la sozinha, como um mecânico que conserta um carro quebrado, nem colocar a responsabilidade toda na família. O ideal é analisar a situação como um todo.

Exemplo: “Uma senhora traz sua filha de 10 anos ao psicoterapeuta porque a menina se queixa de falta de apetite às refeições e come muito pouco, mas nos intervalos não deixa a geladeira em paz. O problema da menina é facilmente identificado, à moda tradicional, como “perda neurótica do apetite” combinada com “comer compulsivo”. A mãe se propõe a entregar a criança ao terapeuta como “paciente” ou, para ser mais exato, como “delinqüente”, e recebê-la de volta uma vez corrigido o defeito. A mãe está agindo simplesmente como cliente, como o genitor sadio que traz o filho para o tratamento necessário, como se fosse uma operação das amídalas ou de apêndice: não se pode negar que muitos psicólogos aceitam ingenuamente o papel que lhes é atribuído por mães desse tipo. Assumem que os maus hábitos alimentares da criança constituem uma dificuldade de comportamento inteiramente individual que deve ser tratada terapeuticamente. Aliados à mãe, tentar ensinar à criança a “comer adequadamente”.

Na realidade, ao recusar-se a comer, essa criança de 10 anos está protestando contra a mãe que é uma tirana, que limita rigorosamente sua liberdade de ação e fiscaliza tudo o que ela faz. Além disso, a mãe espera que a criança exprima gratidão por “tudo o que é feito por ela”, e a menina não consegue defender seus direitos contra essa tirania. Para a mãe, o comer tem um papel especial: é um dos seus instrumentos favoritos de controle. A família tem que apreciar e elogiar sua comida, senão ela se ofende e manifesta aos berros sua reprovação. O pai, que é tão incapaz quanto a filha de enfrentar sua mulher, freqüentemente evita as refeições em família sob pretexto de trabalho. A filha percebe a oposição secreta do pai e sabe que são aliados. A alternância entre não comer e empanturrar-se às escondidas é principalmente um protesto disfarçado contra a dominação da mãe que se tornou insuportável. É uma oposição não-verbal num ponto em que a mãe é especialmente vulnerável: a menina está punindo a mãe pela opressão que ela exerce, recusando-se a comer, algo que a mãe não pode suportar. Portanto, o problema de alimentação da menina só pode ser adequadamente compreendido se for relacionado com a atitude da mãe. O distúrbio não está na criança; é a comunicação na família que está perturbada, principalmente pelo comportamento descontrolado e inconseqüente da mãe. Os sintomas da menina são sinais de defesa desesperada contra uma força superior, por não ter encontrado, no seu desamparo e medo, outro meio de enfrentá-la.¹

Para que possamos compreender melhor estes conflitos há que se pensar no que cada um traz dentro de si: verdades, meias-verdades, mentiras; tanta coisa recalcada, conteúdos ameaçadores, que eles não querem saber, porque machucam, porque dá medo. Assim, a família acaba sendo um excelente lugar para depositar esses conteúdos, projetando no outro o que não aceita em si. “É o outro que é egoísta e não eu”. É um mecanismo inconsciente e provoca sérios distúrbios na comunicação entre pais e filhos, entre marido e mulher.

A criança, imatura para se defender, acaba quase sempre ficando com esses papéis, pedaços descartados que o adulto joga para ela, mesmo sem perceber.

Isso pode tanto ocorrer entre o casal como entre pais e filhos. O outro (filho, marido...) passa a ser uma extensão da pessoa, que vai precisar dele para sempre, odiá-lo pelo que ele representa e que é parte dela mesma. E viverão infelizes para sempre, dependentes uns dos outros. Ex. “S. quer fazer um curso noturno e diz que seu marido não deixa; não reconhece que é ela que tem medo de enfrentar o novo, que tem que vencer a preguiça...”

Viver em família é como encenar uma peça de teatro onde cada um tem um papel, um script.  Nas relações acima descritas existe uma extrema dependência inconsciente. Na verdade, nenhum dos parceiros consegue se enxergar como uma pessoa inteira e vai sempre brigar consigo mesmo no outro. É como ter um corpo mutilado, uma personalidade onde faltam pedaços. E se depende absolutamente da pessoa complementar. Isso pode ocorrer tanto entre adultos como entre pais e filhos. Acontece que geralmente é o adulto que impõe à criança um papel necessário para a sua própria fuga do conflito interior:

Exemplos: uma mãe que teve no passado uma difícil e não resolvida relação com uma irmã brilhante; sua filha a faz lembrar muito essa irmã, por causa da inteligência; ela vai ter conflitos com essa filha, pelos mesmos sentimentos ambivalentes que teve em relação à irmã;

- uma mãe que não vive bem sua sexualidade, provavelmente terá conflitos com a filha que esteja iniciando sua vida sexual. Pode, inconscientemente, tentar reprimi-la porque não vai agüentar vê-la vivendo; nada pior para um santo que um pecador feliz;²

- um pai que exige que seu filho preencha um ideal profissional que ele mesmo não conseguiu alcançar, tentando compensar seu próprio fracasso;

- um pai que deposita no filho seu lado “negativo”, sua agressividade, que despreza e reprime. O filho é punido, aliviando o pai do castigo que ele próprio secretamente julga merecer. A culpa inconsciente de ter esse impulso é desta forma aliviada.

- um pai pode também depositar seu lado “fraco” no filho e este a assumir. Um pai que só pode ter de si uma imagem grande, enérgica, forte, esconde sua convicção reprimida de insignificância, fraqueza e passividade, e isso dura enquanto seu filho expressar tudo isso por ele. Pode-se dizer que o filho expressa a depressão contra a qual o pai se defende. Assim, o pai se sente seguro enquanto o filho aceitar esse pacto. Para o pai ver-se como realmente é, é muito doloroso. O filho pobre e fraco permite que o pai brilhe sem qualquer ameaça em toda a sua grandeza. As pessoas perguntam: Como é que fulano agüenta esse filho tão babaca? Ele é um peso para fulano! Que nada! Ele não só agüenta, como precisa do filho assim, como compensação para ele, senão desmorona.

Como vimos, o que costuma acontecer em consultório é que a criança com sintomas de baixo rendimento escolar, agressividade, depressão, etc, é vista como um caso isolado, como aquela que tem o problema.

Na verdade, quando a criança é trazida para terapia com um sintoma, isso quer dizer, quase sempre, que algo não vai muito bem no grupo familiar. O sintoma é quase sempre a expressão de algo que não pode ser dito, que permanece oculto nessa família. Quando a criança é trazida ao consultório, os pais apresentam uma queixa, que normalmente encobre sintomas mais sérios, ou pelo menos diferentes daqueles que motivaram a consulta. O que vem normalmente são queixas de dificuldades escolares, distúrbios de comportamento, reações somáticas, fobias (os medos infantis).

Em Psicanálise infantil, na primeira consulta, estamos submetidos ao pedido dos pais, que, muitas vezes querem que a gente urgentemente resolva o problema como um psiquiatra ou um pedagogo. Com isto se corre o risco de perder de vista o principal, que é a dimensão psicanalítica do caso. A criança é ela, com sua individualidade, mas está dentro de uma situação.

Desordens, problemas, todas as famílias têm, o que é ruim é os pais se negarem a enxergar mais amplamente, para além da “criança-problema”, ou seja, para si mesmos.

Não é tanto o confronto da criança com uma verdade penosa que é traumatizante, mas o seu confronto com a “mentira” do adulto. No seu sintoma, é exatamente essa mentira que ela expressa. O que lhe faz mal não é tanto a situação real quanto aquilo que não foi claramente verbalizado. É o não-dito que aqui assume importância.

Através da situação familiar a atenção do analista vai, portanto, recair na palavra dos pais e na da mãe em particular, pois veremos que a posição do pai para a criança vai depender do lugar que ele ocupa no discurso materno.

Aqui estão alguns exemplos de crianças com dificuldades escolares:

  1. V. sexo masculino, 14 anos: Mãe: “O mais velho saiu ao pai, é brilhante. O mais novo, V., puxou a mim, e infelizmente eu comecei uma série de coisas, mas nada terminei.” V. sente-se rejeitado pelo pai, que se identifica com o mais velho, e sente-se estranho a V. V. só lhe lembra de seus complexos, enquanto que o mais velho deleita-o com seus êxitos.

  2. N. sexo masculino, 15 anos: abrupto declínio escolar. Mãe: “Quando estou deprimida eu o ajudo em seus deveres, mas ele não quer mais saber do meu auxílio. Ora, para sua informação o pai dele é uma criatura mole, distraída, cansada, inútil.” Os pais têm depressão. Enquanto N. for para seus pais um objeto de preocupação, eles têm um motivo para apegar-se à vida. O declínio escolar é um alarme contra a ameaça de depressão nesse adolescente.

  3. S. sexo feminino, 11 anos: ameaçada de ser expulsa da escola. Mãe: “Trago-lhe S. minha filha por indicação do Dr. X, sem o consentimento do pai.” Esta mãe excluiu o pai da relação, tenta tornar o terapeuta seu cúmplice nisso. Só que S. fica vivendo um conflito, uma angústia, porque a mãe não considera a palavra do pai. Ele existe. Mesmo que seja para o pai dizer “não”, ele precisa marcar a sua presença.

Nas dificuldades escolares somos introduzidos, através do sintoma escolar, no mundo interno das fantasias da mãe. A criança tem por missão realizar os seus sonhos perdidos. O seu erro (da criança) reside quase sempre em não aceitar colocar-se no lugar que lhe está reservado de antemão. Porque se a criança jogasse o jogo da mãe, se veria imediatamente exposta a outros problemas bem mais graves: o de um Édipo impossível.

Para que os pais aceitem a idéia de uma análise para o filho, é também necessário que tenham coragem de ser desalojados (pelo filho) do conforto que dá a cumplicidade da mentira.

A criança serve, com o seu sintoma, para tapar a angústia dos pais.

O sintoma do declínio escolar é, na verdade, um grito de alarme lançado por uma criança, adolescente que clama por ajuda. O sintoma é uma linguagem que nos cabe decifrar.

O que está em jogo para essas crianças é a vontade de ver o desejo delas reconhecido, uma vez que não puderam expressá-lo pela palavra. É nos símbolos do sintoma que a criança vai se exprimir.

A função do analista é desnudar essa rede, tirar a criança de uma dependência neurótica em relação ao desejo inconsciente do outro, da mãe, ajudá-la a articular o seu pedido, para que possa dar-lhe um sentido.

Exemplos:

  1. T. sexo masculino, 9 anos: dificuldades escolares, revoltado, agressivo. A mãe não queria filhos, teve três. Mãe: “Não fui feita para ser uma dona de casa. Fico muito nervosa, são os meus filhos que apanham.” A mãe reagiu ao nascimento dos filhos não desejados com esse “nervosismo”. T. exprime através dos seus distúrbios, o mal-estar materno.

  2. C. sexo feminino, 16 anos: revoltada, mal-humorada, briguenta. Todos se afastam dela. C. é objeto exclusivo de uma mãe depressiva a quem o marido abandonou. A mãe suportou mal esse abandono, e a criança teve que ajudá-la. C.: “Eu sou de tal forma tudo para ela que, quando ela não está presente, não sou mais nada, estrago tudo. Para mim teria sido melhor se mamãe se casasse de novo, pois ela sentiria menos necessidade de mim.” C. está alienada na história da mãe e repete, na sua vida, situações de abandono, provoca as pessoas até que elas as rejeitem. Seu papel é ficar com a mãe.

Exemplos de sintomas físicos:

Pediatras nos encaminham certos casos que passam por inúmeras consultas, tratamentos, e continua a persistir o sintoma (incontinência, magreza patológica, anorexia, insônia, enxaqueca, asma, alergia, etc).

1. C. sexo masculino, 6 anos: incontinência. Mãe: “Se eu não tivesse tido filhos, teria podido acompanhar meu marido em suas viagens.” O pai de C. vive na África. A mãe fica sozinha, fica mal sem o marido, não trabalha, está abatida, sem amigos. Ela já não existe fora de seus filhos. Eles vão pagar pelo fato de terem nascido. A mãe é autoritária com C. e briga com ele por causa do xixi. O sintoma de C. expressa uma rebeldia contra essa mãe proibidora, que não leva em conta seus desejos do filho. A mãe veio, através desse filho, procurar ajuda para si própria. Ele era o testemunho da sua aflição. Foi através desse filho que essa mãe pôde formular a sua questão. Mas não estava ainda madura para uma análise pessoal. Então ela ainda continua a necessitar de C. para traduzir a sua aflição. Se lhe tiram o menino, ela sente-se tomada de angústia

Essas mães deveriam aceitar a sua existência própria, independente da dos filhos. Aí a criança poderia também melhorar.

2. M. sexo feminino, 12 anos: sofre de enxaqueca, é asmática. A mãe vem ficar junto com M. na cama, toda vez que ela tem enxaqueca ou crises de asma. O pai é afastado dessa relação pela mãe, ele fica excluído. Os avós maternos vivem junto e participam muito. A mãe é muito ligada aos seus pais e à filha. M.: “De 15 em 15 minutos mamãe me pergunta se estou com dor de cabeça. Papai não quer, mas não é ele que manda. Então, mamãe me interroga, me faz tomar comprimidos, sempre para o meu bem, ela quer fazer alguma coisa.” M. não tem o direito de praticar esportes ou estudar música. Tudo lhe é proibido em função de sua enfermidade orgânica. M. não tem desejos, ela é o desejo materno. O seu mal-estar orgânico é a expressão da angústia da mãe. A criança com o seu corpo traduz uma angústia que tem sua sede na mãe. A ausência de um pai que proíba, que se interponha nessa relação, traz conseqüências para o desenvolvimento de M. O que não pode ser vivido em palavras é vivido como um mal-estar corporal. Pai para a mãe: “Eu sempre lhe disse que a menina servia para você se afastar de mim (para evitar as relações sexuais).

A doença, nesses casos, parece sempre uma garantia para a mãe contra a sua angústia, os seus conflitos. O sintoma de uma criança mascara a angústia da mãe. A principal preocupação desta torna-se o combate do sintoma. Este serve muitas vezes para a mãe eximir-se às solicitações do mundo exterior (a fragilidade da criança é invocada para não viajar, não sair, não trabalhar). Esse mecanismo na relação mãe-filho precisa ser visto a tempo porque é inconsciente e fixa a criança nesse papel e a estrutura numa neurose.

A doença da criança serve ao equilíbrio da mãe. Mãe e criança têm, no plano inconsciente, quase que um só e mesmo corpo. O sintoma da criança é um eco à angústia materna.

O pai precisa entrar nessa relação tão primitiva mãe-filho, como o representante da Lei, do social, para ajudar essa criança a se estruturar. Assim, o filho pode ter desejos externos à mãe, e a mãe preocupações outras que não só o filho.

É decifrando o segredo incluído no sintoma que permitimos a uma criança exprimir-se numa linguagem diferente da do corpo, dos sintomas escolares e dos distúrbios de comportamento.

¹ Richter, Horst E. – A família como paciente, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2ª. Edição, 1990.

² Citação do Dr. Paulo Gaudencio

 

Bibliografia:

Mannoni, Maud – A primeira entrevista em Psicanálise, 7ª. Edição, Ed. Campus, Rio de Janeiro, 1981.

Richter, Horst E. – A família como paciente, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2ª. Edição, 1990.

Soifer, Raquel – Psicodinamismos da família com crianças, Ed. Vozes, 2ª. Edição, Rio de Janeiro, 1982.

Ackerman, Nathan W. – Diagnóstico e tratamento das relações familiares, Ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 1986.

Dolto, Françoise – Dialogando sobre crianças e adolescentes, Papirus Ed., Campinas, 1987.

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"Como os sintomas dos filhos podem estar expressando uma resposta à demanda dos pais”

O que é sintoma (físico, escolar ou de comportamento)
A criança que "empaca”
A angústia dos pais e o sentimento de culpa
O lugar da criança na família
Função materna e função paterna
A função libertadora da Psicanálise
A criança e seu Desejo

"O que é sintoma"



Uma criança é trazida para análise pelos pais com uma queixa. A queixa parental encobre com freqüência sintomas mais sérios, ou pelo menos diferentes daqueles que motivaram a consulta. A queixa é geralmente dos pais/da escola, o sintoma é da criança, uma questão que ela vai formular em análise. O sintoma causa um sofrimento ao sujeito, é um incômodo vital. Por exemplo: pais separados pedem uma consulta porque estão preocupados com uma enurese freqüente no filho de 08 anos. Sentem vergonha de autorizá-lo a dormir na casa de amigos, ficam em dúvida quanto a mandá-lo para um acampamento escolar. Perguntado ao menino se gostaria de saber sobre sua enurese, começa a dizer que quer entender porque seus pais se separaram. Sonha constantemente com a volta do pai para casa, e, ao acordar e perceber que não é verdade, fica muito triste e sem vontade de ir para a escola. Resiste a dormir para não sofrer a tristeza do despertar. Enfim, o fio inicial que nos conduzirá será a escuta do luto difícil da separação do casal parental e não a enurese. Quem determina aquilo que é e aquilo que não é sintomático é o discurso do sujeito, seus pontos de sofrimento.

A matéria-prima é a palavra, em suas diferentes manifestações fenomênicas, palavra esta que vem pela via do jogo, do desenho, ou encarnado num sintoma corporal. Ex: "Mamãe não pára de me dizer coisas intragáveis ... " fala uma menina de 9 anos, com vômitos recorrentes.

Por exemplo, se uma criança apresenta como sintoma um bloqueio escolar, se entrarmos pelo lado de uma reeducação corre-se o risco de favorecer as defesas da criança. A Psicanálise afirma que o sintoma é uma linguagem, uma mensagem que nos cabe decifrar. Ouvindo o discurso dos pais e da criança, podemos perceber qual o lugar que esta criança ocupa no seio da família, assim como os outros membros.

O sintoma é a expressão de algo que foi recalcado, que não foi dito. É a ponta do iceberg. A criança não consegue falar sobre o que a angustia, não faz simbolização, então aí se faz o sintoma, a atuação, aí empaca no seu desenvolvimento. Para ela o sintoma é seu grito de alarme, seu pedido de ajuda. A criança vai se exprimir nos símbolos do sintoma. É decifrando o sentido incluído no sintoma que permitimos a uma criança se exprimir numa outra linguagem, que não a do corpo (distúrbios físicos), a do atraso escolar (distúrbios escolares), a da agressividade e violência (distúrbios de comportamento).

Não é tanto o confronto da criança com uma verdade penosa que é traumatizante, mas o seu confronto com a "mentira" do adulto. No seu sintoma, é muitas vezes essa "mentira "que ela expressa, e o que lhe faz mal não é tanto a situação real, quanto aquilo que não foi claramente verbalizado. É o não-dito que aqui assume importância, se transformando em sintoma. Portanto, analisando o sintoma, caminhamos para além da queixa, e abrimos espaço para um trabalho analítico para ver qual o significado que está ali e liberar a criança com seu Desejo.

Lacan disse a respeito do sintoma: "O sintoma se desfaz completamente numa análise da linguagem, porque ele mesmo está estruturado como uma linguagem, porque é uma linguagem cuja palavra deve ser liberada". Exemplos. M. – chamada pela mãe de "menina de rua, a que vive na rua" e que perde na mesma todos os dons que tem; A. - "detetive" a serviço da demanda materna, no seu ciúmes incontrolável.

No momento em que esse processo é liberado e o não-dito entra na simbolização/cadeia significante, o sintoma desaparece. É como se a palavra "desancorasse "o sujeito. O sintoma da criança se encontra no lugar desde o qual pode responder ao que há de sintomático na estrutura familiar, o recalcado, o não-dito, os fantasmas parentais (suas neuroses). Isto é inconsciente. Qualquer tentativa de ajuda e compreensão da criança e seus pais passa através da escuta atenta do discurso e suas falhas, onde a tarefa de constituição de uma subjetividade fica interrompida.

"O papel da Psicanálise e sua especificidade"

Em Psicanálise infantil, por ocasião das primeiras consultas, estamos submetidos ao pedido dos pais, que pode ser urgente, cheio de culpa e angústia.

O analista não entra aí como pedagogo ou médico psiquiatra, com o risco de deixar escapar o que é essencial- a apreensão psicanalítica do caso, ou seja, o lugar que essa criança ocupa no discurso dos pais ( lugar da incompetência, da inteligência, daquele que veio para realizar os sonhos que não realizaram). O sintoma da criança tem a ver com a sua alienação no discurso do Outro, com a sua tentativa de responder à suposta demanda desse Outro, fazendo "um" com ele (ou respondendo pelo avesso, pela via da agressividade ou rebeldia - o que é extremamente ineficiente, pois também não marca a separação, nem abre o caminho do Desejo). Fazer "um " com o outro é da ordem do impossível.

É neste sentido que a Psicanálise é libertadora. E ela vai na direção oposta que vão certos discursos psicológicos ou pedagógicos que visam a adaptação. A função da Psicanálise não é de uma reeducação emocional, a qual acabaria por perpetuar o sintoma da criança, fortalecendo as suas defesas, mas de ajudá-la a se colocar no seu devido lugar (A. era escudo da mãe frente ao pai, usado por ela de uma forma “ilegal”, incestuosa) lhe restituindo o seu direito à palavra (esse menino só podia repetir o discurso materno) e ao acesso ao seu próprio Desejo.

Escutamos a história e o relato do paciente para poder determinar os acontecimentos significantes, onde se tece uma estrutura desejante, não para incluir o sujeito em séries estratificadas de dados em relação à sua inteligência, emoções ou afetos (testes, jargões, entre outros).

Para a criança, a sua própria história, que a Psicanálise lhe permite recontar, a seu modo, não é uma história de mocinhos e bandidos, de vilões ou heróis, mas uma história que terá a sua própria versão.

“A criança tem um lugar que pré-existe ao seu nascimento”

A criança ocupa um lugar no discurso dos pais, que pré-existe ao seu nascimento. Ao escutarmos os pais, podemos perceber quais os significantes que existem nessa relação e qual significação que esta criança tem para eles. Desta forma, escutando os três, podemos inseri-la numa ordem simbólica (exemplo A. filho de uma suposta “elite” intelectual, ele estava no melhor colégio, o melhor isso aquilo... ele era super... e tinha vários preconceitos contra as pessoas, nordestinos, negros... aí os pais se assustaram!) A ordem simbólica é anterior ao surgimento de um sujeito humano individual; é trans-individual. (ex. R. resolve ter um filho “para ser respeitada pela família do marido”, era a segunda esposa ... )

Antes do nascimento de uma criança, seus pais elaboraram uma trama de palavras em tomo do lugar que lhe é reservado. Falam dela, sonham com ela, escolhem o seu nome, inscrevem-na numa história onde o que conta é o lugar do desejo que a espera e a qualidade do desejo dos pais entre si. Há um lugar reservado para ela no discurso familiar, e na ordem das gerações onde ela vem a se inscrever. Apesar de, no entanto, não ter acesso a uma palavra que lhe seja própria, é falada por outros, marcada simbolicamente (ex. C.I. que apresentava dificuldades escolares, tinha o nome do tio, que ia muito mal na escola, a mãe ajudava esse irmão, como fazia agora com o filho).

A língua se encontra sustentada pelos sujeitos falantes, mas como estrutura constituída precede a um falante em particular.

O lugar que é dado à criança pela linguagem, ela não tem escapatória, porque é aí que a criança surge como sujeito.

Não se trata de que o sujeito incorpore a linguagem, como o sustenta a Psicologia Evolutiva. Esta simplesmente registra como o ser humano aprende a falar, mas nada pode fazer ou dizer acerca do porque alguns seres humanos não falam (autismo) ou falam sem se comunicar ( esquizofrenia).

Trata-se, isto sim, de que o sujeito é efeito da linguagem que pré-existe a ele, e que ele é admitido na linguagem pelo preço de se fazer representar como mais um significante. (exs. “Gracinha, Bonequinha, Encrenca,Estrupício, Princesa...” )

“A Função Materna e a alienação no discurso do Outro”

No início da vida do bebê, a relação é muito intensa e praticamente exclusiva com a mãe. Para o bebê não existe diferenciação entre o seu corpo e o corpo materno, que lhe supre todas as necessidades físicas e emocionais. Esta é uma relação primitiva, simbiótica e necessária. Não há diferenciação Eu-Outro.

"... É dessa ordem a posição inicial da criança como objeto único do desejo materno, da Lei arbitrária e onipotente do seu desejo (materno), ao qual está submetida passivamente."

No início, antes dos seis meses, há uma representação parcial e difusa do corpo, que corresponde ao registro da pura informação biológica ou fisiológica, que também é parcial - ex. uma dorzinha de dentes, um incômodo postural, as sensações de fome e frio, etc. A essa vivência psíquica Lacan chama de "fantasia do corpo fragmentado".

Lacan chamou de “Fase do Espelho” o período seguinte, que vai dos 6 meses a 1 ano e meio aproximadamente, a partir da identificação com a imagem do semelhante como forma total e pela experiência concreta em que a criança percebe a sua própria imagem num espelho. Este é o momento do esboço do que há de ser o ego. À experiência anterior de fragmentação sucede a unificação imaginária do corpo. No entanto, não há ainda integração do esquema corporal. O que há é a imagem e esta dá origem ao Eu Ideal. A criança se identifica ao Desejo materno, responde ao que supõe ser sua demanda. Nesse momento esse é o seu existir, nessa alienação, e isto é, neste momento, necessário, pois funda o Narcisismo Primário (a mãe o deseja comendo, sorrindo ... )

Portanto, esse Eu que se constitui, não é o Sujeito do Inconsciente, ele é a imagem que se tem de si próprio e não o lugar da verdade do sujeito.

O Eu vem antes que a criança comece a falar ( 6 meses a 18 meses), apesar dela já estar na linguagem, e o Eu é uma condição para isso acontecer (com autistas isto não ocorre, não há sujeito falante).

Como vimos, o outro no qual a criança se aliena é o outro humano, geralmente a mãe, cuja presença enquanto unidade, fascinante na sua completude, captura-o visualmente. Não se trata simplesmente de ver-se no espelho que é a mãe, mas que este processo está também sustentado pelo olhar da mãe (que lhe dá a matriz simbólica ao portar em si mesma a expressão de seu Desejo). Diferente da mãe da necessidade, que não olha, que não investe libidinalmente com amor. A mãe desejante atribui um sentido às manifestações da criança, seu choro, seu grito... (é dorzinha de barriga, é o dentinho, está com soninho...)

O bebê fica com essa imagem de completude, mas ela é ilusória. (nessa fase o bebê ainda não fala e nem anda). Ele e dependente.

Esta Fase do Espelho se divide em 3 momentos:

1) A criança se confunde com o outro. Se o outro cai, ela chora. É o transitivismo infantil - não há diferenciação Eu-outro. "Tenho medo do cachorro. Fecho os olhos para que ele não me veja."

2) A criança percebe a diferença no espelho entre a imagem do outro e a sua e a realidade do outro e a sua.

3) A criança reconhece essa imagem no espelho como sendo sua - unidade imaginária do corpo - pelo reconhecimento da imagem corporal.

Essa matriz impede que a criança caia na experiência de fragmentação angustiante das representações proprioceptivas iniciais, tão típicas dos fenômenos psicóticos da infância. É também extremamente importante porque sua conquista permitirá que reconheça a diferença entre interior e exterior, dentro-fora, o que pertence ao Eu e o que não pertence (diferente da paranóia).

Isto nos leva a pensar criticamente as correntes psicoterápicas que se fundamentam no fortalecimento do Ego: qual seria o sentido de fortalecer uma instância que implica o desconhecimento de uma alienação que o funda tornando-o alheio de si próprio? Uma instância que, na sua origem, consistiu em considerar a imagem do semelhante como se fosse ele mesmo, se esse Eu a ser fortalecido não é outra coisa mais que um outro? Fortalecer o Eu não é mais que reforçar a alienação inicial, na qual ele se constitui.

Quando falávamos da captura da criança na imagem da mãe, também dissemos que ela "olha-o", entendendo-se por isso o desejo materno que circula junto com os primeiros cuidados, desejo articulado na ordem simbólica na qual ela se constituiu como sujeito (a neurose da mãe vai moldar a do filho). Ela o desejará sorridente, comendo bastante, parecido com seu pai, ou com outro bebê recentemente perdido, etc.

A criança, no início, está a tal ponto subordinada ao discurso do Outro/discurso materno, que antes de poder chamar sua própria imagem corporal de Eu, ou de se nomear com o seu nome próprio, ela chamará a si mesma de "o nenê "- "O nenê quer água..." Esta é a designação que vem desde o lugar do Outro - lugar das palavras - e que repetirá especularmente. E o Inconsciente vai se constituindo.

Então, temos um sujeitinho de carne e osso, com seu corpinho, sua imagem corporal, seu Eu, e existe também um sistema simbólico que veio via linguagem, via Desejo da mãe, que alienou o sujeito, mas que o estruturou também.

Nesta Fase do Espelho, a criança está numa relação de indistinção quase fusional com a mãe. Isto porque "parece" que o bebê complementa a mãe, a sua falta. Ela está identificada ao que supõe faltar à mãe. "Parece" que o desejo da mãe só se direciona a ela. E o desejo da criança está submetido ao desejo materno. Como vimos, a alienação da criança é total.

"A Função Paterna e a criança posicionada em relação ao seu próprio Desejo"

Só que a criança, num determinado momento vai perceber a existência do pai, para quem o desejo materno também se direciona. Representa uma ferida no Narcisismo da criança e é a chamada "Castração". O pai faz simbolicamente uma separação entre mãe / bebê e esta operação se chama "Função Paterna". Ele priva a mãe do objeto fálico do seu desejo, frustra-a e interdita à criança a satisfação do impulso (Édipo). Barra esse duplo gozo.

É super importante que esta Função Paterna opere para que a criança se estruture psiquicamente, aceda ao Simbólico. Porque o pai age como o "representante da Lei", aquele que separa a criança da mãe, e permite que a criança se desenvolva. Esta Lei é a Lei contra o Incesto, ou seja, a lei que provoca a separação mãe/ criança e faz aparecer a falta, que sempre esteve aí, porque é da vida. A falta abre um espaço de discriminação entre Eu-outro e mostra a não completude, o impossível. Aí é então possível o Desejo (ex. burrinho com a cenoura pendurada na frente não vai parar de andar).

A criança, desta forma, é capaz de substituir o significante do Desejo da mãe pelo significante do Nome-do-Pai. Isto traz conseqüências importantíssimas, como o aprendizado da linguagem (falada e escrita), a vida em sociedade, e principalmente a questão da identificação sexual. A gente nasce com o sexo biológico, mas se torna homem ou mulher. Também se fazem outras identificações, marquinhas, tracinhos, que vão constituir o Ideal de Ego e o Superego. Se eu já não sou, então quero ser... quero ter...(Ideal de Eu) e tomo conta de mim (Superego).

Se essa função não opera, podemos ter sujeitos perversos (psicopatas) ou psicóticos. Mas para esta função operar a mãe precisa validar a palavra do pai, reconhecendo sua Lei como aquela que mediatiza seu próprio Desejo, ou seja, ela também é castrada, está submetida à Lei Simbólica, como também o pai.

No entanto, não é necessário o pai encarnado num homem real. Ele pode estar longe ou morto, mas operar separando.

Conclusões

Se este processo não se dá, ou se dá de forma defeituosa, a criança acaba comprometida, empacada, fazendo sintoma. Pode acontecer da criança não conseguir se separar do discurso materno, ou de quem sustentar esta função, por uma falha qualquer na incidência da função paterna (o extremo disto está nas psicoses.De qualquer forma, seja na neurose, na perversão ou na psicose, o que há é uma falha do sujeito no registro simbólico. A criança está alienada de seu desejo, e aí não pode estudar, brincar, fazer esporte, ter convívio social, ou seja lá o que for (ex. A. sintoma de agressividade, uma forma de se separar do outro/mãe, de se diferenciar). A alienação é no discurso do Outro e mantém a relação arcaica com a mãe. A criança não pode contar até 3, ou seja, incluir o pai na triangulação edípica, o que lhe possibilitaria "a vida".  
          
A mãe precisa poder suportar o luto da separação, para poder permitir que esta criança exista independente dela.

A Psicanálise intervém, quando necessário, no lugar de um terceiro, fazendo referência à Lei, interditando o gozo e permitindo à criança a simbolização deste processo. Assim, a criança se coloca numa filiação.

A criança então entra na Latência, recalca esta cena, constrói o seu fantasma e a sexualidade virá aflorar novamente com tudo na Adolescência, com a reativação do Complexo de Édipo. Porém, agora ela deverá ser direcionada para outros objetos de amor, fora da família, para o mundo, para a sociedade.


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"UMA NOVA CONFIGURAÇÃO DA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA"


A família tem um papel fundamental na constituição do sujeito humano. Ela é a base de sustentação do indivíduo e seu modelo de identificação. É raiz, referencial, ponto de partida. Indica rumos, valores, a direção a seguir. A família imprime marcas, define traços, que, ao longo da vida, serão naturalmente questionados pelo indivíduo, no seu processo de crescimento.

Pais equilibrados respeitam a identidade dos filhos, possibilitando seu crescimento emocional. Permitem que eles tenham acesso à vida adulta e se tornem sujeitos responsáveis.

Mas para que isto ocorra, crianças e adolescentes precisam se sentir amados, com espaço para trocas afetivas de qualidade e estabelecimento de vínculos consistentes.

Muita gente se preocupa com a configuração atual das famílias. Hoje é muito comum famílias de múltiplos casamentos, na qual interagem filhos de casamentos anteriores com meio-irmãos, o novo companheiro da mãe ou a nova companheira do pai com os filhos do parceiro. Enfim, há ampla variedade de composições familiares.

O modelo da família tradicional constituída por pai, mãe e filhos ruiu como norma geral (ela existe e que bom quando existe!) Hoje muitos casais se separam. Livres de pesadas exigências sociais, as pessoas buscam, mais do que nunca, a felicidade.

O modelo da família tradicional não é garantia nenhuma de saúde e equilíbrio emocionais. Pelo contrário, muitas vezes é lá que está a falta de amor ou a "loucura". O que de fato é preciso garantir não é a forma, mas o conteúdo, ou seja, as "funções" desempenhadas pelos pais, assim como sua qualidade.

E isto pode acontecer nas diferentes circunstâncias da vida, para filhos de pais separados ou não, nas famílias híbridas ou nas tradicionais. Pais felizes e equilibrados formam filhos felizes e equilibrados.

De que adianta uma mãe presente 24 horas, chata e neurastênica, que mantém um casamento infeliz, ou um pai culpado e que só cumpre obrigações?

Pais imaturos, totalmente inadequados nas suas funções paterna e materna provocam muitas vezes uma confusão de papéis que acaba deixando a criança insegura e desorientada.

Vínculos frouxos, pobres e sem nenhuma consistência emocional afetam a qualidade das trocas afetivas na família, trazendo sérias conseqüências para os filhos.

De qualquer forma, pais e mães de famílias híbridas são pessoas que puderam, em algum momento da vida, encarar dificuldades, a realidade da vida, indo em busca de algo novo. Gente que deu a volta por cima, que encarou desafios. Gente que pôde expôr fraquezas, dizer a seus filhos que não têm todas as certezas do mundo.

Isto traz alívio e tranquilidade para a criança porque faz diminuir as idealizações. A vida real é muito, mas muito mais interessante do que a ficção!

 

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O QUE É ADOLESCÊNCIA
História e Rituais:

 

A adolescência é uma invenção relativamente recente. O conceito de "adolescência nasceu, na verdade, no Ocidente, na Modernidade. A Antropologia nos ensina que nas sociedades menos evoluídas, a passagem da infância à idade adulta é mais claramente pontuada do que entre nós. Esta passagem se faz de forma gradual e facilitada por práticas societárias encontradas nas sociedades tradicionais, através da iniciação. Os modelos de iniciação são diferentes de uma sociedade para outra, mas servem à integração social do sujeito no mundo adulto. Ele adquire um nome, e aprende aquilo que ele deve saber sobre os valores da sociedade, dentro da qual seu lugar está reservado. Este acompanhamento dos adultos na aventura cultural dos adolescentes falha no nosso tipo de sociedade ocidental. O único modelo de passagem da infância ao estatuto adulto que se oferece às crianças é o modelo escolar. Mas fica meio obscuro. O adolescente chega à idade adulta sem garantia nenhuma quanto ao seu lugar, existindo muito a perpetuação da dependência infantil. O Estado toma o lugar dos pais. Mas pelo menos teoricamente, o jovem adulto tem que encontrar seu lugar na sociedade, sua independência.

Portanto, a adolescência é uma instituição historicamente determinada, um fenômeno da Modernidade, que atinge o jovem do Ocidente por ocasião da eclosão da puberdade, quando, por falta de dispositivos em geral presentes nas organizações societárias pré-modernas ou não ocidentais, a passagem da criança ao jovem adulto se tornou problemática. A adolescência, portanto, longe de ser puramente biológica ou social, é antes o produto do impacto pubertário e a intensificação de exigências sociais sobre o jovem em vias de deixar a infância, sob certas condições de cultura que caracterizam a civilização ocidental hoje, e a partir do estabelecimento de certas alterações na história desta civilização que especificam a modernidade. Mas, a que necessidade a adolescência veio responder? A subjetividade viu-se forçada a produzir em seu interior, algo novo, que funcionasse em equivalência com aquilo que desaparecera fora.

Se a necessidade que instaurou a adolescência foi um produto da modernidade, podemos, então, supor que só se tornou necessário ao jovem adolescer quando desapareceu da vida social e das práticas comunitárias a eficácia com a qual a sociedade pré-moderna podia dotar os ritos tradicionais, eficácia esta capaz de tornar possível a conversão do real implicado nos apelos corporais e sociais na puberdade em significante constituinte para o sujeito de sua subjetividade adulta.

Na ausência da eficácia ritual acima referida, o apelo corporal e social atinge o jovem sob a forma do não-simbolizado, isto é, sob a forma do real: aturde-o, sidera-o, produz-lhe estranhamento e o mantém estupefato e mudo. Desentendido, ele não tem como responder a esse apelo senão pela produção do “adolescer”.

O adolescer é, então, o substituto e o herdeiro da eficácia ritual perdida na modernidade. O processo da adolescência deverá durar o tempo necessário para realizar, na intimidade do sujeito, aquilo que o ritual tradicional, provido da eficácia que ele só encontrava na sociedade pré-moderna, podia realizar em um tempo bastante curto. O adolescer tornou-se uma necessidade.

A adolescência veio ao mundo quando a passagem da criança ao adulto tornou-­se problemática, em função da perda da eficácia dos dispositivos societários, que agiam de modo a enfrentar aquela problematicidade antes que o sujeito por ela se siderasse. Na falta destes dispositivos, o sujeito teve que lidar solitariamente com a questão, não podendo senão adolescer. Adolescer é solicitar uma moratória para poder responder somente após um segundo crescimento ao apelo pubertário e social. O trabalho psíquico que é feito na adolescência é do mesmo teor do que ele substitui. O que lá era uma prática social, aqui é uma tarefa solitária, o que lá se dava com tranqüilidade, aqui é feito sob crises e tensão, o que lá estava armado pela tradição, aqui se dará pela invenção.

O real do impacto pubertário-social, enquanto real, ou seja, enquanto aquilo que atinge o psiquismo sob o modo do ser bruto, isto é, ainda não simbolizado, ou produzirá um sujeito desentendido, de alguma forma, ou exigirá um dispositivo simbólico - pronto na cultura, ou capaz de ser construído pelo sujeito, eficaz para simbolizá-lo. Aquele que está em sua vida sempre diante do real é o psicótico, pois sua condição subjetiva está definida por uma falha na simbolização.

O jovem púbere não-psicótico, quando aturdido pelo real, não terá a loucura à sua disposição e nem mais encontra, na modernidade, o dispositivo comunitário em condições de ser eficiente para simbolizá-Io. O encontro com o real se inscreverá em seu inconsciente como um indecifrável apelo que lhe vem do campo do Outro, que ele não pode deixar de ouvir, mas que ao mesmo tempo não compreende. Siderado ele só pode perguntar: Mas o quê quer o Outro de mim? Só que ele não consegue responder. Sua única resposta muda será adolescer. A pergunta deverá se transformar em "O que eu desejo? É a única saída. A adolescência então, se torna um processo necessário para a constituição da subjetividade do homem adulto na modernidade.

Definir esta passagem como uma "iniciação" é um critério pertinente. Os judeus possuem uma cerimônia especificamente masculina (bar mitzvah) ou feminina (bat mitzva) para este fim iniciático. Trata-se de uma equiparação do sujeito perante a lei. Ele passa a ser responsabilizado, ou, antes, deixa de ser tido como irresponsável. Ele deverá responder perante a lei por seus atos. Por seus direitos, em compensação, deverá batalhar por sua própria conta e risco. Ninguém pode garantir seu gozo ou desejo.

Em várias sociedades existem rituais de passagem, a maneira como se introduz o sujeito num processo de simbolização que abre a outras representações. O rito faz imagem, metaforiza a problemática interna do sujeito. A adolescência aí reencontra o seu sentido. Os rituais de passagem da adolescência existem dentro de um bom número de grupos sociais e reconhecem de maneira simbólica a chegada da puberdade e suas conseqüências, o acesso do corpo à sexualidade, à capacidade de reprodução e ao prazer - e secundariamente eles conferem ao sujeito o direito à autonomia - dentro dos limites da tradição e costumes sociais.

No século XVI, na França, na adolescência, os jovens renovavam seus votos do batismo, depois de receberem uma instrução religiosa apropriada. Aos 12-13 anos eles simbolicamente entram no mundo dos adultos, que reconhecem na criança a capacidade de se engajar, de pronunciar ela mesma seus votos, em seu próprio nome. O jovem entra no mundo do trabalho, exceto aqueles que continuavam os estudos, renunciando aos privilégios da infância.

Através desta cerimônia, inconscientemente, sem terem pensado conscientemente nos efeitos, a sociedade dava um lugar a suas crianças no meio dos adultos, os autorizava a viver, responsáveis e capazes de assumir comportamentos adultos. Todo o simbolismo da festa, do costume à Iiturgia, coloca em evidência que o reconhecimento social da puberdade e da sexualidade nascente estava implícita naquela cerimônia.

A emergência da noção de crise da adolescência é contemporânea à extinção do ritual. A crise é um sinal de apelo que manifesta o medo, a insegurança do jovem dentro de um corpo que muda. A crise faz surgir manifestações de violência, de independência e originalidade. O adolescente não sabe mais quem ele é e quer saber. Podemos dizer que a crise é o equivalente do rito. Ela é mais solitária, individual, mais difícil de ser simbolizada.

Uma sociedade que desinveste em seus rituais de passagem reenvia o jovem a ele mesmo, lhe diz que ela se desinteressa de suas dificuldades, que ela recusa a evidência de sua mudança.

Existe em nossa sociedade um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se exige do adolescente uma autonomia plena e precoce, de outro lado mantém-se o jovem dentro de um sistema de não acesso a esta autonomia ao se prolongar os sistemas de dependência - a obrigação escolar e a prolongação da formação profissional. É uma situação incoerente de uma sociedade tecnocrática, onde se dá ao jovem um reconhecimento da maturidade civil, mas antes de lhe possibilitar os meios de gerar de modo responsável sua própria vida.

Os ritos ou as crises são necessárias, uma vez que permitem a expressão da rivalidade em formas simbólicas. Os pais podem facilitar o processo ou dificultá-lo.

O que é a Adolescência

A adolescência não se refere a uma faixa etária simplesmente, entre a infância e a idade adulta ou a maturidade. Talvez possamos demarcar seu início com a "puberdade" na qual ocorrem os fenômenos de mudança corporal, determinados biologicamente. No entanto, o que nos interessa são as mudanças subjetivas que o indivíduo terá que operar para dar conta das transformações corporais e psíquicas, que levam à maturidade genital, à possibilidade de se relacionar sexualmente e procriar, o novo estatuto social, as exigências que agora lhe são feitas, as responsabilidades que se vê tendo que assumir. Na adolescência há uma mudança na relação como o Outro. O adolescente pode ser comparado ao herói trágico, atormentado por dúvidas do processo de sexuação e das escolhas profissionais. As perguntas: "O quê é ser homem?" e "O quê é ser mulher?" ultrapassam as questões anatômicas, são muito mais abrangentes. E têm as especificidades dos dias em que vivemos. O que significa ser um ou outro "hoje"? Qual o meu lugar na Cultura? No social?

Somente o biológico ou o social não dão conta de explicar a Adolescência. Freud colocará o desejo em jogo, em relação à interioridade do sujeito, enquanto Lacan colocará o "campo do Outro", a exterioridade. Todo o aparelho psíquico está constituído para responder com palavras, sintomas, angústia, fantasias, inibições, atos falhos, sonhos, à demanda que vem do Outro. O quê vem do campo do Outro para o adolescente?

A adolescência é mais do que uma época da vida, algo temporalmente restrito, com início, meio e fim, a temporalidade desta pode variar infinitamente. Trata-se de um tema abordado exaustivamente, desde a revista científica até a feminina, do suplemento teen do jornal ao livro dirigido aos próprios, do comentário do doutor no rádio ao DJ entre as músicas. Mas o que é isso que provoca tanta sinfonia discursiva?

Boa parte dos dramas sociais encontram de alguma forma sua performance mais expressiva neste período. Com o fim da infância, deixamos de ser uma esperança, de encarnar potencialmente todos os sonhos em nome dos quais existimos, e passamos à condição adulta, ou seja, o período em que somos apenas o que conseguimos, que, por melhor que seja, será sempre insuficiente, pois não será tudo. Qualquer escolha que façamos traz sempre inevitavelmente a perda dos caminhos pelos quais não optamos. Mas antes de se submeter a um destino qualquer, a adolescência é uma época em que fomos abandonados pelas esperanças e nos dedicamos a alguma forma de manifestações espetaculares, como as grandes paixões amorosas e políticas, até os desvios de conduta, as toxicomanias, o alcoolismo, a delinqüência, a frivolidade dos encontros sexuais, o consumismo, as roupas provocantes, as marcas no corpo, a grandiloqüência na relação com a vida e a morte e tudo o que faça viver no limite. São "prazeres", que estão geralmente acompanhados da morte, em adolescentes que têm muitas queixas e sofrimentos, mas que dificilmente conseguem colocá-Ios em palavras. Há um "gozo" do desviante, e devemos nos lembrar que vivemos em tempos narcísicos, em que o gozo total é colocado como meta possível, pelo discurso capitalista, o que, sabemos, é da ordem do impossível. Mas se aí se tenta chegar, o que se tem são os sintomas, o sofrimento. É a subjetividade de nosso tempo. Objetos são oferecidos, o tempo todo, como se pudessem preencher a falta. O carro, o celular, a garota bonita, a droga. O corpo perfeito. É a objetalização do sujeito também, se alienado neste discurso.

Voltando ao adolescente, este "outsider", aquele que já não é mais criança, mas que ainda não é adulto também, que está num impasse, que busca um lugar.

A adolescência é o período em que o sujeito vai ter que articular a subjetividade infantil, onde os pais são as figuras fundamentais da afetividade, e a subjetividade adulta. Ele reviverá a questão edipiana, só que desta vez, para se separar definitivamente dos pais e construir sua própria vida e identidade. E no  discurso também. As vivências e as emoções relativas aos pais e à forma como o sujeito as experimenta se transferem para outras pessoas. Mas há um trabalho de luto a ser feito. Se este não fôr feito o resultado será a melancolia, uma tristeza infinitamente carregada pelo sujeito que não pôde realizar o seu luto. A elaboração do luto é necessária, e, a partir da falta, o sujeito deve iniciar sua construção subjetiva. A capacidade de criação do jovem é a saída, criação de um discurso próprio, articulado em sua história.

A desidealização é um ponto central na crise da adolescência. Esta desidealização pode levar à melancolia, que tem a pior das saídas no suicídio, ou nas atividades anti-sociais, sendo a mais habitual a rebeldia do adolescente.

A "crise psíquica" vem pela modificação de um estatuto social. Ele agora tem responsabilidades não apenas legais, mas também psíquicas. A ruptura que se opera neste momento da adolescência seria constituída pelo convite a ocupar “um outro lugar”. Seu sentimento de solidão vem da relação a este lugar, o que esse lugar quer ou espera dele, o que esse lugar lhe dá para articular, vai levá-Io a buscar ter seu próprio enunciado, descobrindo a si mesmo como sujeito. A promessa dos pais foi um blefe, ele pensa, e ele modifica seu olhar sobre os mesmos. Eles não funcionam mais como modelos ideais, ele os descobre como seres humanos limitados, em sua sexualidade. O pai lhe aparece como impotente ou castrado. Há uma crise identificatória. O adolescente então busca uma reparação desta imagem no mundo, buscando o "pai ideal". Daí a freqüência da criação dos neo-grupos, de neo-comunidades, de bandos onde se pode cultivar uma identidade e uma similaridade perfeitas, graças aos traços de tipo específico que particularizam cada um dos membros que pertencem a este bando, traços de vestimentas, físicos ou de linguagem; bando em que cada um seria irmão do outro, como se pudesse existir uma igualdade perfeita. Seria como excluir o pai neste grupo. Esta, porém, é uma relação imaginária com o pai ideal, ilusória. Nestes bandos há uma certa tendência à delinqüência, como forma de provocação à autoridade paterna, à sociedade. O chefe do bando poderia ser a encarnação do pai ideal, um irmão entre irmãos. Nestes grupos em que falta a alteridade, se algo se mostra diferente, ele passa a ser o inimigo, a ameaça. Mas é necessário que o diferente possa ser reconhecido como diferente e que se saia da idealização.

O adolescente também procura o mestre, o mestre absoluto. Ele pode se pôr em perigo, de forma absolutamente real, seja pela realização de proezas e de tentativas de dizer que nada vai detê-Io. Proezas que põem em risco a sua vida, desde as proezas físicas, até a absorção de substâncias que comprovam que ele está decidido a ir até o fim, até a perfeição de um gozo em relação ao qual a morte não constitui de modo algum um limite, que ela não lhe causa medo. Porisso ele faz passagens ao ato.

Se o adolescente não está no bando, ele pode ter um companheiro ou companheira, com o qual articula uma relação imaginária de completude, de perfeição, de similaridade. Sempre tentando negar a alteridade e a castração, o pai, esse medroso, esse covarde, esse homem caseiro, esse frouxo, que está no lar. O adolescente tenta forcluir o nome do pai. Ele tenta aparecer na cena do mundo sempre como o ideal, o não-castrado, desde a forma de vestir, até a maquiagem, uma produção em cena.

Sua relação com o Saber é de desconfiança, de recusa, sempre questionada. Mas ele buscará sempre um modelo, um mestre, um guru, ou aquele que se oferece como sendo quem saberia o que é o Bem, ou como se chegar nele.

A possibilidade de enxergar a alteridade, a dimensão do outro, a marca da separação é fundamental para a sua estruturação subjetiva. Aceitar sua solidão como uma contingência de nossa existência. Poder passar do princípio do prazer para o princípio da realidade.

Trata-se de um retorno do narcisismo, só que agora implica na dimensão do Outro, oscilando entre a afirmação da individualidade e a necessidade da "mesmice", em relaçao ao grupo de sua idade, usando uma linguagem comum, vestindo-se e comportando-se de maneira uniforme.

Quando o adolescente faz sintoma é preocupante. Representa o sujeito, ou seja, sua estratégia para lidar com a demanda do Outro, relançada pelo movimento pulsional da puberdade. Esta é uma nova forma de organização da vida sexual infantil, com primazia da zona genital.

O adolescente é aquele que já descobriu a fragilidade do saber dos pais e a relatividade de seu poder. É uma nova versão da castração. "A criança que eu sou não é a criança ideal que meus pais sonhavam ... " Cai o Eu ideal, sua Magestade, o Bebê. Ele não participa mais do mundo das crianças, mas também ainda não ainda do mundo adulto. Passa por uma experiência totalmente nova, para a qual não há representação em seu arquivo interior. Os pais da infância não são mais objetos de desejo, portanto não mais objetos de satisfação pulsional. Procura novos investimentos no mundo fora da família. Emerge a representação da complementariedade dos sexos.

Ele sai da dependência da família para a autonomia. Estas mudanças ameaçam a permanência do sentimento de identidade construído nos primeiros anos da infância.

É o corpo do adolescente que está no coração da adolescência. Um corpo em transformação, um corpo em identificação, um corpo em sexuação. A adolescência é um processo interno. Ela não é a puberdade. Os fenômenos é que são conexos. A bioquímica da mudança pubertária não afeta somente o corpo da criança, sua forma. Ela modifica também seu mundo interno, suas representações, seus afetos, suas emoções, a imagem de seu corpo.

A puberdade se define como o conjunto de modificações essencialmente biológicas e anatômicas que possibilitam a capacidade de reprodução. Através da puberdade, o adolescente se inscreve na perenidade potencial da espécie. Ela é universal porque concerne a todos os indivíduos, no mesmo momento de suas vidas, salvo em casos patológicos. Os fatores étnicos, culturais geográficos parecem a influenciar. Estes fatores, no entanto, não mudam muito a seqüência natural das coisas. Digamos que a puberdade coincida para a menina com o advento das primeiras regras, e para o menino com a primeira ejaculação. Chamaremos de pré-puberdade o período de um ou dois anos que precedem estes fatos. Este período de tempo é caracterizado pelas mudanças biológicas e morfológicas importantes e aceleradas. O longo período de silêncio dos hormônios sexuais que precedem a puberdade, depois da primeira infância.

A adolescência pode se definir como um tempo e como um trabalho: tempo psíquico e sócio-cultural da puberdade, trabalho essencialmente psíquico de integração das novidades que a puberdade inaugura, na história do sujeito. Contam as experiências anteriores da infância, sua educação, que vão facilitar ou prejudicar o trabalho da adolescência. As reações parentais e familiares, as reações da escola, à maturação sexual da criança vão induzir a configurações múltiplas.

Da dependência à autonomia. Assim poderíamos resumir a função do trabalho do adolescente que a puberdade vem iniciar, que se desenha num espaço interno e singular.

A adolescência é uma fase predisponente ao aparecimento de neuroses. O adolescente faz perguntas que parecem não ter respostas, assinalando assim as contradições do discurso do adulto.

Desenvolvimento Psico-Sexual:

Nos “Três Ensaios para uma Teoria Sexual", 1905, Freud coloca a puberdade como uma fase na continuidade do desenvolvimento da libido: a fase genital. Situando-se após o período de latência, as novidades desta fase são: o novo fim sexual com a primazia dos genitais e a retomada da escolha objetal. Na organização genital da libido as pulsões unificadas já na fase fálica, se põem a serviço da nova zona erógena, os genitais. Embora a fase fálica também seja uma fase genital, a diferença é de que nesta última o único genital reconhecido é o masculino. A eleição do objeto infantil será renovada na puberdade, na medida em que retoma o caminho aberto pela escolha infantil. É no contexto da retomada da escolha objetal que se dá a chamada "novela familiar" na qual aparece uma decepção e a quebra da sobrevalorização dos pais.

As revelações sexuais para o pré-púbere despertam as antigas fantasias sexuais com a mãe e os ciúmes do pai. O Complexo de Édipo é determinante na escolha objetal. Na adolescência, com a reedição do Complexo de Édipo, o sujeito se depara com a barreira moral do incesto. Ele irá então escolher outros objetos fora de seu círculo familiar, com os quais seja possível uma vida sexual real. Estes outros objetos, no entanto, serão escolhidos de acordo com o protótipo dos infantis. A tarefa da puberdade será também renunciar aos objetos infantis e retomar a corrente terna e sensual, de modo a poderem coincidir num só objeto no qual possam se unir todos os desejos.

Quanto às identificações, a primeira é com o pai. Só depois é que o sujeito toma a mãe como objeto de amor. A ambivalência está sempre junto à identificação. É no Édipo que ocorre importante processo de identificação, operação pela qual o sujeito se constitui. Os investimentos nos pais, na adolescência, são substituídos por identificações.

O ressurgimento do Complexo de Édipo na Adolescência mobiliza muita angústia. É a angústia de castração, medo do castigo do desejo proibido. A angústia não é só do adolescente, é também dos pais. A adolescência marca a passagem do tempo para os pais.

Os pais são também participantes do processo e, ao reconhecer o acesso à genitalidade dos filhos, são chamados a se re-situarem em relação à própria sexualidade, maternidade ou paternidade, ao processo de envelhecimento, ao tempo e à morte. Muitas vezes eles não podem reconhecer estas mudanças, que suscitou-lhes uma hostilidade inconsciente.

Freud coloca que é preciso chamar a atenção para a figura do pai, cuja sobrevalorização é tão grande que a imagem de Deus é uma exaltação da imago paterna. O desejo de destruí-Io está ligado ao desejo de tomar o seu lugar. A decepção, de que falamos anteriormente, não chega a destruir essa figura idealizada, mas permitirá que seja transferida para outras figuras, tais como os professores.

O desejo de ser idêntico, mas ao mesmo tempo de superar os pais, são dois lados complementares como o amor e o ódio. A necessidade de superar os limites impostos pela realidade de maneira onipotente se alterna com sentimentos de extrema impotência, desânimo e depressão.

O tema do pai também nos remete ao Supereu - Ideal de Eu. O Ideal de Eu é o substituto do narcisismo perdido na infância por influência das críticas exercidas pelos pais. O Supereu engloba o Ideal de Eu (auto-observação,consciência moral e ideal). O superego é o herdeiro do Complexo de Édipo e conservaráo caráter do pai. Isto se dá após reconhecer o pai como obstáculo aos seus desejos edipianos. Há uma internalização dos pais. O Ideal é muito importante na adolescência assim como a função paterna. Trata-se da busca da identidade e sua possibilidade. Da construção de ideais e realização na vida adulta.

Podemos pensar em "privação paterna" em termos de pai real, representado pela sua ausência, debilidade ou inadequação nas funções, como também no declínio da função paterna, da Lei na contemporaneidade. Este sentimento no desenvolvimento emocional da criança pode determinar uma série de quadros psicopatológicos graves, entre os quais, as psicoses, as drog-dicções e os transtornos psicossomáticos. Existem pais que podem falhar em suas funções específicas, assim como o discurso cultural pode alienar de tal forma o sujeito que lhe propicie a entrada nestes quadros mais graves. (anorexia, bulimia, obesidade, depressão ... )

Papel do Pai:

O papel do pai é ajudar o filho a se separar da mãe, daquele ideal de completude aparente. Também a função paterna ajuda os indivíduos a se separarem de qualquer Outro, até o discurso social, para serem sujeitos de seu próprio desejo, e, portanto, saudáveis emocionalmente. Senão, sem a operatividade da Lei cai-se no transbordamento, no excesso, na ilusão de completude, que, por exemplo, a droga promete. Como o objeto fetiche do capitalismo. Sempre existirá um objeto capaz de preencher a falta. O pai representa também o princípio de realidade, a capacidade de postergação, a continência. Isto dá estabilidade emocional ao sujeito.

Alguns pais são muito autoritários, e não permitem que os filhos se aproximem, e com isto desenvolvam as identificações. Na verdade, são pais fracos e inseguros, que adotam esta atitude para se defenderem. Por não poderem ser firmes, se tornam rígidos. Os filhos podem fazê-Ios fracassar como pais, fracassando eles próprios.

Também deixam de cumprir suas funções os pais perfeitos, que representam para os filhos um superego exigente, um ideal inatingível e favorecem as idealizações. Ao perceberem a falsidade da atitude paterna, os filhos podem desejar revelá-Ia através de comportamentos anti-sociais ou delinqüentes.

Existem os pais que negam as diferenças, que se identificam com os filhos e mantêm uma atitude inadequada tanto para a sua idade quanto para a sua função de pai. Acham que assim ficam mais íntimos do filho. Mas a criança precisa de um pai para competir, de um modelo de identificação. Quando um pai se torna apenas companheiro do filho, o está privando de um referencial adulto muito importante, que o faça crescer, além de deixar de estimulá-Io para que encontre fora de casa seus amigos.

Também não cumprem sua função os pais que são unicamente provedores. O pai precisa descobrir em si sua própria capacidade afetiva, para desfrutar do direito e da satisfação da verdadeira paternidade. Mas se o pai não conseguiu resolver seus conflitos com o próprio pai, repete estes conflitos com os filhos.

Se o pai não cumpre sua função pode levar em casos mais extremos, às psicoses, à promiscuidade, ao homossexualismo, à drogadicção e ao alcoolismo. A adolescência será ultrapassada quando a tarefa de construção de um Pai vier a se dar.

Na nossa sociedade contemporânea há um incremento do narcisismo baseado na primitiva relação simbiótica mãe-bebê. Na prática observamos uma super- valorização dos bens materiais, uma desvalorização dos mais velhos, um culto à juventude e à forma física perfeita, uma indiferenciação nos papéis de homem e mulher e um acentuado apagamento da figura paterna. Em vez do adolescente idealizar o pai, é este que vai idealizar o filho. Vemos muito pais fracos ou ausentes, que se deixam desvalorizar pela mulher, e mães sedutoras (narcisistas) que retêm e gratificam excessivamente os filhos.

A mulher e a criança têm um novo papel na sociedade atual. A mulher ingressou no mundo do trabalho, as tarefas domésticas tendem a ser partilhadas, assim como a autoridade. Mas o pai deve separar a criança da mãe, colocar limites para as duas, mostrando assim a questão relacional, que outros farão parte de seu mundo, além da mãe. Mas a mãe precisa aceitar-se como mulher e valorizar a palavra paterna. Mas hoje em dia os filhos têm cada vez menos pai e mais mãe.

Constituição do Sujeito:

A criança, ao nascer, é um ser de carne (um pedaço de carne) que vem ocupar um lugar na vida fantasmática dos pais. Ela tem uma pré-história, que reside nas relações familiares de uma, duas ou várias gerações passadas, na tradição familiar, na estruturação do cenário imaginário da união de seus pais. Vem ocupar um lugar entre os sonhos perdidos da mãe, fica encarregada de preencher espaços vazios. Enfim, está inscrita no discurso familiar com alguma missão, um script, direcionada por um mundo de linguagem. Deste lugar na fantasia dos pais, no mito familiar, uma parte fica conhecida do sujeito; outra parte é inconsciente. Há aí uma identificação narcísica, qual o lugar que ele ocupa na família, onde ele entra e se situa. Este é o processo de constituição de cada sujeito. Qualquer patologia que se manifeste na adolescência há que se remontar ao estádio do espelho, às primeiras identificações na constituição do sujeito.

A adolescência é uma fase da vida cujas transformações biológicas implicam necessariamente em buscas, desencontros, reflexão, abandonos, escolhas e construções. Implica numa separação do discurso do Outro, num questionamento deste "lugar" até então determinado pelo discurso parental, num distanciamento dos pais. O sujeito tentará um deslocamento, uma mobilidade criativa, o acesso a um discurso próprio, embora sempre endereçado ao Outro, pedindo o seu aval. Mas ele terá que se ver com o seu próprio Desejo.

A forma como cada um resolverá estas questões é que determinará a maneira de acesso ao vínculo amoroso sexual, à maternidade, à paternidade. O sujeito tentará lidar com a falta, ou seja, com o fato de que não há completude, nunca houve, que não há garantias para o seu Desejo, não saberá o que será para o Outro do amor e do sexo, quando sair da célula familiar. Esta passagem da adolescência se dá num tempo e num corpo (erógeno, vibrante), numa determinada sociedade (que está sempre mudando) e num discurso falado, silenciado, atuado.

Real, Imaginário e Simbólico:

As modificações da imagem corporal decorrentes da puberdade fisiológica são sempre vivenciadas como impacto, quando não como uma catástrofe. A aquisição dos atributos corporais do genitor do mesmo sexo, desejada e temida, provoca reações tanto no filho quanto nos pais.

Este impacto incide sobre a imagem do corpo estabelecida lá atrás, no estádio do espelho, nos primórdios da constituição do sujeito. Esta imagem é uma matriz, que se estabelece entre os seis e os dezoito meses de idade, aproximadamente, quando a criança reconhece a sua imagem no espelho. Esta imagem especular mostra o que não se pode ver, ou seja, o próprio corpo em sua totalidade, um corpo semelhante ao do outro, dando ao bebê a sensação de integridade. (Narcisismo)

Antes disto, nos primeiros meses de vida, quando a criança ainda não fala e não tem representação de seu corpo, existem apenas sensações corporais de conforto­-desconforto, necessidades, etc, que são identificadas e supridas pela mãe ou substituto, e as imagens do corpo são retalhadas, fragmentadas, sem qualquer organização, em função da própria imaturidade neurológica e psicológica.

Este momento proporciona a primeira possibilidade de reconhecimento de si, de perceber-se como um corpo, como uma forma ilusória e uma imagem virtual. O bebê se percebe semelhante aos demais, ao outro humano, o EU surge pela identificação à imago do semelhante, organizando as imagens de fragmentação. É uma identificação alienante. É uma forma, uma imagem. Este estádio situa o EU antes de sua determinação social e é a base para as identificações secundárias que se estabelecem na relação com o Outro. Funda o, Narcisismo primário. O final do estádio do Espelho se dá pela entrada no Édipo, pela inserção na linguagem, no social mais amplo, na sexualidade do sujeito.

Diz Freud em 1914, no seu texto sobre o "Narcisismo": "As primeiras satisfações auto-eróticas são experimentadas em relação às funções vitais que servem à finalidade de auto-preservação. Os instintos sexuais estão, de início, ligados à satisfação dos instintos do ego; somente depois é que eles se tornam independentes destes, e mesmo então encontramos uma vinculação original ao fato de que os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção: isto é, no primeiro caso, sua mãe ou quem quer que a substitua."

Para não renunciar à perfeição narcísica do início da infância, quando no decorrer do Complexo Edípico se depara com a falta no Outro e se vê obrigado a reconhecer a própria (castração simbólica) no processo de sexuação, o ego forma o EU IDEAL. O narcisismo se desloca para este Eu Ideal, que se torna alvo do amor de si mesmo e sede de toda a perfeição. Após o Édipo este Eu Ideal se transforma em SUPEREGO e IDEAL DE EU, uma vez que sofreu a influência das exigências do ego, da crítica dos pais e dos agentes sociais.

Após o Estádio do Espelho, a Adolescência é o momento em que, sob o olhar do Outro, o sujeito deve se reapropriar de uma imagem do corpo transformada. Há uma modificação dos atributos (pêlos, seios, silhueta); das funções (genitalidade, menstruação, mudanças de voz, etc); semelhança com o corpo do adulto, do genitor do mesmo sexo.

Há uma mudança fundamental no valor do corpo em relação à infância - a genitalidade é privilegiada e deverá ser reconhecida neste corpo desejável e desejante, pelo olhar de um semelhante e não mais dos pais. A identidade precisa ser conquistada pela pertinência a um dos dois sexos. As mudanças reais precisam ser simbolizadas, pois elas invadem o corpo. O corpo não é mais importante do que a representação do corpo.

A adolescência é o momento em que o sujeito responde ao reencontro com a sexualidade não como um adulto, mas com seus próprios meios, os de alguém que organiza um novo lugar.

Assim, a metamorfose da puberdade consiste menos em uma revolução hormonal que no reencontro com a castração, adiado durante a latência. Este encontro acarreta a decepção da promessa infantil ligada ao fantasma, promessa de que, na hora certa, lhe seriam entregues os atributos adequados para lidar com o gozo. O pai não apenas não deu, como fica patente que ele mesmo não os têm. Os rapazes revoltar-se-ão contra este escroque, tão desprovido dos atributos quanto eles. Para as moças, a decepção será vivida como uma privação, uma verdadeira catástrofe subjetiva. O adolescente vai renegociar uma série de coisas com os pais.

Os adolescentes guardam em si as lembranças de formas de satisfação pulsional da primeira infância, ligada à mãe, na linha prazer/desprazer. Seu corpo agora é o intermediário entre seu desejo e o mundo. Todos os traços das experiências precoces de satisfação/insatisfação das necessidades aí estarão, intrincadas com o desejo.

Na adolescência o corpo desenvolvido não encontra suporte adequado na imagem da infância. O sujeito não possui instrumental imaginário para poder lidar com este corpo, que pode mais do que ele. Não tem como metabolizar o real corporal mediante a imagem. O que explica a quase universal dificuldade dos adolescentes com o espaço e as proporções. Como se o corpo fosse um ente autônomo e de efeitos incalculáveis. Desengonçado, derrubará os copos tentando servir-se água. Calculará mal a distância e o tamanho e baterá o carro, etc.

Veremos que há uma subversão nas identificações. O pai é contestado. Não confundir com identidade, aqui é identificação simbólica, sem ela entramos nos quadros de psicoses. Porisso, o corpo deve ser comandado pela ordem simbólica, e não o contrário.

O Corpo Adolescente:

A noção de Adolescência contém aquela de mudança corporal. O corpo biológico, no momento das transformações pubertárias e da emergência da sexualidade genital, participa da construção do sujeito. A puberdade vai afetar definitivamente, as identificações, sua identidade. Há uma representação inconsciente do corpo. A adolescência é uma descoberta pessoal. Cada um vai viver a sua. Haverão novos objetos, novos interesses, sexuais, intelectuais, sociais, individuais ou compartilhados. Se existe um determinismo biológico para a adolescência, existe também um determinismo histórico, psíquico. Estes movimentos geram ansiedade e angústia, pela falta de sentido que o sujeito sente com o que está acontecendo com ele. "Quem sou eu dentro deste novo corpo?" é a sua pergunta.

Os fatores endócrinos da puberdade: o maquinário dos hormônios sexuais implica na atividade de três operadores essenciais - o hipotálamo, a hipófise e as gônadas (testículos e ovários). Elas secretam hormônios. (as gonadotrofinas, o estrógeno e o andrógeno). Tudo isto controlado pelo sistema nervoso central.

Os andrógenos, ou hormônios masculinos, aqueles que provocam o aparecimento dos caracteres sexuais masculinos, são encabeçados pela testosterona, que é secretada pelos testículos. Os estrógenos, nas meninas, são secretados pelos ovários, os quais secretam também a progesterona. No menino é a testosterona que provoca as mudanças da puberdade.

Mas o que ocorre é uma evolução discordante, de um lado a evolução do corpo, mais precocemente autônomo e apto à reprodução, de outro, a evolução dos sistemas de laços sociais (a escolaridade, a impossibilidade de autonomia dentro do sistema econômico, por causa da duração média dos estudos e da formação).

A puberdade dos meninos é mais tardia do que a das meninas. Pensando na "Metamorfose" de Kafka, as modificações corporais trazem uma desarmonia. O adolescente se olha no espelho e acha os pés muito grandes, o nariz muito pequeno, a menina se envergonha dos seios, o menino se acha muito magro ... Embora os pais façam esforços para se aproximar do filho, este parece cultivar um jardim secreto do qual os outros estão excluídos. Ele se fecha no quarto, precisa de sua privacidade. Há uma dificuldade de comunicação. Já não conta mais tudo para os pais: suas alegrias, suas tristezas. Ele usa uma linguagem em código. Parece dizer a seus pais que ele não tem mais nada a lhes perguntar ou pedir.

As aquisições do período de latência desaparecem progressivamente (as integrações sociais). Polidez, cortesia, maneiras à mesa, a organização dão lugar à negligência, à grosseria, à falta de modos. A menina se torna agressiva, sobretudo com a mãe, irritada, sempre se opondo. Cheia de contradições, ela é imprevisível. Reserva o melhor de si para os outros. Os meninos e meninas querem distância de contatos físicos com a mãe, e mesmo se tiverem sido crianças afetuosas, agora são monstros de egoísmo. Mas é uma monstruosidade ambivalente. Seus desejos são contraditórios.

O adolescente tem uma relação particular com a ordem e a higiene. Não dá para ter a organização do outro. Cada um tem a sua. E a mãe tem mania de impor a sua. Eles reagem. Porque estão se desembaraçando das introjeções parentais. O seu quarto é uma verdadeira confusão, as roupas ficam jogadas, sujas. Por outro lado, ele passa uma hora no banheiro em frente ao espelho se arrumando, se penteando, se maquiando. Todas operações que ele/elafazem para se reconhecerem, tentando se apropriar deste estrangeiro que ele/ela mesmo/mesma lhe parece. Estas situações são difíceis tanto para os adolescentes como para os pais. A intolerância dos pais a esta fase transitória só dificulta as coisas, impedindo uma resolução mais harmoniosa.

A mesma desordem afeta os hábitos alimentares. Alternam-se crises de voracidade a regimes espartanos. Os horários das refeições são negligenciados, os gostos mudam, eles se tornam caprichosos. Comem fora de hora e lugar, e deixam restos de comida e embalagens pela casa. É uma revolução de hábitos.

A desorganização profunda do mundo externo ocorre porque há uma revolução interna. Há também uma regressão nos adolescentes. São sintomas normais da adolescência.

No cotidiano dentro da linha da desarmonia há uma alternância de fases de morosidade, preguiça, com outras de entusiasmo, excitação, ou depressão. Irritabilidade, hiper-emotividade, ou ao contrário, frieza, agressividade. Esta instabilidade não é só psicológica, tem também a ver com a função endócrina que ainda não está estabilizada.

Resumindo, o processo da puberdade engata o adolescente num triplo remanejamento:

  • da relação com o próprio corpo: as mudanças somáticas lhe impõem um corpo "estrangeiro" e necessita um trabalho de reconstrução da representação do corpo; a representação do corpo perdido da infância não é mais coerente com o novo.
  • da relação com a sexualidade: o acesso à genitalidade impõe a exigência de se distanciar dos objetos edipianos e das imagens infantis interiorizadas. O objeto incestuoso nunca foi tão ameaçador já que o incesto agora é possível e, portanto, ele não pode ser desinvestido sem colocar em perigo a integridade do EU.
  • da relação com seu ambiente: a distância que se estabelece em relação aos objetos parentais induz um novo tipo de comércio com o mundo. A imagem que o jovem tem se si mesmo não se sustenta mais de ser reenviada pelo olhar materno. Os modelos familiares são insuficientes para nutrir a identificação do Ideal de Eu. A conclusão dos processos identificatórios não se fará sem uma confrontação aos objetos edipianos.

Assim, o adolescente vai se constituindo como sujeito de seu próprio desejo, deixando para trás o Eu infantil. É uma fase de eflorescência, mas nela ocorrem também sentimentos de despersonalização, de tristeza e depressão, medo, angústia e ansiedade, pois se perde a criança para dar lugar a um adulto, um sujeito hipotético.

O corpo é a condição necessária e suficiente para que o pensamento advenha. Não dá para imaginar o corpo dissociado do psiquismo, o corpo sem afeto, ou o pensamento desencarnado. Isto é pura ficção, que se opõe à lógica humana.

O corpo não é redutível à ordem biológica, mas é criação da psique e de seus fantasmas. A mãe investiu e produziu ou não um sujeito desejante. Há uma dialética individual. Portanto, o corpo está assujeitado à lógica do desejo. Para além da satisfação instintual, está a emergência da capacidade de desejar.

Sexualidade a Amor:

O trabalho da puberdade, sendo também um momento de integração das zonas erógenas, da sexualidade infantil sob o primado do genital, vem dobrar o risco de ruptura. Corpo púbere e psique infantil compõem um sujeito dividido. Há uma nostalgia dos momentos de satisfação das primeiras relações com os pais e uma força pulsante de conquistar autonomia. Agora a sua história é de responsabilidade sua. A luta do adolescente é para manter a continuidade do sentimento de identidade. São dois registros intrincados: o da exterioridade das modificações sexuais e o da interioridade das representações que lhe estão associadas. Há uma imagem inconsciente do corpo.

A pulsão sexual se impõe e busca seu objeto. A complementariedade dos sexos organiza as pulsões parciais. O incesto agora seria possível, mas o interdito edipiano faz o jovem renunciar. A imagem de si, a identidade dos gêneros, o narcisismo, os ideais vão se traduzir em novas representações.

A complementariedade dos sexos restaura o Eu Ideal da infância porque veicula a ilusão de completude, tentando restaurar um tempo perdido, imaginariamente. Mas a falta está colocada, como condição para o desejo, irreversivelmente.

O amor que a criança sente por si mesma, o valor que se dá, são na infância adquiridos via a imagem que lhe reenviam os pais, o interesse que eles têm pelas suas realizações e sucessos (da criança), seus projetos para ela, a esperança que colocam nela. A criança é muito exigente, totalitária, onipotente mesmo. Na adolescência tudo isto muda. O adolescente sai dessa relação de complementariedade com os pais, percebe o outro como diferente, como a complementariedade dos sexos, e sente uma grande solidão. Aparece uma angústia de abandono, um desamparo. Aí entra a função do amor na adolescência, a função narcísica do objeto, para compensar a "perda" desse investimento parental.

O adolescente se pergunta se as sensações que provém de seu corpo púbere vêm do exterior ou do interior, se são normais ou não. Nos pais não pode mais acreditar, confiar, mas ele ainda não sabe em quem confiar. Ele tenta se comportar como um adulto, mas não consegue conter seus afetos de forma apropriada e se torna agressivo.

Ele é um estrangeiro em seu próprio corpo, ausente em seus próprios pensamentos. Este corpo é objeto de referência espacial, e o adolescente terá problemas com o espaço. Precisa de tempo para se reconstituir uma imagem, se reconhecer, para que emerja e se consolide um sentimento de identidade, em continuidade com a sua história infantil, e, portanto, em ruptura com ela. É preciso um tempo para que o sentimento de segurança, auto-estima, o narcisismo se reconstituam. Ele perdeu o corpo infantil e teve que fazer renúncias, que o ameaçam constantemente.

A realidade do corpo é a realidade interna. Têm a ver com representação de corpo e esquema corporal. Com funcionalidade. Especularidade, construção do corpo nos registros consciente e inconsciente, integrando o psiquismo.

No simbólico, como vimos é a sua possibilidade de simbolização da emergência da sexualidade com todas as suas implicações. A resolução favorável da adolescência será de poder unir estes dois corpos, sob o primado do prazer genital e da complementariedade dos sexos. Tem que haver a possibilidade de não romper a trama de sua história. Aceitar seu novo corpo, e a lógica do prazer que ele porta, renunciando às satisfações infantis, aos privilégios associados ao corpo infantil, mas isto ao preço de uma identidade que se mantém. A mudança não o faz outro, mas um pedaço de sua história já pertence ao passado - a adolescência é continuidade e separação.

O adolescente deverá ser capaz de viver afetos ambivalentes e ir aos poucos, integrando-os. Ele deverá traduzir as representações infantis para a linguagem das pulsões genitalizadas, adultas, ao mesmo tempo em que traz os souvenirs auto-eróticos da infância e uma nova sexualidade que contém as necessidades de ternura e sensualidade. Há um conflito no jovem que se expressa no corpo. Ele tem medo de crescer e o desejo inconsciente de permanecer criança.

A ambigüidade da relação ao outro sexo - sujeito e objeto do desejo - sustenta a interrogação do adolescente sobre sua própria posição quanto à sexuação. Experimenta as possibilidades de seu corpo nos esportes ou na dança, e se propõe como objeto do desejo do outro na paquera.

O desejo sexual oscila entre este semelhante, num misto de ligação fraternal e sexual, e o outro sexo, mas ainda preso às interdições edipianas. Daí os freqüentes dramas amorosos do adolescente: ou se apaixona por alguém muito distante, impossível, ou excessivamente próximo.

Poderá diminuir a importância da diferença entre os sexos e seus apelos, valorizando mais a amizade, as ocupações, e tarefas neutras. Alguns contatos homossexuais podem ter este caráter de amor ao semelhante, onde o adolescente se refugia em bandos, como estratégia para permanecer no idêntico e se defender do diferente, tomado como inimigo. "O quê ela me quer?" Ou, pelo contrário, pode atirar-se em busca de uma vida sexual intensa, às vezes promíscua, com numerosos parceiros (a expressão "ficar" - que foi criada para designar estes encontros relâmpagos, sem envolvimento afetivo. O "ficar" tem um significado amplo e misterioso - pode se referir a um beijo rápido ou a uma relação sexual efetiva).

Na adolescente, as modificações da silhueta, o alargamento dos quadris, aumento do volume das nádegas e especialmente o volume dos seios, além da menstruação, sinalizando o acesso à genitalidade, a levarão a oscilar, quanto à imagem do corpo, entre dois olhares. Tentará se parecer o máximo possível com os modelos de beleza valorizados socialmente e insistirá na confirmação da percepção das suas mudanças corporais pelas pessoas próximas - família e amigos. É freqüente observar garotas desfilando de biquíni ou em roupas provocantes diante do pai, principalmente, esperando comentários elogiosos que possam aplacar suas angústias quanto à sua beleza e à sua possibilidade de despertar os olhares masculinos. Mas o embelezamento da garota será dirigido também ao olhar materno, especularmente.

No rapaz, além das novas funções genitais, especialmente a ereção e a detumescência do pênis, há a mudança de voz, agora grave, semelhante à voz do pai. Isto proporcionará comparação e confronto com a imagem do genitor do mesmo sexo.

A sexualidade não vem de dentro, irrompe de fora, como um trauma. Aquele garoto relata que sua primeira ejaculação se deu no momento em que a professora retira dele a folha escrita, após o tempo de prova ter se esgotado. O golpe de Estado perpetrado pelo pênis submete o resto do corpo à sua tirania. Ele representa também, para além do narcisismo fálico, uma fonte de angústia secreta para os homens.

Na paquera, os adolescentes exercitarão o novo valor do olhar e da voz. A moça tentará despertar o olhar do rapaz tentando se destacar das demais, dirigindo-­lhe um olhar que pede resposta. O rapaz mostrará os novos matizes da língua e da palavra.

Na adolescência, um busca no outro um ideal narcísico, e daí as grandes e intensas paixões e as trágicas desilusões. O amor tem características e manifestações peculiares; muitas vezes importa mais o estado amoroso do que o objeto de amor com manifestações semelhantes ao delírio, sendo freqüentes as rápidas passagens de um objeto amoroso a outro. O próprio erotismo muitas vezes investe mais as zonas erógenas parciais do que o ato sexual. As brincadeiras sexuais ajudam a perceber a qualidade de objeto do corpo do outro e de seu próprio corpo para o outro.

As relações amorosas estão permeadas, no seu cotidiano, de equívocos, de desarmonias decorrentes das expectativas que homem e mulher têm um do outro, e que são, ainda, desconhecidas para eles. Ele ama e odeia, porque ninguém lhe ensinou como amar o diferente, o outro. As antigas colegas de brincadeiras revelam-se, da noite para o dia, extraterrestres, esse "bicho­ esquisito" de que fala Rita Lee, muito menos pelas inegáveis transformações físicas, do que pelo fato de que viram objeto de desejo.

Na adolescência, o amor pode ser visto como uma fonte de satisfação narcísica, o amor pode ser uma resposta ilusória à perda primária, uma tentativa de tampar o buraco que é constituinte do ser humano e de sua condição de desejante. Esta falta vem encarnada no amado. Mas o adolescente irá se deparar mais cedo ou mais tarde com o preço do desejo: a incerteza do amor do outro, a total falta de garantias. Ele terá que se bancar.

Tanto o homem quanto a mulher, terão que se deparar, ao longo da vida, com o enigma do desejo, e isto vem desde o início do processo de sexuação, da aquisição da identidade sexual.

A criança descobrirá como foram vãos os seus sonhos. O menino não desposará mamãe, nem a menina seduzirá papai. O impossível do gozo fica claro. Mas o gozo possível, que é o sexual, o coito e o orgasmo precisam encontrar lugar e função na história do sujeito. Dificuldades e sofrimento estão aí presentes.

Na infância a criança brincava. O que havia era a falta de seriedade, não era para valer. As crianças podem dizer tudo, sob a condição de serem levadas na brincadeira. É isto o que muda radicalmente na adolescência. Agora é para valer. Ele não pode mais brincar de médico impunemente com as suas coleguinhas. A possibilidade terrível da paternidade o envolve subjetivamente, mais que o seu corpo. A reprodução sexuada não se reduz ao automatismo glandular; ele participa como autor. Autor, antes de mais nada, de sua própria palavra. Se, até então, sua palavra não acarretava maiores conseqüências, a partir da puberdade ele será considerado o agente de seus atos simbólicos cujos efeitos podem ser irreversíveis. O sujeito passa a ser responsabilizado pelo seu ato. Aqui entra a discussão sobre a inimputabilidade dos menores infratores. Até que ponto é possível ou desejável manter a ficção da irresponsabilidade do sujeito pelo seu desejo nos atos que realiza? O problema não é apenas jurídico.

Saídas:

Com o desfecho da adolescência normal, o que se espera é que o adolescente chegue a:

· acesso à sua autonomia: capacidade de pensar por si, em seu nome, de viver em paz com as imagens parentais e seus discursos, adquirir uma liberdade interna satisfatória;

· autonomia econômica, financeira: a capacidade de ser sozinho, de escolher, decidir, de se assumir. Até que ponto os pais devem investir economicamente?

· acesso ao prazer: prazer sexual, mas também prazer ligado a outros investimentos. Aceder ao prazer sexual, mais do que simplesmente na relação sexual, é ser capaz de dividir, compartilhar, reconhecer o outro na sua diferença, de não o alienar, de não o colocar em sofrimento. Os outros investimentos prazerosos são os não-sexuais: podem ser o trabalho, o pensamento, a relação à cultura.

· a submissão ao princípio da realidade: a relação direta à Lei. A aceitação da castração, da falta, da incompletude. Aceitar frustrações, coisas dolorosas, que fazem parte da condição humana. Também admitir a sua própria ambivalência, o bem e o mal, o amor e o ódio, reconhecer sua realidade interna, suas contradições. Quer dizer que nunca há uma puberdade totalmente resolvida. É uma utopia. Tem que haver um espaço de definição relativa, senão nós caímos naqueles casos patológicos da puberdade, que contém toda uma potencialidade catastrófica (anorexia, bulimia, drogadicção, violência...) que deixam no psiquismo do sujeito verdadeiras zonas sinistras. São sujeitos com difíceis reencontros com seus corpos e sua sexualidade, reativações de angústias de separação e abandono, perda e separação, e eles colocam no lugar uma organização patológica, para dar conta do sofrimento.

A Contemporaneidade:

As características da contemporaneidade que se refletem no adolescente são as seguintes: sentimento de vazio e irrealidade, ausência de valores, pensamento dirigido para o consumo e o prazer imediato e fragmentação do processo de informação que decorrem do bombardeio maciço e aleatório de informações parceladas que nunca formam um todo, em que se encontra submetido o adolescente atual. A vida é um show constante de estímulos desconexos em que os destaques são o design, a moda e a publicidade. A propaganda procura erotizar o dia a dia com desejos e fantasias de posse. O resultado é a apatia, a ausência de revolta e o incremento do narcisismo, que é constantemente reforçado pelas FMs e vídeo-clips que estimulam neles a idéia que o importante é não reprimir.

Ao mesmo tempo, a contemporaneidade está marcada pelo neo-individualismo, caracterizado por uma ausência de projetos, tendo como único ideal cultuar a auto-imagem e buscar satisfações imediatas. É justamente esta perda dos ideais e de expectativas no futuro que nos faz ficarmos preocupados com a questão da função paterna. O que garante o desenvolvimento de uma pessoa é a sua capacidade de estabelecer ideais e projetar um futuro com base na identificação aos pais. Mas a inversão de valores faz os pais quererem se identificar com os filhos, uma vez que idealizam a juventude. Não há no adolescente um envolvimento maior com as grandes questões da atualidade. Ele é mais imediatista e se preocupa mais com objetivos pragmáticos, como hobbies, esporte, lazer. Suas participações quando ocorrem são brandas, frouxas. Não existe mais a revolta do adolescente, pois não tem um pai para competir e desafiar. O templo deste adolescente pós-moderno é o shopping center feérico de luzes e cores. Seus amigos são o walkman, o vídeo, a TV a cabo, o computador.

A família possui a função de sustentação narcísica e modelo identificatório. É o ponto de partida e o fio condutor. Em um determinado momento a criança vai querer ser ela mesma, se diferenciar do grupo familiar. Antigamente, as famílias eram possessivas na sua forma de amor, e os vínculos eram indiscriminados, e se o adolescente quisesse se separar, isto era visto como destruição, e eles tinham que renunciar à sua identidade.

A família foi evoluindo até os tempos atuais. O que se observa atualmente é que os filhos estão desorientados e com dificuldades de se inserirem no mundo. A família carece de respostas frente a tantas mudanças em tão curto espaço de tempo. Estão presentes idéias de fusão, indiscriminação e perda de singularidade. Tanto a transmissão cega dos padrões, quanto a ruptura drástica com as tradições, característica da pós-modernidade, impedem uma orientação que leve o filho a ser ele mesmo, a discriminar-se. A família antes predisposta ao fechamento, hoje tem uma tendência centrífuga e de fragmentação. Há o aumento do número de divórcios, as produções independentes, as famílias em que predomina a relação mãe-filho em detrimento da figura paterna. Casais separados formam novas famílias... As mulheres muitas vezes vêem os filhos como um estorvo, e colocam em primeiro lugar a carreira. A criança sai da posição de Sua Magestade, o Bebê, há um rompimento de vínculo com os antepassados, os pais rejeitam a autoridade, ou a perdem. Apaga-se a diferença de gerações. A perda, por parte dos filhos do direito de serem cuidados, os levam a obedecerem os meios de comunicação, ao uso de drogas e ao consumo desenfreado para entreterem-se permanentemente, e assim, não terem a oportunidade de pensar, criar, ir em busca do conhecimento. A sexualidade vulgarizada, promíscua, leva à ausência do desejo sexual. Os vínculos são pobres, frouxos e sem nenhuma consistência emocional. A sintomatologia orienta-se mais no sentido das patologias narcísicas, que evitam o conflito edípico. É a era do vazio.

Neste final de século, vivemos vários níveis de incerteza. Os jovens, sem muito tempo para refletir e pensar buscam sua gratificação imediata pensando mais em si mesmos e nas coisas que podem consumir: ser feliz, e logo! Defender o seu, viver o presente, ter tudo sem muito esforço. A proposta atual é de que nos tornemos mais possessivos, individualistas, anestesiados emocionalmente, inconseqüentes, sem sentimento de culpa. A autoridade é menos valorizada. Nega-se o passado, o estabelecido e não se pensa no futuro. Beira-se a desesperança. Desacredita-se do esforço, o prazer imediato e as emoções cada vez mais fortes devem estar em primeiro plano. O acesso fácil aos objetos facilita e possibilita a concretização de desejos e ilusões de tudo poder. O sacrifício não é valorizado, nem respeitado, numa sociedade em que muitos conseguem dinheiro fácil e o ostentam de modo obsceno. Há uma necessidade de ser feliz a qualquer preço, mas de uma forma idealizada, impossível, pois cada um tem seu próprio caminho. O código de honra apresenta mudanças radicais o que provoca um mal-estar profundo, um sentimento de desamparo. Quando as normas sociais ficam muito frouxas as pessoas ficam mais diretamente expostas às suas aflições e ansiedades internas. As pessoas se tornam frágeis e dependentes, ameaçadas na própria capacidade de prover as próprias necessidades. A família sente-se enfraquecida na transmissão de valores, de saberes, faltam-lhe respostas. Os pais sentem dificuldades em orientar seus filhos, aquilo em que acreditavam antes está desprestigiado, parece que não serve mais. Não se põe limites com medo de traumatizar. Pai não manda, pede. Tenta-se apagar a diferença entre as gerações. Todos parecem ter necessidade incontrolada de afirmar sua sexualidade.

Verifica-se uma ampliação do "tempo adolescente", queremos chegar cedo à idade adolescente e nela permanecer pelo maior tempo possível. Crianças sendo estimuladas a deixar logo o mundo infantil e jovens adiando a hora de assumir a responsabilidade de "gente grande".

Evita-se o confronto com os mais jovens. No entanto, é necessário que os jovens tenham a quem se opor. Opor-se é necessário a quem delineia sua forma e busca identidade. O confronto de gerações é um processo essencial.

Conter, dar limites é necessário, conter sem represálias, sem espírito de vingança, mas com confiança. É necessário um adulto disposto a enfrentar o adolescente. Os limites sossegam a onipotência sem fim do jovem. O pertencer a uma sociedade requer que os indivíduos que a integram se submetam à ordem social estabelecida e cumpram suas obrigações derivadas desta ordem.

O lugar que ocupa o pai, a mãe, o filho, são produtos de uma história dentro de uma cultura. Fala-se hoje muito em declínio da função paterna. O quê isto significa?

Mídia:

Os pais, ocupados com seu trabalho delegam à TV e internet a ocupação de seus filhos. É preciso controlar a essa exposição, selecionar os programas, a navegação. Há que ter um filtro familiar. Pode haver discussão nas escolas. Os pais deveriam se interessar pelo que a criança vê. Os meninos têm uma exposição e identificação mais forte à violência. Parece que os jovens delinqüentes são mais particularmente expostos a reagir à violência vista, mas o que veio antes? A internet ou a estrutura deles? Se não há modelos identificatórios fortes, ocorrem passagens ao ato. Alguns filmes deixam as crianças ansiosas. As relações das crianças com seus pais é fundamental. Se estes falam com seus filhos, eles têm acesso a uma simbolização melhor do mundo. Na falta disto, as referências das crianças podem se embaralhar. A internet e a TV passam a valer mais que os pais. Mas existem também os professores, os avós, colegas, que representam um papel essencial na vida deles. A relação que a criança estabelece com seus próximos organiza a relação que a liga, no interior de si mesma, com as imagens.

Antigamente achava-se que havia somente a identificação aos heróis. Mas hoje se sabe que precisa ter uma identificação com os objetos internos. Antes de nos identificarmos com um modelo é preciso que o coloquemos no interior de nós. A forma de processamento interno vai depender muito de cada um. A criança precisa simbolizar o que sentiu. Mas pode ser que estas imagens não possam ser simbolizadas. Elas serão então engolidas e incluídas no psiquismo. Elas abrem portas lá dentro que estavam fechadas, porque contêm coisas dolorosas. As imagens dolorosas são as que despertam tais inclusões dolorosas. Elas podem provocar emoções violentas, reações somáticas, angústia. Mas a culpa não é destas imagens que entraram, elas só reativaram experiências traumáticas que já estavam lá, em função de acontecimentos vividos, mas conservados na repressão. As imagens não têm todo este poder de manipular desejos e aspirações, contrariamente a tantos debates sobre a influência da internet e TV sobre os jovens. As imagens de crimes não fabricam criminosos. Podem despertar impulsos assassinos, mas elas não criam estes impulsos. Elas entram em ressonância com experiências violentas mal simbolizadas, e podem precipitar uma passagem ao ato, mas isto mais cedo ou mais tarde aconteceria. A explosão afetiva é uma tentativa de elaboração da experiência traumática deixada em sofrimento.

Não se trata de negar que certas imagens possam favorecer o engajamento de pequenos grupos de jovens em práticas de delinqüência. Mas elas têm que fazer laço no psiquismo. E têm que haver uma similaridade das caixas psíquicas de todos os membros do grupo. As crianças sabem que as imagens, apesar de fascinantes, são somente imagens. A gente se deixa capturar no jogo ou não. A criança que esmaga uma massa de modelar não é culpada de assassinato. Também a criança que destrói personagens virtuais num videogame não comete nada de culpabilizante e isto não inaugura uma carreira de assassino.

Precisamos fazer com que as crianças e os adolescentes prefiram o mundo real, com suas dificuldades e decepções, do que as imagens idealizadas dele. Se eles acharem que estamos mentindo então poderão preferir mergulhar no mundo dos computadores, televisão ou dos videogames.

Quando as crianças podem dialogar com um ambiente atento e continente ou quando as crianças deprimidas forem ajudadas e se tornarem capazes de dialogar consigo mesmas, então a mídia em geral pode ser um maravilhoso instrumento de informação e de comunicação. Mas se é uma criança com dificuldade de maternagem contenedora, ela utilizará a colagem adesiva com a imagem da tela, como tapa-buraco do pensamento, para não viver a representação ou os desmames necessários para a maturação. Aí estamos confrontados com um sistema mágico e onipotente quase alucinatório que adere. A maternagem, enquanto representação interna pacificadora torna o impensável, pensável.

A criança e o adolescente são expostos à mídia, que exibe cada vez mais cenas de violência, delinqüência e pornografia. Pode haver um envolvimento emocional e uma identificação. Os atos violentos são sinal de virilidade e parecem não ter conseqüência; as pessoas não sentem culpa! A sensibilidade é apresentada como uma fraqueza. O princípio de realidade não aparece, o herói pode perseguir malfeitores com o ventre perfurado de balas. Mortes e ressurreição, personagens com muitas vidas.

A educação midiática modela o imaginário, injeta personagens, cenários, fantasmas, atitudes, ideais, impõe uma maneira de se relacionar. Basta observar as crianças: dançam, imitam artistas, repetem esquemas e frases que ouvem com precisão, sendo muitas vezes dispersas na escola. Imitam as propagandas, os gestos e as falas. O que preocupa é a estereotipia, a uniformização. Um mundo adulto é imposto às crianças pequenas. Que serão os adolescentes de amanhã. É típico de nossos dias a construção de uma infância sem infância, de crianças que desde cedo devem ser vistas como mais inteligentes, mais poderosas, mais sexualizadas e erotizadas. Me parece ser esta a violência a que a criança e os jovens estão expostos.

As conseqüências da privação paterna na sociedade atual, pós-moderna, contemporânea, na família em particular, produz uma inversão de ideais: em vez dos filhos escolherem os pais como modelos, estes é que se identificam com os filhos. É a mãe que imita a filha adolescente, o pai gatão, que não ocupa seu lugar. Conseqüentemente, os filhos não sabem a quem se dirigir e a quem procurar na busca de sua identidade, autonomia e busca de conhecimento. Aí entra a internet, a TV, a mídia em geral, que com os seus "modelos" veiculados vão substituir os modelos identificatórios parentais fracos.

A Angústia do Adolescente:

Não se concebe a existência humana sem angústia. Existe, portanto, uma angústia normal. Ela empurra o ser humano às realizações, aos investimentos libidinais. Mas existe a angústia patológica. É uma prova de tensão, de uma excitação que não encontra naturalmente as vias de descarga. É um sinal para o Eu, um sinal de perigo interno, sinal de um conflito que porta em si uma ameaça - fantasmática. Existem internamente duas representações inconciliáveis, que ameaçam a integridade do sujeito. O trabalho mais eficaz é colocar em representações, trabalho de elaboração e de reconciliação das representações antagônicas, aceitando a ambivalência. Todos nós temos capacidades de amor e ódio, idealização e destrutividade, altas exigências morais e desejos. Como conciliá-los?

Portanto, a angústia não é uma criação da adolescência, mas ela aí está de uma forma bastante específica. Se não se puder trabalhar adequadamente com ela nesta fase, na integração necessária, é possível que ocorram processos dissociativos. Existem manifestações maciças de angústia, como conseqüência de estados depressivos subjacentes, que são tratados atualmente só com medicação. Não é bem por aí. Ou melhor, não é só por aí.

A depressão não seria central no processo da adolescência? A perda do corpo infantil e das imagos parentais infantis geram episódios depressivos. É diferente da depressão adulta. Sempre há, é claro, o risco vital, real ou fantasmático, e, em alguns casos, o ideal é associar os antidepressivos com a terapia, onde o adolescente poderá elaborar sua passagem. A depressão na adolescência, assim como a angústia, é, até certo ponto, normal.

A prescrição medicamentosa pode ser indispensável para regular o sono, liberar a capacidade de pensar tão petrificada pelos afetos dolorosos, mas nunca irá substituir o esforço e o sofrimento da elaboração.

Difícil traçar os limites entre a angústia normal e a patológica no adolescente. A angústia pode vir mascarada sob a forma de medo (medo de doenças, medo do outro, medo de ter medo). O medo, às vezes, pode ser a racionalização de uma angústia projetada sobre um objeto, nas fobias, por exemplo. A angústia é do lado do imaginário, o medo é nomeado. Os dois se conjugam na adolescência.

As novas sensações genitais, as práticas masturbatórias, recolocam à prova a transgressão (do interdito) e o castigo. Mas, ao mesmo tempo, há a interiorização da falta, do não acesso ao gozo. A angústia de castração é difícil de ser colocada em palavras pelo adolescente.

A angústia de separação - o protótipo é a angústia traumática do nascimento. Depois a perda do seio, das fezes. Nos adolescentes é a perda dos pais da infância, que vão gerar insegurança, que eles reviverão como a perda do objeto de amor, em suas formas arcaicas. Se a separação pode gerar uma angústia, (e medo), é aquela que coloca em perigo a segurança do sujeito, a que o reenvia a um estado de impotência real. Mas aí é que ele vai se identificar com o genitor do mesmo sexo.

O adolescente se confronta com o medo da morte. O irrepresentável, como o sexo. Eles se colocam questões sobre o sentido da vida, questões existenciais. É a emergência de uma consciência existencial, do sentido da vida e da evidência da morte. É conseqüência da maturação de suas capacidades intelectuais. O medo da morte no adolescente coincide com o advento da consciência do ser. Deixar aberto para ele o espaço de uma verdadeira criação é nossa tarefa, sem fechar rápido demais as questões que ele coloca, deixando-­o pensar, questionar.

Sobre a Violência:

Nos anos 90, a violência adolescente seguiu a tendência geral de baixa. Aumentaram os efeitos letais desta violência, pela proliferação de armas de fogo entre adolescentes. Também acontece que o adolescente é muito mais gregário que o adulto. Portanto, mais adolescentes presos não significam mais crimes de adolescentes, pois em cada crime de adolescente há em média 2 ou 3 réus.

De onde vem a imagem do adolescente super predador e delinqüente? Esta imagem habita nossos pesadelos, imaginamos o adolescente como o nômade rebelde que desistimos de ser. Atribuímos a ele um cinismo que expressa nosso próprio desdém pela convenção social que detestamos, mas que acabamos respeitando.

Recentemente passamos a recear que os adolescentes rebeldes nos espreitem nas esquinas, nos ameacem de morte e saqueiem nossos bens. Não é de estranhar, pois eles são os agentes (oníricos) de nosso desprezo a nós mesmos.

É uma equação: quanto mais uma geração se decepciona consigo mesma, tanto mais ela sonha com adolescentes que castiguem sua própria preguiça e comodismo. E tanto mais, naturalmente, ela quer reprimir e conter estes adolescentes vingadores.

Um dia destes, se a gente não acorda, os adolescentes reais vão acabar comprando o papel que sonhamos para eles. Aí o pesadelo vai começar mesmo.

A Dúvida Profissional do Adolescente:

É na adolescência que mais freqüentemente nos deparamos com a necessidade de escolha de estudo ou trabalho. Há que se pensar nos aspectos sociais e psicológicos desta questão, pois esta escolha envolve muitos aspectos da vida do sujeito. Quantas coisas estarão interferindo nesta escolha!

O adolescente coloca como a escolha de sua vida. Com uma face heróica e dramática, imagens de grandes feitos para alcançar a realização de seus altos projetos. Ele pede ajuda, mas também quer liberdade de escolher. Nota-se que há, com freqüência, uma falta de conhecimento tanto das profissões passíveis de escolha, quanto sobre si mesmos, suas capacidades e habilidades.

A dúvida profissional na adolescência está intimamente ligada aos conflitos relacionados ao crescimento, que remetem às principais tarefas da adolescência: o abandono dos pais como objeto amoroso e a conquista da genitalidade, questões relativas à fase genital do desenvolvimento, na qual se reedita o Complexo de Édipo.

É a relação da adolescência com seus aspectos sociais e culturais. Quando o adolescente se vê confrontado com a necessidade de escolha e a toma como sua, isto já é a saída da infância e o encontro com a sua responsabilidade. Suas perguntas são: "Quem sou eu?" "O que farei?" Ele quer decifrar o enigma de seu futuro através da questão "quem serei?" Ele tem que decidir e vê na sua frente não respostas, mas enigmas.

Sente-se responsável pela sua vida, e quer levar as coisas a sério e sem erro. Perde de vista a possibilidade do prazer. Sente um profundo sentimento de desamparo nesta passagem para o mundo adulto. O desamparo e os efeitos heróicos falam da oscilação entre um sentimento de onipotência e impotência. Aparece, muitas vezes, um ideal muito alto, substituído pelo medo do fracasso. Falam em fazer muitas faculdades, ou em ser uma artista famosa, ou a médica que impedirá a morte de crianças.

Mas o sofrimento porta em si a possibilidade de um ensinamento interno. É necessário que alguém o escute, ajudando-o a dar um sentido. Quando o adolescente busca uma Orientação Profissional, busca talvez uma outra escuta, que lhe permita orientar-se em seu estranho lugar de exílio.

Os vínculos que o adolescente tem com o futuro podem ser conscientes e inconscientes (fantasias). A identidade ocupacional também não deve ser vista como um "chamado" ou destino preestabelecido que se deve descobrir. Quando se pensa em ser médico não se deve pensar numa abstração, mas no real, num contexto histórico-social determinado.

A escolha, muitas vezes, pode estar ancorada no desejo da família, ou do pai, ou da mãe. O sujeito humano é marcado desde antes de seu nascimento pela fala profética e antecipatória de seus pais. Estes esperam algo desta criança, mais do que isto, desejam e projetam um papel para este novo personagem que será vivido pelo seu filho. "A identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa." (Freud, 1921). Como a identidade possui um caráter primitivo que registra a identificação é importante notar o percurso da relação do adolescente com a mãe, desde pequenininho. A simbolização dependia dela no início, e a criança se constituiu como sujeito a partir da identificação com o Outro. Para agradar a mãe a criança vai se modificando e surge o Eu Ideal, pois as identificações primárias se organizam a partir do desejo materno. É a Fase do Espelho, que promove a identificação imaginária.

O pai coloca limites e discriminações, pela castração, coloca o interdito, separa a criança da mãe. Aí surge o Ideal de Eu que está no ideal paterno, e é produto da identificação com o pai. Isto coloca a criança na Cultura. As figuras paternas estão dispostas na comunidade, e uma criança pode dizer que quer ser bombeiro, porque já se identificou ... O menino, ao se identificar com o pai, pode desejar ter a mesma profissão, ou não ...

Porque o sujeito tem uma história onde estão estas marcas e inscrições originárias das identificações primárias e imaginárias, que são recalcadas e substituídas por identificações secundárias e simbólicas, e que darão rumo e direção ao que ele vai realizar na sua vida.

O adolescente irá re-significar sua relação com o Outro (o pai) dentro da família e com os Outros (figuras paternas) presentes na cultura. Exemplo: o professor, o apresentador do programa de TV, o policial, o jogador de futebol, o médico ou o traficante. Para poder se identificar, o jovem tem que querer ter algum traço desta figura, como o poder.

O jovem busca um lugar na cultura. A escola e a educação passam a ter novos significados. A escolha pressupõe uma autonomia por um lado, mas por outro está carregada destas marcas das identificações, destas inscrições significantes. Mas o adolescente vai se definir e validar, todos os valores paternos e maternos, para ver se fica com eles ou não. Ele inventa para si um passado e faz construções.

Muitas vezes os pais querem que o filho conquiste algo que eles não conseguiram, ou realizem sua fantasia. O pai ou a mãe podem valorizar muito uma carreira, desvalorizar outra... Os adolescentes geralmente apresentam uma teoria oposta, mas muitas vezes não fazem o contrário do que os pais pedem, eles interpretam seu pedido. Por exemplo: um casal de professores universitários reclama que não ganha muito dinheiro, o filho pode interpretar que é melhor ser jogador de futebol. "Você tem que ser como o seu pai." Esta é uma situação onde a família expressa de forma clara que o jovem deve se identificar com o pai e realizar o desejo do Outro. Mas o sujeito precisa ser dono de seu próprio projeto de vida. "Quero ser qualquer coisa exceto como meu pai." Esta é uma identificação ao contrário e indica que os valores do pai foram introjetados, mas são negados pelo filho. Ele ainda está ligado e precisa se separar. "Quero ser eu, não semelhante ao meu pai, mas adquirindo dele alguns aspectos e outros não, mas poder modificá-los numa reestruturação diferente e renovada." É possível que neste momento o jovem tenha se libertado do desejo do Outro e tomado o comando de seu próprio desejo, através de uma escolha desvinculada.

Drogadicção:

O uso de drogas indica uma dificuldade no desprendimento, devida a uma má elaboração do conflito. Frente a esta crise de dessimbiotização, o sujeito pode tentar regredir recriando a situação simbiótica perdida, de dependência. São estruturas narcísicas de personalidade, o que é muito comum hoje em dia. Morfina, heroína, cocaína, são as classicamente chamadas drogas pela síndrome de abstinência que podem desenvolver. As drogas brandas, como maconha, ácido lisérgico, são preparadoras do terreno para as drogas duras mencionadas anteriormente.

Bibliografia:

Mannoni, Maud – “La crise d’Adolescence”, Présentation, L’Espace Analytique, Éditions Denoël, Paris, 1984.

Melman, Charles – “Haveria uma questão particular do pai na adolescência?”, in Adolescência, APOA, Porto Alegre, novembro 1995.

Birraux, Annie – “L’Adolescent face à son corps”, Editions Universitaires, Paris, 1990.

Cassorla, Roosevelt – “No emaranhado de identificações projetivas cruzadas com adolescentes e seus pais”, in Revista Brasileira de Psicanálise, vol. XXXI, 1997.

Katz, Gildo e Costa, Gley – “O adolescente e a família pós-moderna”, in Revista Brasileira de Psicanálise, vol. XXX, Porto Alegre, 1996.

Aberastury, Arminda – “Adolescência” – Artes Médicas, Porto Alegre, 5ª. Edição, 1988.

Bohoslavsky, Rodolfo – “Orientação Vocacional”, a Estratégia Clínica”, Martins Fontes editora, São Paulo, 1993.

Soulé, Michel – Rufo, Marcel e Golse, Bernard – “Nascidos com a TV”, o que as mídias mudaram no comportamento das crianças e o que as equipes médico-psicológicas devem saber”, 26ª jornada científica anual do Centro de Orientação Infantil do Instituto de Puericultura de Paris

Calligaris, Contardo – “Adolescentes, testosterona, espinhas e crimes”

Gurfinkel, Aline e Penacchi, Rosely – “A adolescência e o pai”

Penacchi, Rosely – “Adolescência- Na transparência do seu segredo”

Penacchi, Rosely – “A escolha vocacional e o desejo”

Penacchi, Rosely – Grupo TVer – São João da Boa Vista, abril 1999

Alberti, Sonia – O adolescente e o laço social”, Opção Lacaniana

 

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Resposta a perguntas de uma jornalista sobre o tema
OS JOVENS ESTÃO CASANDO MAIS TARDE HOJE?

De fato, de uma maneira geral os jovens estão casando mais tarde hoje em dia e em muitos casos, os namoros duram mais tempo. Esta parece ser uma tendência, mas é claro existem as diferenças individuais.
Muitos jovens hoje querem sair de casa, morar sozinhos, se casar, ter filhos. Muitos acreditam em valores como amor, fidelidade, família.
De qualquer forma, a tendência a prolongar mais a estada na casa dos pais vem ocorrendo, e não necessariamente por imaturidade, mas a meu ver, por vários fatores:

  1. os jovens hoje são mais realistas e práticos; preferem adiar o casamento e a maternidade, pois têm uma visão bastante realista e prática da vida e preferem se estabelecer profissional e financeiramente antes de assumirem estes compromissos. E, como eles são mais realistas e práticos, o conforto acaba pesando;

  2. eles têm liberdade sexual; hoje não precisam mais casar para viverem a sexualidade;

  3. eles tiveram uma infância mais protegida: foram crianças criadas nos condomínios e shopping-centers, protegidos por pais temerosos da violência nas nossas cidades;

  4. a formação educacional hoje é mais longa, eles passam mais tempo estudando, hoje não basta só a faculdade, a pós-graduação se tornou quase que uma necessidade neste mundo competitivo.

Um namoro longo não quer dizer necessariamente que existam problemas. Pode ter a ver com os fatores que enumerei acima.
Mas é claro, existem pessoas com medo de compromisso, que apresentam dificuldades em criar vínculos afetivos, em crescer.
Muitos vivenciaram separações dolorosas dos pais.
Muitos foram super-protegidos.
Ficaram inseguros frente à vida. Têm medo do casamento e das responsabilidades que este traz.

Mas, de fato, alguns casais não se separam porque temem a solidão, porque não se sustentam emocionalmente. Estes preferem o “ruim conhecido” ao risco do desconhecido e à possibilidade da felicidade.

Alguns acham que casamento é privação de liberdade, outros estão mesmo acomodados... ou deprimidos...

O namoro parece ser sempre mais leve e ligado ao prazer de se encontrar, curtir, se divertir... já o casamento exige mais que o namoro quanto à capacidade de dividir, negociar, compreender. Poder sair de um espaço mais protegido, para ter uma proximidade grande com o outro (viver no mesmo espaço físico, compartilhar vida financeira, emocional ...). E aí se descobrem coisas boas e outras nem tão boas assim...

Mas o comprometimento verdadeiro pode estar presente tanto no namoro como no casamento. Existem casais casados que não têm esse comprometimento.

Se cada um quer uma coisa, o jeito é negociar. Isso é parceria. Para chegarem numa coisa boa para ambos. Cada um precisa ceder um pouco. Se não fôr assim, pode esquecer, é melhor desistir mesmo. Porque precisa haver vontade de ser e fazer o outro feliz. Não pode ser só eu, eu e eu... aí de fato não vale a pena, não vai dar.

Mas sim, existem namoros longos e saudáveis! Pessoas que já tiveram outros relacionamentos/casamentos e que namoram há muitos anos, às vezes decidindo até não viver junto, mas morar perto ou vizinhos, porque chegaram à conclusão de que não é conveniente/inteligente dividirem o mesmo espaço, as finanças, por questões várias, como filhos, necessidade de privacidade, entre outras, e são muito felizes assim! Não existem regras, o que importa é o que é bom para cada um.

Quanto aos mais jovens: a verdade é que eles hoje não precisam mais seguir um padrão pré-determinado de “ser” e de “se comportar”, pois têm liberdade para escolher os seus próprios caminhos. Homens e mulheres que podem ser quem são. São duras conquistas das gerações anteriores, que viveram o feminismo e a revolução sexual.

Hoje tem gente que não quer casar ou ter filhos. Tem gente que quer casar e ter filhos. Têm gente que só quer namorar. Enfim, existe uma gama de possibilidades para homens e mulheres. Só que precisa ser claro com o companheiro(a). Jogar aberto. Mais fácil? Mais difícil? Com certeza exige muito mais responsabilidade!

 

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Leia também:

Seja você mesmo > Sobre a esperança > Solidão

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Seja você mesmo


Existem pessoas que por medo de não serem amadas dizem sim a tudo. Com medo da rejeição, quase nunca expressam suas verdadeiras opiniões. Mesmo frente a pessoas invasivas, são incapazes de colocar limites. Deixam-se invadir, engolem sapos, acabam fazendo o que não desejam.

Essas pessoas não sabem usar a sua agressividade. A agressividade é um impulso natural no ser humano e extremamente necessário para a sobrevivência. Neste caso a sobrevivência psíquica. Quem aprendeu a reprimi-la (não sabe lidar com ela) está correndo sério risco. Risco de implosão.

Assim como a pulsão sexual, a pulsão agressiva representa energia. Se ela é acionada internamente e não se expressa no mundo externo acaba permanecendo represada dentro do sujeito. E ele vira uma panela de pressão.

Mas como aprendemos a reprimir emoções? Via cultura – educação, aprendemos que existem emoções de segunda classe. E nós as reprimimos, fingimos que não as sentimos com medo da rejeição e do desamor. Esse comportamento vai se tornando automatizado e inconsciente e marca o sujeito para toda a sua vida.

Algumas pessoas foram muito desqualificadas na infância, toda vez que tentavam se expressar, serem elas mesmas. Desenvolveram assim uma auto-imagem e auto-estima muito negativas, não se achando merecedores de nada, não se valorizando.

A criança pequena não tem maturidade emocional para reagir. Quanto menor ela for mais será vulnerável a essa influência e não lhe restará nada além da submissão. Essas primeiras marcas é que vão selar o destino das pessoas.

Na verdade, o problema está na mãe ou no pai. Alguns pais desqualificam, rejeitando no filho tudo aquilo que ele expressa e que não corresponda ao seu próprio desejo (dos pais) ou que os relembre de alguma emoção que eles reprimiram. Não conseguem enxergar o outro (filho) enquanto um ser separado deles. Eles não conseguem se separar deles, deixando que tenham vida própria. Não aceitam a diferença fundamental - o fato de que são seres separados, que pensam e sentem diferente - e o filho tem que cumprir o papel de ser o apêndice do desejo materno ou paterno. Se tentarem se independer, serão desqualificados, rejeitados, sabotados. É patológico (existem graus e graus), os pais não faz isso de propósito, é um mecanismo inconsciente. Na verdade, eles muitas vezes precisam do filho do lado deles.

No futuro, as relações desse sujeitinho na vida adulta reproduzirão a matriz dessa relação primitiva. Para o resto da vida ele terá medo de cara feia, pois isso para ele quer dizer desamor, negação do afeto. Essa criança torna-se um adulto que tudo aceita, que a tudo diz sim – com o intuito de ser amado e aceito, de evitar a rejeição e o desamor. Ele não agüenta pagar o preço de ser ele mesmo. (É natural que quando a gente toma posição agrade a alguns e desagrade a outros).

O problema é que na vida adulta esse comportamento aprendido e internalizado fica automático e inconsciente. A pessoa não percebe que age assim. Ela só se sente mal. Não expressa suas emoções. Pode desenvolver uma depressão, síndrome do pânico, etc. A terapia pode ajudá-la a rever os valores aprendidos e mudar o comportamento.

Quem sofreu desqualificação na infância - também não consegue receber elogios. Sua auto-imagem e auto-estima também são negativas. Sente-se sempre aquém do que esperava ser. Tem um ego idealizado muito alto. Ouvir elogios lhe soa estranho, não faz sentido, parece que o mundo virou de pernas pro ar porque o olhar do outro não corresponde à imagem que o sujeito tem de si.

A gente se estrutura a partir do olhar e das palavras do outro primordial. O olhar do outro materno constitui o sujeito em seus primórdios. Suas palavras dão ao sujeito um lugar no mundo. É espelho necessário num primeiro momento. Mas o sujeito precisará se desvincular desse olhar, dessa fala materna, que num certo momento o definiu, para seguir sua vida, desenvolver sua fala e seu próprio olhar sobre si mesmo.

Dessa relação primeira ficam marcas - de vários tipos. Depende da "saúde mental" da mãe (e do pai também). Os outros olhares (das outras pessoas pela vida afora) vão reproduzir esse primeiro olhar fundante.

Por serem marcas tão antigas é necessário uma escavação (papel que a terapia faz) para desenterrá-las. Para que o sujeito adquira autonomia, se separe desse outro que um dia o constituiu, e que possa se expressar - ser ele mesmo. E, sustentando o seu próprio desejo, pagar o preço de ser quem realmente é.

 

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“SOBRE A ESPERANCA”
Dezembro de 1997


Segundo a definição do “Novo dicionário do língua portuguesa” de Aurélio Buarque de Holanda:
Esperança. Do lat. “sperantia do verbo sperare. 1. Ato de esperar o que se deseja. 2. Expectativa, espera 3. Fé, confiança em conseguir o que se deseja. 4. Aquilo que se espera ou deseja... A segunda das três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), simbolizada por uma âncora...
“Estar de esperanças - achar-se grávida (a mulher)...”
 
Sem dúvida, esperança tem tudo o ver com desejo. Algo que eu quero muito e projeto num futuro. Desejo de tornar os sonhos reais. Por que não? Será que este ano vai dar certo? De que vale a vida se não nos for permitido sonhar, criar futuros? A idéia da gravidez é da geração da própria vida. Não será esta a nossa estrada?
 
O Desejo nos movimenta, é a própria essência da vida. E para que exista Desejo, esperança, é suposto existir uma falta fundamental que nos constitui como sujeitos. O contrário disto seria a própria morte. Não teríamos pelo que lutar, pelo que viver. A esperança brota nos corações de quem já perdeu algo lá atrás, no passado, enfim, alguém que sabe que não existe a completude e que isto é da vida.
 
Existem pessoas que mais parecem crianças mimadas. Vivem como se existisse somente o que Freud chamou de “princípio do prazer”, ou seja, por algum motivo não cresceram, não amadureceram. Estas pessoas querem ver seus desejos realizados imediatamente e a qualquer custo. Não lidam com limites e, portanto, exigem da vida o impossível. Vivem insatisfeitas e sem esperança.
 
Para se ter esperança, em primeiro lugar, é preciso arriscar, pagar o preço do seu Desejo, pois ter esperança significa lidar com o “não agora” - “talvez depois”. A pessoa precisa estar preparada para lidar com uma possível frustração, sabendo que na vida, a gente pode perder ou ganhar. A esperança contém a espera, a paciência, a perseverança. A possibilidade de manter acesa uma chama. E para isto é preciso ter fé, acreditar. E isto não tem necessariamente a ver com religião ou com o tipo de vida que a pessoa leva. Vemos pessoas que passaram por sofrimentos terríveis e que, apesar disto, continuam acreditando na vida. Doentes gravíssimos que se salvam ou têm uma maior sobrevida em função de acreditarem.

Ter esperança não significa esperar passivamente, nem ficar sentado imaginando que as coisas vão cair do céu. Pelo contrário, significa lutar, construir, investir no mundo externo, o que dá trabalho, sem dúvida, mas traz retorno. Algumas pessoas se encapsulam dentro de si mesmas e se deprimem. Deixam de acreditar. Param de lutar. Muitas morrem em vida. Na verdade, a gente tem que pegar as nossas ferramentas e trabalhar. E quais são elas? Os nossos dons! Inteligência, simpatia, capacidade de comunicação, garra, enfim, todo mundo tem alguma coisa boa dentro de si. São estes talentos que fazem a nossa riqueza e criam todas as nossas possibilidades.

E claro, todos nós temos nossos momentos de desânimo. Às vezes, depois de muito lutar, parece que morremos na praia. Mas só parece. Porque estamos aqui. E de repente, a esperança renasce.
 
Na verdade, ela nos fortalece, pois põe em jogo o que Freud chamou de “princípio da realidade”, ou seja, a nosso capacidade de postergar a realização de nossos desejos, de suportar uma frustração imediata, em favor de uma possível satisfação futura.

Neste momento em que o Ano Novo se inicia, todos nós estamos carregados de pedidos e expectativas. Que estrelas desenhamos em nossos céus para brilharem em 1998? Que tal tomarmos posse de nossos dons e começarmos “Já” o trabalho? Mãos à obra!

 

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SOLIDÃO, ISOLAMENTO E DEPRESSÃO


A cultura contemporânea propicia o Narcisismo e o Individualismo. É cada um por si, vence o mais forte, o mais esperto. É a Lei do Gerson. Na luta pela vida, pela sobrevivência, no stress do dia a dia, no medo da violência, muitas pessoas acabam se fechando, concreta ou emocionalmente, num eterno vai-e-vem, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, enfrentando o trânsito caótico, o dinheiro curto. Desta forma, acabam tendo poucas possibilidades de vivências compartilhadas e perdem a sensação de pertencer a uma comunidade. Além disto, muitos se tornam desconfiados, com pouca disponibilidade emocional para os relacionamentos.
 
Afinal de contas, atrás do que se corre todos os dias? No stress do dia a dia, a falta de sentido e de esperança freqüentemente tomam conta da vida das pessoas. E aí é preciso ânimo para prosseguir.
 
Para além do fato concreto, real, que é a tendência ao isolamento nas grandes cidades, onde não existe mais a pracinha e o footing, mas os shopping-centers está a forma como cada um lida com este problema. Acredito que a maioria das pessoas se esforce para driblá-lo, seja fazendo happy-hours com os amigos após o trabalho, seja indo a festas e reuniões sociais, enfim, tentando se integrar a grupos.

No entanto, outras tantas pessoas se fecham e quando percebem estão extremamente isoladas e tristes. A solidão é uma questão das grandes concentrações urbanas. É um problema que os urbanistas tentam minimizar criando novos espaços de convivência. Porque o sentido do humano fica muito prejudicado sem o outro a que se referir. Nenhum homem é uma ilha.

O discurso capitalista coloca ideais impossíveis para os sujeitos, que alienados de si mesmos e cooptados por esse mesmo discurso, ignoram suas reais possibilidades e vão loucamente atrás disto. Conseqüentemente, se frustram, deprimem-se ou se isolam, por não terem atingido os tais ideais de performance que imperam como verdades a serem conquistadas.

O isolamento pode levar à depressão e a depressão pode levar ao isolamento. Cada caso é um caso. Vale lembrar que tristeza é diferente de depressão. A tristeza faz parte da vida, mas ela vem e vai. A pessoa que está simplesmente triste não se isola, necessariamente.

O deprimido tende a se isolar. Seu transtorno de humor é mais duradouro, pois se trata de um processo fisiológico, neuroquímico. Porém, em todas as formas de depressão há uma conjugação de fatores biológicos e psicossociais (acontecimentos vitais recentes, stress...) como perdas reais (morte de pessoas queridas, separações...) o fato de não ter nenhuma relação íntima e de confiança, o desemprego, falta de dinheiro, doenças.

Impaciência, irritação, diminuição da energia e da atividade em geral, distúrbios do sono e alimentação, são sintomas que o deprimido apresenta, juntamente com a perda generalizada do prazer em fazer as coisas.

O sujeito deprimido tem uma visão distorcida de si e do mundo. Assolado por sentimentos de culpa, perda e incapacidade, tudo lhe parece ruim. Sua auto-estima é baixa.  Agitado, ansioso, angustiado, o deprimido rumina muito e sua memória e pensamento podem vir a falhar.

A tristeza é algo natural na vida. Existe um processo de luto que não é necessariamente patológico, um processo gradual de elaboração da perda, onde se espera que o sujeito possa liberar sua energia e seguir em frente, fazendo novos investimentos.

Já a depressão exige tratamento com antidepressivos e psicoterapia, pois a perda não é bem elaborada e o sujeito entra num estado melancólico, sem poder se desprender da dor e do objeto ou situação perdida.

Esta visão foi expandida por Freud, em “Luto e Melancolia”, em 1917. Segundo Freud, “a lembrança e expressão dos eventos passados e sentimentos ambivalentes em relação à pessoa perdida são resolvidos no luto, processo através do qual a ligação com da pessoa com a falecida é elaborada, podendo a pessoa reinvestir esta energia em outros objetos. O paciente melancólico perde esta capacidade, ficando sua energia fixada na perda. A não-elaboração do luto faz com que os sentimentos de raiva e agressão se dirijam para si mesmo, resultando em perda de auto-estima e culpa.”

É natural que as pessoas queiram muitas vezes estar sozinhas. Para trabalhar, pensar, organizar coisas. Ficar quieto, descansar ou não fazer nada pode ser muito bom! Às vezes é preciso isolar- se um pouco para realizar alguma tarefa. Neste caso, a solidão é importante pela necessidade de concentração. Um escritor que queira trabalhar, um pintor que queira pintar, um cientista que queira pesquisar. Algumas pessoas podem passar por um período mais introspectivo, faz parte dos processos criativos, sem que isto seja necessariamente patológico.

Será que a nossa Cultura não estará precisando de terapia? Para se humanizar. Para reavaliar ideais e metas. Estabelecer limites possíveis. Para propiciar formas mais afetivas de participação social. Para que exista a possibilidade de marcar as diferenças. Para que os sujeitos não sejam somente “massa” – de consumo e manobra.

Seria importante.


O MAL ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE


"Por conseguinte, é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal, e em grande parte permaneça inconsciente, ou apareça como uma espécie de mal-estar, uma insatisfação, para a qual as pessoas buscam outras motivações."¹

Se dissermos que o sujeito contemporâneo pode estar alienado no discurso do capitalismo, então podemos supor que ele cedeu, abriu mão de seu Desejo, não sendo mais o sujeito barrado lacaniano, ou seja, deste lugar de objeto que ele passa a responder, não existe uma referência à castração. O verbo responder foi usado porque existiria uma suposta demanda vinda do sistema: "Goza!" e que nada mais é que um imperativo de gozo.

Muitas pessoas, carentes de referências simbólicas identificatórias, elegem todos os símbolos do capitalismo como "a verdade", como um "é assim que é e tem que ser". Além disto, o sistema faz com que todos acreditem que é aí que mora a perfeição e a felicidade. É uma sociedade onde não há o registro da Falta. O sujeito fica impedido de assumir a sua própria subjetividade, o seu Desejo e de se responsabilizar por ele. A sua alienação encontra apoio no sistema, e, se ele se mostrar "desadaptado" o problema é dele. O script é dado pelo sistema e as necessidades do sujeito são determinadas pelo mercado.

Assim, o mal estar se manifesta no social. Não só o sujeito faz sintoma, mas também a civilização (sintoma social). Na sociedade contemporânea de massas podemos detectar os seguintes traços de estruturas clínicas:

1) histéricos: há uma constante insatisfação, por mais que se consuma, nunca se está "satisfeito". O que se deseja é sempre outra coisa porque aqui não se trata de Desejo, mas sim de objetos que são colocados no lugar onde emerge a angústia. Confunde-se objeto de desejo com objeto de consumo. O que aparece, a olho nu, é compulsividade, pânico, adicções, depressões;

2) obsessivos: há uma inibição do prazer possível, uma submissão a imperativos de gozo, uma busca eterna e exaustiva, que leva os sujeitos ao campo dos impossíveis, pois os limites da castração aí não estão presentes;

3) perversos: parece haver uma forclusão do Nome do Pai, um apagamento da referência à Lei Paterna,  à qual estamos todos submetidos, e que permite a humanização das relações.

Há um gozo que não é aquele sexual, delimitado por significantes, o gozo fálico, possível. É do gozo do Outro que se trata, o gozo do ser sobre o qual fala Lacan, no Seminário 20, "Mais, ainda". Este gozo está fora da Lei, é transgressivo. Nele há um excesso, um transbordamento, um ultrapassamento de limites. E não seria este um traço da contemporaneidade? A violência, a corrupção, a impunidade, o desrespeito, a Lei do Gérson, o vale-tudo? Vira e mexe damos de cara com o terror.

A civilização da qual falava Freud em 1929-1930 era uma sociedade diferente da nossa. Naquela sociedade patriarcal se tratava de um mal-estar causado, entre outras coisas, pela repressão da sexualidade-agressividade, em prol dos ideais da civilização.

Numa perspectiva histórica, podemos supor que o mal estar contemporâneo tem outra origem: com o enfraquecimento da função paterna e da referência à Lei Simbólica, sofre-se pela falta de um código que possibilite a vida em sociedade, para além do individualismo e do narcisismo contemporâneos, promovendo uma aproximação aos ideais humanitários de solidariedade, dignidade e respeito. Para que além da "anestesia" do rebanho, se possa respeitar as diferenças.

Se não se recorrer ao Simbólico, à palavra e à Lei, para se regulamentar as relações sociais, o que vai imperar é a lei da selva!

¹ Edição Standard das Obras Completas de S. Freud - vol. XXI - pág.160

 

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AS MUDANÇAS NA ECONOMIA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS NO MUNDO DO TRABALHO
Mulheres estressadas ou à beira de um ataque de nervos


A globalização provocou mudanças profundas na economia. Os efeitos dessas mudanças se fizeram sentir nas empresas e na vida das pessoas. Ondas de demissões levaram os funcionários remanescentes ao enfrentamento de uma verdadeira maratona de trabalho, quando assumiram, mesmo a contragosto, urna sobrecarga para compensar os demitidos. Temendo o desemprego, esses trabalhadores, muitas vezes insatisfeitos e estressados, agarraram seus postos com unhas e dentes, em meio a um cenário de competitividade acirrada, com menor número de vagas e de oportunidades disponíveis.

Em contrapartida e felizmente hoje já existe uma forte tendência e até mesmo movimentos concretos em direção a novos modelos de gestão organizacional, visando à humanização. Num futuro não muito distante, a empresa que só se preocupar com os lucros e não tiver “responsabilidade social” estará fadada ao fracasso (preocupação com o meio ambiente, com as comunidades e com os clientes internos).

Sabemos que o modelo atual não tem sustentabilidade no longo prazo.

Humanização das relações de trabalho, metas de produção, horários flexíveis, maior participação de todos nas decisões e resultados, são sonhos que já estão se tornando realidade em muitas empresas.

No entanto, esse processo não é geral e sabemos, as mudanças ocorrem de forma gradual. Mas, se isto é fato e se temos que conviver com ele, como fazer para minimizar o stress e a possível insatisfação? O que fazer quando não se vê no curto prazo uma saída possível? Como agir quando o trabalho já tomou conta de sua vida?

É preciso desenvolver algumas estratégias de defesa, a fim de reequilibrar os vários aspectos que compõem uma vida saudável: profissional, familiar, afetivo-sexual, social, lazer, exercícios físicos, cuidados com a saúde...
Algumas dicas importantes:

  1. Em primeiro lugar, não se faça de vítima. Reaja. Não use o excesso de trabalho para chamar a atenção das pessoas ou para provocar pena, que é apenas um sub-produto do amor. Com certeza, você merece mais.
  1. Não perca, em hipótese alguma, o contato consigo mesma. Não se torne um robô programado para fazer tarefas. Quando as solicitações profissionais forem muitas e você entrar no alucinado ritmo “speedy” todo cuidado é pouco para não se “esvaziar” de si mesma. Não se ausente. Permaneça ali, presente no seu próprio corpo, mesmo quando as pressões forem muitas. Sintonize-se com o seu desejo. Permita-se sentir o que sente, coloque-se, marque sempre sua posição. Caso contrário você corre o risco de se esquecer de você, de quem é, do que gosta e acaba por perder o contato com os seus próprios sentimentos.
  1. Faça as coisas com calma, pensando no que está fazendo, e sobretudo, tentando resgatar, se possível e urgentemente, o prazer.
  1. Não deixe que o cansaço físico e emocional tomem conta de você. Você pode estar caminhando para o stress, mas isto sinalizará que você já ultrapassou os limites. E muitas vezes o processo é irreversível.
  1. Mostre seu empenho e interesse, porém diga sempre e claramente o que é possível fazer e o que nao é. Colocar limites (primeiro para você mesma e depois para o outro!!!) é imprescindível, se você quiser manter um bom relacionamento com seus superiores e colegas (e com você mesma!!!). Sua auto-estima vai agradecer.
  1. Organize-se, seja objetiva e estabeleça prioridades dentro do tempo que você dispõe. E faça o melhor que puder. Dentro deste tempo. Depois vá embora. Para casa, para a academia. Tomar um banho relaxante, assistir a um bom filme, namorar. Porque você não pretende dormir no escritório, pretende?


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COMO SE DAR UM TEMPO


 
A demanda da cultura contemporânea globalizada é a da completude, da realização, da excelente performance. Nos ideais que circulam via esse discurso, nada pode faltar. Valores idealizados, incutidos em nós nos dizem o tempo todo, que temos que ser boas em tudo: mães, esposas, companheiras, amantes, profissionais, ter o corpo perfeito, o casamento perfeito, filhos perfeitos. Isso é quase uma obrigação. E o tempo todo objetos e serviços são oferecidos prometendo consertar o imperfeito, curar a dor, completar a falta. Confunde-se objeto de desejo com objeto de consumo.
 
Fica parecendo que tudo é possível, e que, se falharmos em alguma área, o problema está em nós. E nos sentimos imensamente culpadas, pela imensa cobrança de ideais impossíveis. Só que a vida real é diferente, é imperfeita, e é bonita e fascinante justamente porque é assim. Não é “super”, nem é feita de silicone.
 
A mulher, com sua tendência natural a fazer várias coisas ao mesmo tempo, acaba se exigindo cada vez mais! Precisa desesperadamente dar conta de tudo, cada vez mais e melhor, para conquistar, para se realizar, para não perder o emprego, paro não perder o marido...e... onde ela acha que ganha, pode estar perdendo.
 
Num videoclipe supersônico, nossa sarada “Speedy”, “workholic”, “a 100%” - desaparece enquanto sujeito de seu desejo, perdida numa velocidade frenética, num discurso sem pontuação. Não pode parar, não respira. Sua fala não tem travessão, vírgula, ponto e vírgula, ponto, na outro linha. Ofegante, acaba produzindo um discurso psicótico, verborrágico, louco, sem pontos de ancoragem, que possam dar sentido à vida.
 
A neurose obsessiva compulsiva é a neurose do momento par excelência. Hoje tudo é obsessão e compulsividade: drogas, álcool, comer muito, não comer, consumismo exagerado, excesso de trabalho. Muitas pessoas têm dificuldade em estabelecer limites, transbordam, não conseguem parar. Mas esta neurose é extremamente benéfica paro o sistema capitalista porque gera alta performance e produtividade.
 
Estas também são razões para termos hoje tantos casos de stress, gerando quadros depressivos, ansiosos, fóbicos. Nunca se ouviu falar tanto em depressão, síndrome do pânico, distúrbios de alimentação, como obesidade, anorexia, bulimia, entre outros.
 
No loucura de TER ou PARECER TER as pessoas se esquecem de SER. Elas mesmas, como podem. Cada uma, na sua singularidade. Um campo de potencialidades e limitações. Como é próprio da vida.
 
A questão se agrava no caso de mulheres que ainda tem a famosa “dupla jornada”. Na verdade, antigos valores culturais que definiram por séculos o que era “ser homem” e o que era “ser mulher” caíram por terra. Nenhuma mulher é hoje menos feminina se trabalha e sustenta a casa e nenhum homem menos masculino se ajuda nas tarefas domésticas e cuida dos filhos. As funções definidas pela cultura como exclusivamente femininas ou masculinas hoje são amplamente questionadas. Homens e mulheres dividem tarefas. São companheiros. Relacionamento hoje é sinônimo de “parceria”.
 
Para que se possa viver mais plenamente há que se ter foco e clareza de objetivos. Traçar metas, fazer planos, estabelecer prioridades no tempo e espaço, trabalhar dentro dos limites do possível. Respirar, pontuar, relaxar.
 
Para que se possa ser produtivo e feliz há que se rever valores e ideais. Redescobrir-se. Incluir na agenda a própria vida, ter mais de si mesmo nas pequenas tarefas cotidianas.

Relaxar significa resgatar. Uma vida humanizada e criativa. Saúde física e mental. Qualidade de vida. Mas para que isso ocorra há que se perder o medo de perder, para que se possa ganhar mais para a frente.

 

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DEPRESSÃO


Pesquisas recentes detectam uma verdadeira epidemia de depressão nos séculos XX e XXI. Depressão é diferente de tristeza, pesar, luto. Estes fazem parte da vida e a gente tem que lidar com eles. Depressão não - é doença e pode ocorrer com qualquer pessoa, em qualquer idade. Mas felizmente pode ser tratada, curada ou controlada.

Caracteriza-se pelo sentimento de vazio, perda, falta. Falta de sentido. “A minha vida não tem sentido”, argumenta o depressivo. Há um sentimento de desamparo, solidão existencial. Muitas vezes o desencanto é absoluto. Dor de alma, morte em vida. E a sensação de que nunca vai passar.

O depressivo sente tristeza, desânimo e fadiga. Falta-lhe energia. Não sente prazer ou interesse em qualquer atividade. A auto-confiança diminui e um pessimismo acentuado o leva a ver só o lado negativo das coisas. Falta-lhe esperança no futuro.

Apresenta inibição afetiva (espécie de "anestesia psíquica" - uma diminuição do interesse pelos relacionamentos sociais, afetivos e pela sexualidade); inibição motora (retardo e lentidão dos movimentos - não tem vontade de fazer nada, às vezes até de levantar da cama, 'de tomar banho) e inibição intelectual (dificuldade de raciocínio, perda da memória, diminuição da capacidade de concentração).

Comumente a pessoa apresenta dores: de cabeça, nas articulações, musculares, assim como alterações do sono e apetite (aumento ou diminuição); chora facilmente. É comum o aumento da irritabilidade e do mau humor, tornando-se difícil a convivência com o depressivo.

A avaliação que faz de si mesmo é rigorosa e cruel. Sente remorso e culpa, sofre de ruminações, se auto-recrimina.
Sua auto-estima é muito baixa. No fundo acha-se um fraco. Isto acontece porque comumente o depressivo é visto como alguém que não tem força de vontade, um preguiçoso, que não "quer" reagir.

Mas depressão é coisa séria e precisa ser tratada. Atrapalha de fato a vida do sujeito (em todos os sentidos, não tem vontade de trabalhar, de amar, de se relacionar). E não se trata de fraqueza nem de falta de fé.

As causas da depressão podem ser múltiplas e podem aparecer combinadas ou não: fatores genéticos (hereditariedade); fatores psicológicos (ambientais; educacionais); fatores neuropsíquicos (química cerebral); fatores hormonais (ex. menopausa); e finalmente os fatores sócio-econômicos e culturais que merecem um destaque especial.

As aceleradas mudanças dos últimos 50 anos geraram insegurança e um profundo sentimento de desamparo. A crise sócio-econômica trouxe o desemprego, o empobrecimento, a miséria crescente, a violência urbana. O indivíduo está privado de sua liberdade. Solidão, uso abusivo de drogas, profundas modificações nas estruturas familiares, a fragilização das figuras paternas, da autoridade e da Lei e o esfacelamento das ideologias deram origem ao que os psicólogos chamam de "mal estar na cultura".

Porisso, o momento histórico em que vivemos é fortemente propício à depressão. Vivemos submetidos aos imperativos de um ideal exigente. Há que se ter excelente performance em todas as áreas da vida. A exigência do sucesso a qualquer preço gera stress e um profundo sentimento de insuficiência porque sempre se estará aquém do esperado.

É assim que o sujeito se aliena, perde seus referenciais, se desvincula de seus afetos. Sua existência perde os sentidos possíveis.

Siderado, guiado pelos "modelos" idealizados de perfeição e completude fabricados pela cultura globalizada contemporânea, enreda-se numa história que não é a sua.

Essa "pasteurização" de sujeitos e culturas leva ao apagamento das diferenças e gera violência (guerras) ou depressão (repressão da agressividade, sensação de não existência).

Em muitos casos um processo depressivo é deflagrado pela dificuldade de elaborar um luto pela perda de uma pessoa querida, a perda de um amor, um baque financeiro, uma decepção no trabalho, o empobrecimento - mas são sempre situações que se engancham em dores precoces. Ou seja, ali já havia uma predisposição do indivíduo para desenvolver depressão.

Atualmente o tratamento da depressão é feito pela combinação de medicamentos antidepressivos + psicoterapia. O medicamento trata a causa orgânica. A psicoterapia busca as causas emocionais que levaram à depressão, buscando-se os sentidos que faltam, possibilitando ao sujeito reescrever sua própria história.

Para que o ser humano seja um móbile equilibrado ele também tem que levar em conta as várias dimensões da vida. Espiritualidade e fé também podem ajudar muito no tratamento. O referencial simbólico paterno é da mais alta importância na estruturação dos sujeitos (especialmente nos dias de hoje): através de um amor que possibilita vivências, mas que também coloca limites, abre-se um campo de possibilidades de vida.

Sustentando uma Lei necessária (porque estrutura) faz operar algo da "função paterna" que permite que o indivíduo transite com o seu desejo pela vida: que ame, seja amado, relacione-se, trabalhe, case, tenha filhos, crie, fale, escreva ...

Quem tem depressão deve procurar ajuda.

 

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Aulas ministradas por Carmen Cerqueira Cesar no Curso:

O Processo do Envelhecimento


Outubro/Novembro 1999 - BIJ Monteiro Lobato – São Paulo
Coordenação: Délia Catullo Goldfarb (psicanalista e gerontóloga)
Material de Pesquisa cedido por Délia Goldfarb

3ª Aula: SEXUALIDADE, MENOPAUSA E ANDROPAUSA


Resumo:
INTRODUÇÃO:

  • O encontro íntimo nunca envelhece. O desejo não morre nunca.
  • O peso dos preconceitos.
  • Os verdadeiros obstáculos a uma vida sexual são principalmente de ordem psicológica e social.
  • A sexualidade está presente nos idosos e, se não for reprimida poderá ser vivenciada por uma pessoa sadia até o fim de sua existência.
  • As pessoas costumam confundir sexualidade e genitalidade. A genitalidade é somente uma parte da sexualidade. E esta pode se expressar de várias maneiras.
  • A sexualidade não começa na Puberdade e não termina na Menopausa/Andropausa.

O IMAGINÁRIO SOCIAL:

  • A sociedade continua estranhando as manifestações da sexualidade nos mais velhos. O estereótipo veiculado pela mídia é o da imagem da juventude e produtividade, já que nossa sociedade é capitalista.
  • A civilização ocidental acredita que o tempo é puro desgaste.

IMAGEM:

  • Uma imagem inconsciente de um corpo integrado e potente pode conviver com um esquema corporal deficitário, ou vice-versa.
  • O velho, esse outro

CLIMATÉRIO FEMININO:

  • PREMENOPAUSA (cerca de uns 3 anos antes da menopausa)
    • Calores
    • Suores noturnos
    • Alterações na menstruação
    • Insônia, Cansaço, Ansiedade
    • Mudanças de humor
    • Sintomas emocionais
    • Diminuição do desejo sexual
  • MENOPAUSA (45 a 54 anos aproximadamente)
    • Calores, Insônia, Secura vaginal
    • Adelgaçamento e atrofia da parede vaginal
    • Dispareunia (dor coital)
    • Sintomas urogenitais (maior freqüência na micção)
  • PÓS-MENOPAUSA
    • Osteoporose
    • Doenças cardio­vasculares
    • Secura vaginal

- O papel dos hormônios. Fim do fluxo menstrual e da capacidade reprodutiva na mulher. Os ovários passam a produzir uma quantidade menor de estrogênio e cessam a produção de progesterona.

- A Síndrome do Ninho Vazio/ Mulheres que não tiveram filhos

- Qualidade de vida e Terapia de Reposição Hormonal

CLIMATÉRIO MASCULINO:

- E no homem, fim de quê? A Andropausa ou o Climatério Masculino. Mudanças graduais. Baixa androgênica. Níveis de testosterona decrescem lentamente.

- "O mito da máquina masculina" (Síndrome do Super-Macho) e as mudanças na sexualidade.

- Temor do fracasso" e “ansiedade de desempenho" .

- A aposentadoria e seu significado para o homem na nossa cultura.

- A adaptação e a possibilidade de desfrutar plenamente da sexualidade.

CONCLUSÃO:

ELABORAÇÃO DE PERDAS E LUTOS NECESSÁRIOS:

Espaço para novos investimentos. Novos objetivos para a energia psíquica.

A capacidade de obter gratificações ao longo da vida e suportar frustrações. A história de cada um vai ajudar a definir este momento.

Depressão "elaborativa" e depressão "patológica". A melancolia. Quando é necessária uma terapia.
Avaliando o vivido: perdas, ganhose outras mudanças.

A história de cada um/a: fazendo outras coisas que não sintomas. Novos planos. Criatividade. Responsabilidade pela própria vida.

Identidade Feminina e Identidade Masculina.

Investindo na vida. Tecendo o fio da história.

SEXUALIDADE, MENOPAUSA E ANDROPAUSA

CORPO E ATIVIDADE

Garcia Marquez - Existe um desejo que transcende o real. Viver plenamente a sexualidade é saudável e necessário.

O velho, esse outro – corpo real/corpo imaginário/Corpo simbólico. Representação do corpo, imagem inconsciente do corpo/Corpo erógeno/pulsional atravessado pela linguagem e pelas relações com o Outro. A imagem do corpo tem a ver com a história de cada um. Processo identificatório. O espelho é o olhar da mãe. O idoso e o espelho. O velho, esse outro. O-olhar do outro que aponta o envelhecimento. Decrepitude e agressão aos ideais narcísicos. Necessidade de ter um lugar de reconhecimento, de ser desejado. Necessidade de sentir-se amado.

Perda de funcionalidade. Duros golpes no Narcisismo. Reavivamento da castração. E o desejo? O corpo não é mais objeto de desejo. A mulher tem o seu poder de sedução diminuído, ela que fazia de seu corpo o falo. (inveja do pênis). Pág. 242 - Maria Langer. Um Ideal de Eu bem estruturado não sucumbirá às feridas narcísicas.

O Imaginário social na Cultura Ocidental - a imagem idealizada de juventude que a mídia veicula. Os preconceitos culturais e os modelos identificatórios. Opinião pública como desejo do Outro. A velhice é um fato biológico e um fato cultural.

A Sexualidade existe sempre na vida humana


Ver Selma Ciornai pág. 50. Freud e a sexualidade infantil. (1905) Escândalo. Dialética do desejo não se interrompe nunca. A velhice não é assexuada é só diferente. Repressão do desejo sexual e sua negação. Aceitação e adaptação às mudanças. Sexualidade e genitalidade. Mitos e as verdadeiras modificações fisiológicas. Reformulação dos ideais. Os hormônios e a Terapia de Reposição Hormonal. A sexualidade é um fenômeno relacional. A mulher tem seu poder de sedução diminuído, não sua capacidade sexual. Homossexualidade e abstinência sexual. Sublimação. A sexualidade da pessoa só. Viuvez, separação, solidão. O casal que envelhece junto. Doenças e medicamentos.

Menopausa e Andropausa

. Perimenopausa, Menopausa e pós-menopausa. Climatério e Menopausa.

. As primeiras autoras que trataram do tema. A visão do fim da feminilidade junto com o fim da possibilidade de procriação. A identificação (feminina) com a mãe e a reviviscência disto. A libertação da mulher e suas conseqüências na menopausa. Climatério - uma fase do desenvolvimento.

. Existe a Andropausa ou climatério masculino?

Elaboracão de perdas e lutos necessários

Espaço para novos investimentos. Novos objetivos para a energia psíquica. A capacidade de obter gratificações ao longo da vida. Depressão elaborativa e depressão patológica. O aparecimento de sintomas psiquiátricos vai depender da história do sujeito. Melancolia. Quando é necessária uma psicoterapia. Não elaboração das perdas e lutos necessários. Síndrome do ninho vazio e as mulheres que não tiveram filhos. Morte dos pais. Como cada uma lida e lidou com a frustração a vida toda?

Avaliando o vivido: perdas, ganhos e outras mudanças.

A mulher é cada uma. Cada uma e suas circunstâncias

Envelhecemos como vivemos. Auto-estima. Cada história. Fazendo outras coisas que não sintomas. Vovozinhas ou mulheres desejantes integradas em seu tempo? Novos planos. Criatividade. A mulher que sempre teve outros interesses como o trabalho, por exemplo, e as donas de casa. Uma outra posição fálica pode surgir, por exemplo, pelo lado intelectual. A mulher que fala e escreve. (compensação)

Tecendo o fio da história. Resgate do desejo e luta pela vida.

Poema:

Amor aos Cinqüenta

Encontramo-nos com timidez de virgens sem inocência ou beleza

a cobrir a nudez, apenas

estes corpos que nos serviram bem a oferecer.

Aos vinte, teríamos nos vestido de fantasias, lançando

véus sobre a nossa carne tenra,

ou nos faríamos espelhos mútuos onde pudéssemos nos amar melhor.

Mas nada nos engana mais, agora.

Nossos olhos são mais sábios e mais tristes quando apalpo em seu ombro a cicatriz onde o alfinete entrou, e você

toca os sinais de prata em meu ventre frouxo de parir.

"Somos reais", você diz, e somos, aqui de pé nesta carne simples,

que registrou nossas complexas vidas, os corpos transformando-se em dádivas ao toque de nossas mãos.

Marcia Woodruff

Você poderia imaginar, quando criança, sua avó interessada no prazer erótico? Sua mãe, madura, atrevendo-se a desfrutar de seu corpo como instrumento de gozo? Fica difícil associá­-las a estas situações. Até algumas décadas atrás acreditava-se que a menopausa marcava o fim do interesse sexual.

Os estudos dos últimos anos foram categóricos nos mostrando que a sexualidade da mulher e do homem pode manter-se ativa por toda a vida. Desfrutar ativamente do sexo ao longo dos anos fortalece o vínculo amoroso e estabelece um espaço de encontro íntimo que nunca envelhece.

Quando se fala em velhice, começa-se, em geral, a fazer o catálogo de tudo o que enfraquece com a idade: a visão, a audição, as dificuldades para andar, a memória que vacila, as relações sexuais que se tomam cada vez mais raras, devido, freqüentemente, à impotência do cônjuge. Quase não se fala da sexualidade que se transforma em ternura, dos contatos a serem mantidos pela voz, o olhar, o toque. Sonhar com o amor permanece, no entanto, possível até o fim. Os lutos feitos sucessivamente pelas capacidades perdidas têm que se acompanhar de possibilidades de outros tipos de estímulos e da permanente reinvenção de si com o outro. Isso implica um mínimo de presença de outrem. Para cada ser vivo sexuado, existe uma procura infinita e um pouco enganosa do complemento de si no outro. O ser vivo é sexuado e mortal. Mas são os preconceitos que nos fazem crer que o que se chama "menopausa" na mulher e "andropausa" no homem seja o fim da sexualidade, da feminilidade, da virilidade, fonte de dificuldades sexuais. A diminuição do hormônio masculino praticamente não intervém, com efeito, no mecanismo da ereção.

Os verdadeiros obstáculos a uma vida sexual são principalmente de ordem psicológica e social. Mas alguns homens, por medo de não serem mais onipotentes, renunciam de um dia para o outro a toda relação sexual. Como também algumas mulheres. No entanto, a mulher, a partir da menopausa fica livre dos temores de uma gravidez. Sua vida sexual ganha com freqüência em serenidade, pode mesmo ser mais agradável do que antes.

As viúvas são mais numerosas que os viúvos, e as instituições toleram mal que os idosos se autorizem a manter ligações amorosas. Isso é esquecer que o que mantém vivo um ser humano é a afeição, a ternura, um espaço de sonho no qual possa haver um lugar para a presença de alguém que o escute.

Não há por que temer a idade como fator de diminuição do prazer sexual. A idade não dessexualiza o indivíduo, a sociedade sim. Há uma mudança sim, mas é o organismo como um todo que se modifica com a idade, e é dentro deste contexto que a sexualidade também se transforma. A idade não pode ser apontada como o fator central de problemas sexuais, que não são exclusivos dos mais velhos. Há o exemplo de um senhor de 60 anos que, abordado sobre sua sexualidade disse: "Se na juventude o meu futebol era excepcional, agora ele é normal. Se minha memória era excepcional, agora ela é normal. Se sexualmente eu era excepcional, agora eu sou normal." A sexualidade das pessoas acima dos 40 anos, bem como dos idosos, não é necessariamente pior nem melhor do que a dos jovens, é apenas diferente. O que não dá é para manter uma expectativa do padrão sexual da juventude, incompatível com as mudanças fisiológicas da resposta sexual que se iniciam a partir dos 40 anos. Se perdemos em quantidade, podemos ganhar em qualidade através da experiência da vida.

Uma das mais significativas contribuições dos pesquisadores Masters e Johnson foi de terem estudado a sexualidade das pessoas idosas, apresentando seus resultados, em 1966, no livro A Resposta Sexual Humana. Pela primeira vez na história da sexologia destruiu-se o estereótipo da velhice assexuada. Contribuição notável, tão importante como a de Freud, que no início do século, destruiu o mito da infância sem sexo nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

A fisiologia do processo normal do envelhecimento e a da sexualidade neste contexto ainda são confundidas com os efeitos de algumas doenças. É bom lembrar que envelhecer é diferente de adoecer.

A sexualidade está presente nos idosos e, se não for reprimida, pode ser vivenciada por uma pessoa sadia até o fim de sua existência.

A sexualidade é um aspecto inerente à personalidade humana, que está presente em nós desde a vida intra-uterina até o momento da nossa morte. A fecundidade não é o único objetivo da sexualidade. É preciso humanizar o ato sexual independente da procriação. A união sexual também simboliza a busca da unidade, a realização plena do ser, a formação do vínculo de um casal.

A sexualidade tem duas vertentes: uma biológica e reprodutiva, e a outra diz respeito à sexualidade erótica ou à promoção do prazer. Assim, pode existir um envelhecimento biológico, porém o erotismo e o desejo persistem. O sexo desaparece com o fim da vida, e não com o avançar da idade. A sexualidade não começa na puberdade e não termina na menopausa e andropausa.

A sociedade continua estranhando as manifestações da sexualidade nos mais velhos. O estereótipo veiculado pela mídia é o da imagem da juventude e produtividade, já que nossa sociedade é capitalista. Esse estereótipo restringe a idade de 18 a 45 anos e o tipo físico de beleza jovem, saudável e perfeita como os únicos capazes de desfrutar os prazeres da sexualidade.

Mas mesmo que a sociedade reforce que o envelhecimento é sinônimo de perda de poder e de possibilidades, a verdade é que, nesta fase, o terreno é propício ao amor e ao sexo, enfim, à vida. Esta vivência resultará sempre em melhor qualidade de vida.

A percebida perda de atração sexual e da própria libido (isto é controvertido entre os autores) são alguns dos medos e horizontes sombrios que, para ambos os sexos, envolvem a perspectiva de vida na meia e 3ª idades. Em nossa cultura, ficamos surpreendidos ao ouvir falar que uma pessoa velha ainda é ativa sexualmente, freqüentemente considerando o fato ridículo, inapropriado, ou até, se a atitude for benevolente, "uma gracinha". Os meios de comunicação e algumas pessoas fazem até piadinhas sobre o assunto. As mulheres parecem estar mais sujeitas à discriminação social do que os homens na mesma faixa etária. Se Clint Eastwood aos 67 anos ainda é um galã que provoca suspiros no público feminino, dificilmente hoje em dia uma mulher nesta idade provocaria tal reação no público masculino.

A civilização ocidental acredita que o tempo é puro desgaste, diferentemente da cultura oriental, e de alguns exemplos da Antropologia, em sociedades tradicionais. Entre os muçulmanos e os rajput (casta militar dominante do norte da índia), as mulheres adquirem privilégios após a menopausa, podendo então participar de atividades que antes lhes eram proibidas.

Porém, no Ocidente, o climatério é um fenômeno carregado de significados negativos. É um sinal de esgotamento do tempo, da chegada ao fim. Esse período vai confrontar a mulher com a incapacidade de gerar filhos, com a perda do viço, com a diminuição de seus atrativos femininos, sendo a representação do inexorável, da castração e da morte. É o fim dos sonhos. É preciso trocar rápido de carro antes que este fique ultrapassado! E este computador já não é tão veloz! E assim talvez façamos com as relações humanas, trocando o velho e o desgastado, pelo novo.

Mas se a intimidade é um dos componentes do amor, quanto maior o tempo de convivência maior pode ser o amor, podemos acreditar que o tempo seja um grande afrodisíaco sexual. No entanto, hoje tudo é descartável e aparência. Vivemos na era da imagem. Qual a importância deste Imaginário Social? Para respondermos a esta questão devemos refletir sobre a constituição do sujeito.

O sujeito se funda na relação com o Outro primordial, a mãe, corpo atravessado pela linguagem. As marcas ficam inscritas no psiquismo do sujeito, e têm uma dimensão real, imaginária (véu) e simbólica, que é da ordem da linguagem, da cultura, da intervenção paterna como lei separadora, o sujeito irá se relacionar com o mundo mais amplo. Mas este Outro arcaico, de agora em diante sempre permeado pela lei Paterna, permanecerá ali, podendo ser mais tarde, ao longo da vida, tantos Outros – como, por exemplo, o discurso cultural. E eu posso estar mais ou menos alienado neste discurso. Vai depender do posicionamento de cada um em relação ao seu próprio Desejo. Da possibilidade de conviver com a falta, necessária à vida e, conseqüentemente, com um universo de possibilidades. A capacidade de cada um de lidar com a frustração, com esta falta, será determinante neste processo de envelhecimento e é o que vai variar de um indivíduo ao outro, na sua capacidade de elaborar as perdas e lutos necessários deste processo, integrando-os. O corpo é ferramenta, mediador organizado entre o sujeito e o mundo. Há um esquema corporal, que é integrado lá atrás. É uma realidade de fato,mais ou menos comum a todos os indivíduos de uma cultura e região determinadas. Estrutura-se mediante o aprendizado e a experiência. A imagem do corpo, pelo contrário, é própria de cada sujeito e está ligada à sua história. É relacional, tem a ver com o Desejo, com os investimentos libidinais, com a pulsão. É basicamente inconsciente, inscrição daquelas marcas das experiências relacionais (valorizantes ou não, narcisizantes ou não). Isto não é meramente da ordem da necessidade, mas fundamentalmente do desejo. Quando uma criança pede um doce, isto se articula com o prazer do contato da boca com o peito; desprendido do caráter nutricional, do registro da pura necessidade, o doce age como prova de amor, dom de amor, e reconhecimento do sujeito desejante. Nesse caso, o doce pode ser substituído, ele já não importa. Tem que haver um corpo para ser representante das pulsões, não importa quão lesionado ele esteja. Uma criança deficiente, pode ser amada e investida libidinalmente pelos pais, o que faz com que possa(m) suportar as frustrações e projetar sobre a criança uma imagem saudável do corpo simbolizada em palavras. Assim, uma imagem inconsciente de um corpo integrado e potente pode conviver com um esquema corporal deficitário, ou vice-versa. As primeiras sensações corporais, os primeiros contatos com o mundo físico, se ligam às experiências de realidade e ao processo identificatório.     
                                                             
O espelho é o olhar da mãe, algo a ver com o desejo materno em relação a este filho. Ela vai lhe outorgando determinados atributos com os quais a criança se identifica. Este corpo unificado e reconhecido na experiência do espelho irá sofrer depois 2 grandes crises, 2 momentos especiais em que será sentido como estranho. O primeiro será a Adolescência, em que o corpo cresce meio desproporcionado, e o sistema endócrino traz muitas novidades, mas onde fundamentalmente há a promessa de um futuro pleno de realizações. Mas quando um idoso se olha no espelho, o que este lhe devolve é uma imagem ligada a uma deterioração, uma imagem à qual ele não se identifica. Não há júbilo nem alegria, há apenas estranheza, e ele pensa: "esse não sou eu." Novamente uma discrepância entre a imagem inconsciente do corpo e a imagem que o espelho lhe devolve.

“O velho, esse outro”. A decadência e a finitude são aspectos percebidos mais pelos outros do que pelo próprio sujeito que envelhece. É o olhar do outro que aponta nosso envelhecimento. Assim, o velho será sempre o outro, com o qual não nos reconhecemos. A imagem no espelho não corresponde mais àquela da memória, e é apavorante. O sujeito que envelhece, no entanto, sabe perfeitamente que aquela imagem lhe pertence, embora experimente uma certa estranheza, um susto. Mas um sujeito bem harmonizado no seu psiquismo encontra sempre como se defender das surpresas do espelho. Ao contrário da criança que olha no espelho e se reconhece, dizendo: "sou eu! o velho se olha no espelho e diz: "este não sou eu!" A imagem não corresponde mais a um Ideal narcísico.

O importante neste momento é poder continuar desejando e sendo desejado. Ter um lugar de reconhecimento pelo Outro. Para que o Ideal de Eu continue se sustentando e regulando o equilíbrio psíquico. Um Ideal de Eu bem estruturado resistirá às agressões do tempo, da imagem e do discurso cultural e não sucumbirá às feridas narcísicas. Mas se não havia uma estrutura anterior, se não há mais o corpo como objeto de desejo, este corpo fica como que abandonado, sem contornos precisos, e há um investimento nos órgãos internos. A pessoa pode adoecer. O corpo doente é altamente investido, e o sujeito recebe atenção e investimentos amorosos (da família, dos médicos).

O CLIMATÉRIO FEMININO consiste no conjunto de alterações emocionais e físicas que se observam no final do período reprodutivo da mulher, e compreende as fases: pré-menopausa, MENOPAUSA e pós-menopausa. Climatério e Menopausa não são sinônimos. A Menopausa é um dos sintomas do Climatério, designando o processo específico de envelhecimento das gônadas sexuais femininas, os ovários, caracterizado pelo fim das menstruações; é o período na vida da mulher em que cessam as suas funções reprodutivas. O Climatério é o processo mais abrangente que envolve outras variáveis - pessoais, conjugais, sociais e culturais, além das hormonais. O Climatério corresponderia à meia-idade, à ponte entre a juventude e a velhice.

Na Pré-Menopausa aparecem alterações do ciclo menstrual, em geral menstruações mais espaçadas e com menor volume, associadas a distúrbios neurovegetativos como ondas de calor, sudorese, etc. A irregularidade hormonal é a norma, algumas vezes ocorrendo dois fluxos, e em outras, ocorrendo atrasos; sintomas como náuseas, tonturas e cansaço também podem ocorrer. A hemorragia genital persistente que ocorra nesta época pode ser uma conseqüência do início da menopausa.

Na Menopausa ocorre a amenorréia, ou a cessação das menstruações, com acentuação das perturbações somáticas e psicológicas. É o fenômeno mais característico do climatério feminino. A Pós-Menopausa é simplesmente a extensão da etapa anterior, com atenuação da sintomatologia neurovegetativa, em decorrência da adaptação. Pode ocorrer osteoporose e enfarte do miocárdio. Há que ter atenção especial do ginecologista na prevenção do câncer ginecológico.

PREMENOPAUSA (35 a 44 anos)

  • Calores
  • Suores noturnos
  • Alterações na menstruação
  • Insônia
  • Cansaço
  • Ansiedade
  • Mudanças de humor- Sintomas emocionais
  • Diminuição do desejo sexual

MENOPAUSA (45 a 54 anos) 

  • Calores
  • Insônia
  • Secura vaginal
  • Adelgaçamento da parede vaginal
  • Atrofia da parede vaginal
  • Dispareunia (dor coital)
  • Sintomas urogenitais (maior freqüência na micção)
  • Dores musculares

PÓS-MENOPAUSA

  • Osteoporose
  • Doença cardio-vascular
  • Secura vaginal

A Menopausa não é um evento abrupto, mas um lento processo de transição, que vai terminar com o fluxo menstrual entre os 48 e 52 anos, aproximadamente. Os ovários passam a produzir uma quantidade menor de estrogênio (hormônio da ovulação) e cessam a produção de progesterona (hormônio que prepara o útero para uma possível gravidez). Os sintomas vaso­motores (ondas de calor e sudorese - vermelhidão, suor e tonteira) são a conseqüência mais comum da queda da produção de estrogênio. A terapia com estrogênio combate esse sintoma com eficiência, e mesmo sem tratamento os calores podem desaparecer alguns anos após a menopausa.

A deficiência de estrogênio também causa o encolhimento e o estreitamento da vagina. A perda de elasticidade dos tecidos, a diminuição dos pelos pubianos e uma menor lubrificação da vagina durante a excitação sexual. Essas alterações podem produzir dor durante a penetração na relação sexual. A dor impede o prazer. O medo ao encontro sexual doloroso provoca o repúdio à sexualidade. A diminuição ou a ausência de desejo sexual que se atribui à menopausa se origina, muitas vezes, no medo da dor da penetração. Como na maioria das vezes a secura vaginal vem acompanhada de alguma dificuldade do companheiro, da rotina sexual, o casal desiste da vida sexual e pelos preconceitos, acham que já não estão mais em época de gozar do sexo.

Há uma dificuldade em distinguir entre sexualidade e genitalidade, sendo que esta última é somente uma das formas de manifestação da primeira. A sexualidade é bem mais ampla que a genitalidade. Fato importante na aceitação das mudanças que vão ocorrendo com a idade e adaptação a elas. A ereção do pênis e a lubrificação da vagina no jogo erótico é mais lenta. Não é um sinal de impotência. O homem pode manter por mais tempo sua ereção sem ejaculação, e as mulheres não diminuem, em absoluto, sua capacidade de resposta sexual.

Com o passar dos anos que se seguem à menopausa ocorre perda do teor mineral dos ossos, ou osteoporose, o que os torna mais propensos à fratura.

A mulher menopausada pode apresentar disfunções urogenitais (cistites e vaginites) devido à atrofia do tecido epitelial, músculos e vasos em conseqüência da deficiência do estrogênio. 25% das mulheres menopausa das sofre de incontinência urinária de esforço ou a perda involuntária da urina. A deficiência do estrogênio também pode causar alteração na flora vaginal, predispondo a infecções. Os hormônios sexuais afetam a derme e a espessura da pele, que perde o viço e o brilho, ficando ressecada e acentuando-se as rugas.

Todas estas situações podem mexer com a auto-estima da mulher, lhe dificultando a expressão sexual na relação. "Se não gosto de mim, como o outro vai gostar?"

Os sintomas psíquicos mais freqüentes são: tensão, cansaço, falta de auto-confiança, insônia, irritabilidade e depressão. A ligação destes sintomas com a baixa de estrogênio não é clara, eles variam de pessoa para pessoa, e podem ocorrer em toda a vida da mulher.

A dessexualização social em relação às mulheres de mais idade que ainda persiste em nosso meio prejudica a vivência sexual nessa faixa etária. Do ponto de vista biológico, essas mulheres possuem um ovário, que produz hormônio masculino - androgênio - o que poderia favorecer o desejo sexual. Porém, a cultura se sobrepõe à Biologia. A testosterona é a encarregada de manter o desejo sexual tanto nos homens como nas mulheres. E este hormônio se mantém estável após a menopausa.

Além disto, o desejo sexual aumenta com a satisfação. Aquelas mulheres que têm uma vida sexual prazerosa conservam mais túrgidos os músculos de sua vagina. Portanto, a diminuição do desejo se relaciona mais a problemas de saúde, rotina sexual, desajustes do vínculo, ou à dificuldade de encontrar companheiros sexuais. Algumas mulheres descobrem sua potência sexual durante o climatério. As mulheres que podem ter um companheiro interessado e interessante, que pertencem a um meio que aceita a continuidade da sexualidade após a menopausa, que reconhecem a sexualidade para o prazer, podem manter níveis normais de desejo sexual, prazer erótico e orgasmo pleno.

O que pode inibir o desejo sexual: stress, depressão, mal relacionamento do casal, insônia, cansaço, rotina, drogas, álcool, doenças como diabetes não compensada e hipotiroidismo, além de alguns remédios.

Como hoje a preocupação é com a QUALIDADE DE VIDA, faz-se a TERAPIA DE REPOSiÇÃO HORMONAL - restabelece o controle vaso-motor, e o tratamento das ondas de calor; aumenta o fluxo sanguíneo vaginal, diminuindo a dispareunia (dor no coito); cura ou previne os sintomas urogenitais; melhora os sintomas psicológicos; aumentando as endorfinas cerebrais; relaxamento, bem estar, prazer sexual. Previne as doenças cardio-vasculares e a osteoporose. Hormônio de aplicação local ou um lubrificante vaginal melhoram o coito doloroso. Exercícios físicos são muito importantes. Quando ocorre uma real diminuição da libido aconselha-se uma terapia. Os fatores psicológicos e sociais representam mais que os hormonais.

E NO HOMEM, FIM DE QUE? ANDROPAUSA OU CLIMATÉRIO MASCULINO

Os homens também estão sujeitos, nesta fase da vida, a transformações biológicas, psicológicas e sociais significativas. A percepção do próprio envelhecimento também causa crises emocionais. "Tenho dinheiro, e agora? O que fazer com ele? Atingi o ponto mais alto profissionalmente, e agora? Como vai meu relacionamento afetivo com minha parceira?” Alguns encaram estas questões, outros não. Eles culturalmente são educados para manter o mito da máquina masculina. Muitos trocam suas parceiras por moças mais jovens, compram carros esportivos. Existiriam mudanças hormonais como no caso das mulheres, responsáveis por estas mudanças?

O testículo é para o homem o que o ovário é para a mulher. Apresenta duas funções: hormonal e reprodutiva. Há uma baixa de fertilidade, mas um homem pode ser pai aos 80, 90 anos.

As mudanças na fisiologia hormonal masculina não ocorrem de modo abrupto como na menopausa. Ocorre uma baixa androgênica. A redução nos níveis de testosterona é inegável. Aumenta o nível de estrogênio, o que pode prejudicar a auto-imagem do homem (mamas ... ) e levar à falta de ereção, e de libido, muito mais pela deterioração da auto-imagem.

Alguns homens acima dos 60 apresentam fraqueza, cansaço, redução do desejo sexual, perda da potência, irritabilidade, etc. Terapias com testosterona podem melhorar este processo. Ajuda psicoterápica é fundamental. No entanto, o prazer sexual vai permanecer sempre, com ereção e relações prazerosas com a parceira.

O envelhecimento arterial, neurocerebral e hormonal pode ser a fonte da repercussão de perturbações sexuais. Porém a perda de ereção não constitui uma parte natural do processo de envelhecimento. Em um jovem, a ereção é mais rápida. Em um idoso, na maioria das vezes, depende de uma fase preparatória de carícias ou de algum outro tipo de excitação. Muitas vezes essa menor rapidez/facilidade de atingir a ereção é confundida com um problema.

O homem que está entrando na meia-idade apresenta alguns padrões de comportamento em resposta ao envelhecimento físico. Ocorre uma mudança da imagem corporal e social que pode resultar na diminuição da auto-estima.

Na meia-idade a pessoa começa a ter consciência do processo inexorável da vida, a possibilidade da morte. É a impotência - não sexual, mas existencial - vencendo a onipotência dos machos. Muitas vezes sentem uma morte social precedendo a morte física. A aposentadoria parece às vezes pesar mais para os homens do que para as mulheres. Em nossa sociedade o homem se define e é definido pelo que faz, e não pelo que é. Quando o sujeito se aposenta, não apenas perde um trabalho, mas também perde os atributos que fazem a sua identidade. Por sua vez, a Síndrome do Ninho Vazio aparece mais nas mulheres do que nos homens.

A percepção da própria morte o leva à procura de novos objetivos. A relação afetiva com sua parceira pode lhe possibilitar um enriquecimento sexual. Eles se tomam amantes mais refinados. Podem desfrutar como nunca do sexo.

Infelizmente continua sendo um mito que o avançar da idade é incompatível com o desejo sexual, fazendo com que muitas pessoas sintam vergonha de sua atividade sexual. A andropausa não é sinônimo de suspensão de atividade sexual e o sexo não se reduz ao genital. A impotência masculina ocorre, na maioria das vezes, pelo temor do fracasso, ansiedade de desempenho, o que é incompatível com a atividade sexual normal.

A auto-estima associada a expectativas sociais é muito importante no desempenho sexual dos homens a partir dos 40 anos. Se um deles acredita que é incapaz de ter ereções após uma determinada idade, seus sentimentos negativos podem de fato impedi-lo de tê-las.

Também a vida sexual dos homens vai depender de sua história pessoal. Aqueles que apresentaram no passado "A Síndrome do Super-Macho" vão ter mais dificuldades de adaptação. Relutam em aceitar sua falibilidade, a quebra do mito.

Nesta idade o indicado é uma vida sexual constante, em que a qualidade vai superar significativamente a quantidade.

Na verdade, para a mulher, mais desinibida e experiente sexualmente nesta fase, pode haver um aumento do prazer sexual.

O homem idoso pode perder a velocidade, mas ele ganha a possibilidade de apreciar as nuanças do seu trajeto. A forma de caminhar é diferente, mas o caminho não deixa de ser percorrido. Esse caminho vai ficando mais deslumbrante, quanto mais segura e tranqüila estiver a pessoa em relação à sua sexualidade. Em matéria de sexo, mais importante do que o fim é o meio, a travessia.

Outros pontos a serem abordados:

- o casal que envelhece junto.

- doenças e medicamentos.

- a liberação da mulher e suas conseqüências para a Menopausa

- Elaboração de perdas e lutos necessários.

- Espaço para novos Investimentos.

- Novos objetivos para a energia psíquica.

- A capacidade de obter gratificações ao longo da vida e suportar frustrações.

- Depressão elaborativa e depressão patológica - Melancolia. A depressão faz parte da vida psíquica sempre que ocorre uma perda ou se passa por um momento de  elaboração. Momento temporário de desiquilíbrio. O aparecimento de sintomas psiquiátricos vai depender da história do sujeito.

Quando é necessária uma terapia (a não elaboração das perdas e lutos necessários).

Síndrome do Ninho Vazio -Mulheres sem filhos. Morte dos pais e perda de pessoas queridas.

AVALIANDO O VIVIDO: PERDAS, GANHOS E OUTRAS MUDANÇAS. Envelhecemos como vivemos.

A HISTÓRIA DE CADA UMA:

Fazendo outras coisas que não sintomas.

Vovozinhas ou mulheres desejantes integradas em seu tempo? Novos planos. Criatividade.

A mulher que sempre trabalhou, teve muitos interesses, além da casa, marido e filhos.

A perda da beleza física, como atributo fálico, pode ser compensada por outros atributos: destaque intelectual (falar e escrever), profissional, valorização familiar junto aos filhos e netos.

TECENDO O FIO DA HISTÓRIA.

As primeiras autoras que se preocuparam com o tema - Helen Deutsch - 1925; Karen Horney -1926. Tudo o que a menina ganha na puberdade, a mulher perde na menopausa??? Última experiência traumática da mulher, ferida narcísica incurável??? Impossibilidade de criar um substituto fálico para a perda da capacidade de ter filhos??? Menopausa vista como uma fase normal do desenvolvimento – o climatério normal como uma adaptação psicológica progressiva a um processo biológico regressivo.
A reação à menopausa indica se a mulher foi feliz ou não, se se aproximou de seus sonhos, se aceitou e cumpriu seu papel de mulher.

Identidade feminina e Identidade masculina.

Resgate do desejo e luta pela vida.

 


5ª. Aula 23/11/99

ESTE CURSO FOI BASEADO NO TRABALHO DESENVOLVIDO POR DELIA C. GOLDFARB

APOSENTADORIA
ELABORAÇÃO DE LUTOS E PERDAS
EDUCAÇÃO CONTINUADA E PROJETOS DE VIDA
A QUESTÃO DOS IDEAIS
QUALIDADE DE VIDA
CONCLUSÕES


RESUMO
APOSENTADORIA

Momento de mudança.

Como cada um reagirá a esta mudança?

Qual o lugar do aposentado numa sociedade que valoriza tanto a produção? Relação do sujeito com o trabalho e o tempo livre ao longo da vida. Aposentadoria: Enriquecimento pessoal ou tempo vazio?

O indivíduo que confundiu sua identidade profissional com sua identidade pessoal.

Perda do lugar no sistema produtivo - elaboração de um luto. Reestruturação da Identidade.

Desejos, mecanismos de adaptação e história de vida. A Melancolia, a "crise" ou o reinvestimento em outros objetos e situações.

A relação do sujeito com o discurso cultural.

Necessidade de ser reconhecido, amado, aceito.

Mas tudo tem limite!

Trabalho: Realização de si mesmo; Fonte de criatividade; Expressão do Desejo.

Ou: Alienação, tédio, repetição; mera condição de sobrevivência?

O valor econômico do trabalho (independência, segurança econômica, poder e reconhecimento).

Aposentadoria: A qualidade deste momento para cada um vai depender das suas possibilidades de vida (alimentação, acesso a cuidados médicos, moradia, etc). A aposentadoria traz à tona as desigualdades sociais existentes.

Consumo e o tipo de lazer.

Os que retomam uma atividade remunerada.

Diferenças entre homens e mulheres. Identidade masculina e Identidade feminina.

Projetos de Vida:


- As diferenças individuais.
- História e envelhecimento (diferentes culturas, épocas);
- Século XX e XXI: maior expectativa de vida.
- Necessidade de políticas sociais (áreas: Saúde, Previdência e Assistência).
- Europa, Estados Unidos e Japão: a chamada "3ª. idade" começa por volta dos 65 anos. Países "em desenvolvimento": começa aos 60 anos.
- ONU: população idosa no Brasil em 2.025 estará entre as 6 maiores do mundo, precedida somente pela China, índia, Ex-URSS, Estados Unidos e Japão.
- Políticas sociais no Brasil. Caos e abandono principalmente das classes populares "envelhescentes". Contradições do sistema social, ideologia.
- Política econômica do Governo.
- Reforma da Previdência (aprov. 04/11/98).
- Dificuldades. Política recessiva - como resolver os problemas básicos de sobrevivência dos "excluídos"?
- Idosos - estigmatizados.
- Sociedades Capitalistas: as pessoas são "mercadorias descartáveis". (?!)
- "A Velhice desumanizada" - principalmente nas grandes concentrações urbanas.
- Desagregação familiar - o alto preço do espaço urbano. O velho institucionalizado.
- O velho rico e o velho pobre.
- Reinserção no mercado de trabalho (formal/informal) - sub-emprego.
- Benefícios previdenciários insuficientes e irreais.
- Aumentos no custo de vida.

 EDUCAÇÃO CONTINUADA


- Desobrigação do trabalho e cuidados com os filhos; tempo "livre". O quê fazer com ele?

Benefícios da Educação Continuada:

- promove o desenvolvimento pessoal (satisfação no presente);
- manutenção do desenvolvimento cognitivo;
- novas relações sociais e afetivas;
- integração social (atualização);  
- utilidade prática da aprendizagem.

Obstáculos:

Estereótipos sobre a velhice: vista somente como perda, declínio.
Independentemente da idade, todas as pessoas podem beneficiar-se de programas educacionais ou de treinamento, com a melhora ou aquisição de capacidades, conhecimentos e habilidades.
Um eventual déficit na aprendizagem se deve mais a fatores somáticos (doenças), pessoais do que ao momento.
O conceito tradicional de educação: existe um período certo" ou "adequado" para aprender, ou seja, aquele da preparação para a vida profissional na juventude. Neste contexto, a velhice seria o momento do descanso e da espera da morte.
Mas: Enquanto vivemos temos a capacidade de aprender.
Todo mundo tem direito!
Existiria uma pedagogia específica para os idosos? Os programas inter-geracionais.
A importância da Informática.

A Educação Continuada promove:


- o resgate do significado da existência;
-a recuperação dos papéis sociais;
- a ampliação da consciência crítica para o exercício pleno da Cidadania (direitos e responsabilidades).
- A importância da pessoa idosa (social. cultural. histórica).
O quê seria uma VERDADEIRA DEMOCRACIA? (de direito e de fato)

5ª.Aula:
APOSENTADORIA
ELABORAÇÃO DE LUTOS E PERDAS EDUCAÇÃO CONTINUADA E PROJETOS DE VIDA
A QUESTÃO DOS IDEAIS


A aposentadoria significa, no mínimo, um momento de mudança concreta e real na vida dos sujeitos. Ela é a interrupção de um certo ritmo da vida que durou quase 40 anos.

Se se considera a importância dada à produção numa sociedade industrial, pode-se perceber a supervalorização que é dada ao papel profissional. O valor do indivíduo, seu reconhecimento enquanto ser humano pode ser medido pelo papel profissional que ele representa e pela posição deste papel no sistema social. Logo, é a identidade profissional que define o sujeito e determina seu lugar na sociedade. Em conseqüência, se o sujeito interioriza esta idéia dominante, este "pensamento social", o trabalho se torna um fim em si mesmo, podendo ser um fator de alienação, na medida em que a importância da atividade profissional pode levar o indivíduo a confundir sua identidade com seu papel. Ele corre o risco de interiorizar a idéia de que o sentido de sua vida, sua importância enquanto pessoa depende, diretamente, do papel profissional que ele representa.

Ora, no momento da aposentadoria o indivíduo é afastado do papel profissional. Se o trabalho se tornou um fator de alienação, qual o lugar do aposentado numa sociedade onde ele não pode mais participar de seu sistema de produção? O sujeito, enquanto produtor ativo (na idade adulta), ou produtor potencial (na infância e adolescência), tem um lugar bem definido e reconhecido na sociedade. Porém, a partir do momento em que é afastado definitivamente deste papel, ele perde seu "valor mercantil". Como cada um reagirá a esta mudança? É provável que sua reação seja influenciada pela relação que ele estabeleceu com seu papel profissional e seu tempo livre. Se se tentar compreender como o sujeito organizou sua vida e qual era o lugar do trabalho no conjunto de suas atividades, pode-se então compreender seu comportamento na aposentadoria. O tempo livre de que dispõe o sujeito, no momento_ da aposentadoria, pode servir à sua expansão individual, isto é, ao seu enriquecimento pessoal, ou, ao contrário, ser apenas um tempo vazio. Sabendo que os sujeitos investem diferentemente em seus papéis profissionais, eles terão modos diferentes de reagir a esta nova vida. Há porém, alguns pontos comuns nesta vivência. O ritmo de vida é transformado e, a partir de um certo momento, o sujeito viverá apenas para e por si. Não existe mais o papel profissional que possa, por vezes, lhe servir de máscara. Ele deve enfrentar a si mesmo enquanto pessoa e reinventar novas formas de vida.

Para aquele que sempre confundiu sua identidade pessoal com sua identidade sócio-profissional, a aposentadoria o fará descobrir a ausência de sentido fora do trabalho. É justamente para este sujeito que a aposentadoria se tornará um momento mais difícil, uma crise mais longa. Ele não terá mais uma identidade reconhecida socialmente, perderá o sentido de sua vida e terá dificuldade em saber por que e por quem vive.

A aposentadoria, numa sociedade que idolatra o trabalho e a produção em detrimento do homem, é freqüentemente a perda do próprio sentido da vida: uma "morte social”. Se numa sociedade capitalista, a aposentadoria é, por um lado um "repouso merecido", ou seja, um direito conquistado dos trabalhadores, ela é também a institucionalização da perda da capacidade produtiva e, em consequência, a desvalorização do sujeito. A sociedade "concede" a aposentadoria, mas "valoriza" somente os sujeitos que produzem.

O período de aposentadoria não significa uma progressão na vida do sujeito, mas uma parada, um declínio, a constatação do fim. O sujeito aposentado deve enfrentar sua nova condição e apreender o estigma provocado por seu afastamento do mundo produtivo. Terá que fazer uma reorganização radical de sua identidade, interiorizar novos papéis, procurar novos objetivos para sua vida. No momento em que é obrigado a se desfazer do seu papel profissional, ele deverá dar início a um processo de reestruturação de sua identidade.

Como já foi dito anteriormente, apesar das pressões sociais, os sujeitos não investem do mesmo modo no papel profissional: haverá aqueles para quem o trabalho é, se não a única, pelo menos a atividade principal em sua vida – existem outras várias fontes de prazer e gratificação! E o caso dos sujeitos que investem em seu papel profissional como a única fonte de engajamento no mundo social. Porém, haverá também os sujeitos para quem o trabalho representa uma das fontes de sentido de vida e engajamento social. O Desejo vai em várias direções. Estes sujeitos terão outras atividades de investimento sobre as quais se podem apoiar para redefinir sua identidade social.

No entanto, se no nível social a aposentadoria significa o fim da capacidade de produção, no nível individual esta idéia se acrescenta à chegada da velhice e à proximidade da morte. Através da perda do papel profissional o indivíduo não estaria vivendo também a grande perda final, a perda da vida?

A aposentadoria é o atestado oficial do envelhecimento do sujeito. Ela representa o fim de um longo período da vida. É uma situação de mudança agravada pela idéia da velhice e da morte. E, como em toda situação de mudança, o sujeito viverá uma perda, seja a perda de uma situação já conhecida, seja a perda de um papel ou a da de uma certa "gestão" da identidade. Haverá, então, um momento de luto, um momento onde o sujeito deverá utilizar seus mecanismos adaptativos e enfrentar as mudanças que podem se produzir em outros domínios de sua vida como conseqüência desta perda. O modo pelo qual o sujeito viverá sua aposentadoria será então influenciado por sua história de vida, suas relações com a sociedade, sobretudo com o papel profissional e seu modo de enfrentar as perdas e de se adaptar às novas situações. Na melancolia, o sujeito puxa caixões, não quer soltar o passado, o que já morreu, é preciso abrir mão do que já não se tem ou não existe mais, e reinvestir em outros objetos ou situações.

Se a aposentadoria representa um momento onde o sujeito deve repensar e redefinir sua vida, ao mesmo tempo em que deve assumir sua velhice e o estigma de ser "inativo", ela provavelmente suscitará uma crise no nível da identidade. Certos sujeitos não conseguirão construir projetos de vida suscetíveis de criar uma continuidade de sua existência fora do trabalho. Eles poderão sentir-se impotentes, inúteis, sem objetivos de vida. No entanto, se o sujeito tem outros meios de personalização além do trabalho, e se é capaz de integrar suas perdas e adaptar-se às situações de mudança, a aposentadoria será vivida de modo menos problemático. Neste caso, ela seria a passagem do trabalho ao não-trabalho, sem que acarrete uma transformação profunda no nível da identidade. No entanto, não dá para analisar o trabalho só do ponto de vista do sistema de produção. É preciso também analisar o que ele representava a nível individual, para cada um em relação ao seu desejo. Quais as relações instituídas entre o sujeito e o sistema social? Qual a sua relação com o discurso cultural? Posicionado como sujeito de seu próprio desejo ou alienado neste discurso da cultura? É preciso compreender a significação e o valor do papel profissional numa determinada sociedade e a relação existente entre trabalho e não-trabalho. É também fundamental analisar como este valor social se torna parte do sujeito, na medida em que ele se identifica com o traço, e passa a ser um dos elementos de sua identidade. É bom lembrar que a identidade está ao nível do EU - EGO, a imagem, mas que está fundamentada no desejo inconsciente, no processo identificatório mais profundo.

A identidade pessoal é influenciada pelas características do grupo social ao qual o sujeito pertence, por mais que o sujeito esteja posicionado. Mas cada um terá a sua especificidade, a sua singularidade, que o caracteriza.

A identidade se estabelece no processo de comunicação, por meio de símbolos significantes. A sociedade, a linguagem, que são anteriores ao indivíduo, têm uma estrutura organizada com um conjunto de símbolos e de significados, assim como de modelos de interação preestabelecidos. O sujeito se constrói no jogo das experiências sociais. Desde o início de sua constituição, o Outro está presente. O sujeito se forma no jogo das relações sociais. A identidade pressupõe um processo dialético que implica tanto o sujeito como o ambiente social.

É se apropriando do que está disponível na cultura que o sujeito construirá seu lugar e tomará suas posições na sociedade. Ele passa a ter um conjunto de representações de si, de características físicas, psicológicas, morais, jurídicas, sociais e culturais, a partir das quais a pessoa pode definir-se, conhecer-se, ou a partir das quais o outro pode defini-la, situá-la ou reconhecê-la.

A identidade é o que possibilita ao indivíduo sentir-se existir enquanto pessoa, em todos os seus papéis e funções, sentir-se aceito e reconhecido enquanto tal pelo outro, por seu grupo ou cultura. As pessoas compartilham os valores e representações do grupo social e da cultura à qual pertencem. O sujeito tem necessidade de ser reconhecido pelo outro na sua diferença, de ser amado, valorizado e aceito. Mas ele próprio deve se reconhecer e se valorizar primeiro.

O trabalho pode representar a realização de si mesmo, fonte, de criatividade, expressão do desejo; mas ele pode ser também sinônimo de limitação, fadiga, alienação. Seja lá o que fôr, ele representa um fator de integração e engajamento sociais. Durante toda sua vida o sujeito é levado a considerá-lo como a seqüência lógica e natural de uma vida "adaptada" e "normal". O ciclo de vida tem 3 etapas: a preparação para o trabalho, ou seja, o período de formação, a vida ativa e a aposentadoria.

O trabalho também tem um valor econômico: traz independência, segurança econômica, pode ser o lugar de exercício da criatividade, da realização pessoal, podendo ser fonte de poder e reconhecimento.

Mas se há alienação, o sujeito fica reduzido à condição de objeto (Marx) se tornando o trabalho mera condição de sobrevivência. Isto gera sentimento de impotência, de falta de sentido.

Se o sujeito se confunde com o papel, ele é o papel que representa. Aí não tem sujeito, e quando ele perde isto fica sem nada. Ao se admitir a importância que tem o trabalho na sociedade e na vida do sujeito, é possível compreender o que pode representar a perda deste papel no momento da aposentadoria. A exclusão do mundo do trabalho é ao mesmo tempo perda do lugar no sistema de produção, reorganização espacial e temporal da vida e reestruturação da identidade pessoal. Cada um deve desenvolver um trabalho de luto em face das perdas provocadas pela nova situação. A aposentadoria significa sempre uma situação de mudança implicando uma perda.
        
E esta perda ocorre entre outras que estão acontecendo neste mesmo momento: o envelhecimento, a proximidade da morte, limites de capacidades físicas, possibilidades de doenças. E associa-se aposentadoria com a velhice, com a morte, com o desprestígio, a impotência. Em outras sociedades, como vimos, a velhice é dotada de prestígio, é sinônimo de experiência e sabedoria.

O progresso da medicina prolongou a expectativa da população. O número de pessoas com mais de 85 anos aumentou significativamente.

Mas a QUALIDADE deste momento para cada um vai depender das suas possibilidades de Vida: alimentação, acesso a cuidados médicos, o tipo detrabalho que desenvolveu, seu ambiente social.

A reação do sujeito às mudanças provocadas pela chegada da velhice depende das motivações e do interesse que o sujeito tem pela vida. Quando o sujeito não tem o que fazer, ele se volta para o passado, agarrando-se a ele. Lá a vida tinha um sentido. Neste caso a aposentadoria - a perda da identidade sócio­-profissional - pode representar a inatividade, o fim da vida, o vazio que caracteriza o não-ser. Mas os sujeitos que mantêm uma atividade estão voltados para o presente, engajados numa relação com as pessoas e o mundo atual.

A aposentadoria é o tempo do não-trabalho. Durante vários anos, o sujeito aprendeu a dividir seu tempo entre o trabalho e o não-trabalho. De um momento para o outro, só lhe resta a 2ª. opção.

Nos estudos sobre este tema, pode-se constatar 2 imagens que se opõem. De um lado, existe a imagem da aposentadoria-repouso, a aposentadoria-feliz, a liberação do trabalho. Por outro, existe a aposentadoria-vazio, a aposentadoria-solidão. Esses 2 modos de viver a aposentadoria remetem ao modo de viver o trabalho e o lazer.

No que diz respeito ao lazer, existe, de um lado, a possibilidade concreta e material de dsfrutá-lo. Enquanto ato de consumo, o lazer está estreitamente ligado à posição do sujeito no sistema de produção. Esta posição vai, de certo modo, determinar o tipo de lazer ao qual o sujeito tem acesso, assim como o tipo de aposentadoria que ele terá (no plano material). Por outro lado tem também o interesse pessoal, que tem também sua influência.

Se o sujeito pertence a uma classe social mais favorecida, ele terá uma aposentadoria melhor no plano econômico. Ao passo que um sujeito de classe desfavorecida teve, provavelmente, problemas econômicos durante toda a vida, o que, na maioria das vezes, o obrigou a viver em função do trabalho para aumentar sua renda. No momento da aposentadoria, ele terá de retomar uma atividade remunerada, na medida em que sua pensão de aposentado pode ser insuficiente para sua sobrevivência.

Alguns aposentados podem sentir o não-trabalho como "vagabundagem", perda de tempo, desperdício, um tempo vazio a ser preenchido. Mas se, ao contrário, a pessoa pôde construir outros interesses, a aposentadoria pode representar o tempo de liberdade necessário para dedicar-se a estas atividades. No entanto, existem sujeitos que, apesar de viverem uma situação econômica" privilegiada, não conseguem dedicar-se ao lazer e investem no trabalho como se ele fosse a única fonte de engajamento social. Para estes sujeitos, o trabalho é a vida. Por razões diferentes, estes são 2 sujeitos que construíram suas vidas em torno do trabalho. Além do papel profissional, resta-lhes pouca coisa. Uma vida construída em torno do trabalho somente, leva a uma aposentadoria vazia, uma não-existência, uma morte social.

A aposentadoria traz à tona as desigualdades sociais existentes. Se o sujeito pôde acumular bens, ele terá acesso ao lazer, a outros engajamentos, à atividade social. Se não, ocorre na aposentadoria, uma ruptura com toda atividade social e um fechamento sobre si mesmo.

O sujeito aposentado perde seu poder social. Mesmo na família, se ela existe, os filhos cresceram e construíram suas próprias famílias. E assim que pode surgir no aposentado um sentimento de inutilidade e desvalorização. No grupo social as pessoas idosas são percebidas como inúteis ou ultrapassadas. Isto torna mais difícil a resolução da crise. O sujeito perde, junto com o papel profissional, seu status no grupo social. Ele pode se afastar, se isolar.

É interessante notar algumas possíveis diferenças entre homens e mulheres. Os primeiros parecer manifestar o desejo de continuarem trabalhando, mesmo depois da aposentadoria. Culturalmente, a identidade masculina tem muito a ver com o papel profissional. Com relação às mulheres, nem tanto, já que elas desempenham uma série de papéis ao longo da vida, e, portanto, estão mais aptas a fazerem substituições, ou darem continuidade a algumas atividades. Ser mãe, avó, dona de casa, pode lhes dar prazer também, e nessa época, podem desejar "voltar ao lar e à família". Talvez para a mulher o pior seja quando os filhos entram no mundo adulto, elas podem sentir uma perda de seu poder enquanto mães. Sentem-se inúteis e vazias. Mas muitas mulheres retomam os estudos ou o trabalho depois que os filhos crescem. Outras continuam exercendo os mesmos papéis graças aos netos. Elas representam uma vez mais o papel tradicional, o da avó que participa ativamente da educação dosnetos: É por intermédio da estrutura familiar que essas mulheres continuam a participar da vida social e a salvaguardar a vida afetiva, o que lhes dá o sentimento de ser útil.

No que se refere aos homens, pode-se observar a valorização do papel profissional como função essencial na vida individual. A aposentadoria confunde-se com o "ficar em casa", passar o dia sem fazer nada. O homem, socializado para o domínio público, na aposentadoria, se torna um "invasor do domínio privado do lar.

Mas isto será vivido de formas muito diferentes por cada um. Se o sujeito pôde construir, durante toda sua vida, outras fontes de reconhecimento e de valorização, a perda do papel profissional e as mudanças que daí decorrem serão vividas de modo menos problemático e o sujeito encontrará mais facilmente outros meios de reestruturar sua identidade.

Assim sendo, é provável que, num primeiro tempo, sobretudo para os sujeitos que superinvestiram no papel profissional, seja por necessidade material, seja por necessidade de prestígio, ou mesmo como um mecanismo de defesa contra as frustrações vividas em outros domínios de sua vida, haverá uma tendência a uma avaliação negativa de si mesmo e, em conseqüência, uma diminuição do nível de aspiração, que se traduzirá por uma restrição dos projetos de vida. O sujeito deverá refazer sua auto-imagem levando em conta a velhice, até mesmo a proximidade da morte, 2 fatos ameaçadores que são mais ou menos negados durante a vida profissional ativa da maior parte das pessoas. Nesse sentido, é a dimensão temporal da identidade que é atingida, isto é, as dimensões do passado e do futuro que são componentes fundamentais. No momento da aposentadoria o sujeito interroga-se sobre sua velhice e sua morte. Tais interrogações traduzir-se-ão por mudanças em sua identidade, mudanças estas suscetíveis de influenciar os projetos de vida. Para que seja possível, o projeto deve levar em conta a possibilidade prática de desenvolver a ação desejada dentro de um certo contexto social e pessoal. Para o aposentado que não se inscreve dentro de num projeto social e que deve enfrentar o tempo que lhe resta, não é menos angustiante identificar-se com as suas obras passadas do que fazer projetos levando em conta sua própria morte?

Vale salientar que a aposentadoria não seria a causa de todos estes problemas, mas ela marca o ponto de mudança e um momento crucial na vida do sujeito, na medida em que ele deverá reinventar uma nova vida dispondo dos recursos acumulados e de sua capacidade individual de encontrar uma solução para esta crise. A passagem para a aposentadoria revela, como já foi enfatizado mais de uma vez, tanto as desigualdades sociais como as diferenças individuais, sobretudo no que concerne à capacidade de resolver os conflitos e ao investimento no papel profissional. A vivência da aposentadoria será a conseqüência da conjugação de todas estas variáveis.

As mulheres parecem aceitar mais facilmente a sua condição de aposentada do que o homem. Aqueles que voltaram a trabalhar depois da aposentadoria são, na sua maioria, homens. Os que se aposentaram por incapacidade física parecem ter mais dificuldade em assimilar esta experiência. A perda do papel profissional acrescenta-se um atestado oficial de incapacidade para o trabalho, que é sentido muitas vezes, como uma incapacidade para a vida. Estes sujeitos não escolheram o momento de sua passagem para a aposentadoria: eles foram obrigados, por questões de saúde, a interromper o trabalho, em geral muito mais cedo do que eles haviam previsto. Aposentam-se, muitas vezes. com um salário mínimo, o que significa que, além dos problemas de saúde, eles têm graves problemas econômicos.

Muitas vezes, o desinvestimento no mundo social faz com que eles coloquem sua atenção no corpo, nas doenças. Este sujeito foi duplamente atingido em sua representaçao narcísica. “Inativo e incapaz fisicamente".

Aqueles que entram em crise na aposentadoria parecem não terem tido outros investimentos ao longo da vida  fora o trabalho. A crise pode vir também de uma vida profissional alienante.

Os problemas relacionados à Previdência Social, a maneira como o Governo ou os Governos os vem conduzindo revelam as contradições do sistema social, seus conflitos ideológicos. Mesmo que haja uma melhora na condição dos aposentados há que se rediscutir as relações do homem com o trabalho, com a produção.

CIDADANIA E VELHICE


Como fica a questão da cidadania no caso dos idosos?

Sempre, ao longo da História, o processo de envelhecimento existiu, com características próprias que tinham a ver com a cultura, o tempo e com o espaço. Entretanto, o tema só ganha espaço como fenômeno social e alta relevância a partir de nosso século, testemunha de maior expectativa de vida e de avanços na área da saúde, saneamento básico, principalmente nos países do chamado Primeiro Mundo. As condições objetivas de vida da população interferem diretamente sobre o envelhecimento, tanto no aumento quantitativo da expectativa de vida quanto na qualidade oferecida aos que envelhecem mediante políticas sociais, principalmente nas áreas de saúde, da previdência e da assistência. Nos países onde se instaurou o Estado de Bem-Estar Social, os idosos contaram, como os demais setores mais frágeis da sociedade, com programas e serviços que lhes garantiam um final de vida amparado, pelo menos do ponto de vista material. Não é, portanto, um acaso serem os países da Europa, os Estados Unidos e o Japão os de maior expectativa de vida, além de uma participação expressiva de pessoas com mais de 60 anos nas pirâmides etárias de suas respectivas regiões.

A própria Organização Mundial de Saúde tem parâmetros diferenciados para o início do processo de envelhecimento. Entende que nos países mais ricos o patamar se inicia aos 65 anos, enquanto que nos subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento) se inicia aos 60 anos.

Estimativas das Nações Unidas registram que a população idosa (60 anos ou mais) no Brasil, em números absolutos, estará entre as 6 maiores do mundo em 2025, precedida, pela ordem, somente pela China, índia, Ex-URSS, Estados Unidos e Japão.

O envelhecimento, portanto, mesmo se referindo a uma faixa etária determinada, tem suas especificidades marcadas pela posição de classe social, pela cultura e pelas condições sócio-econômicas e sanitárias pessoais da região.

A sociedade brasileira vem apresentando mudanças em sua pirâmide etária, verificando-se, nos últimos anos, uma participação crescente da população idosa. Há uma tendência ascensional neste sentido.

Mas os investimentos sociais destinados a este contingente, no Brasil, não acompanham a grandiosidade dos índices apontados. Mais dramático ainda é o quadro da implementação de políticas sociais que minimizem os efeitos do envelhecimento da população. A crise na rede pública de setores estratégicos, como saúde e previdência, desnuda o caos e abandono a que são relegadas as classes populares em sua totalidade e, com mais intensidade, o segmento pobreda chamada terceira idade.

Há uma crescente preocupação em se estudar e solucionar os problemas da 3ª.idade: antes eram preocupações só da Medicina, Antropologia, hoje são jornalistas, psicólogos, sociólogos, fisioterapeutas ... Mas, apesar dos esforços, o Brasil ainda vive uma conjuntura de crises múltiplas neste setor. As políticas públicas ainda estão longe de tratarem corretamente os direitos destes cidadãos. A Reforma da Previdência de 1998, ainda é insuficiente e penaliza os trabalhadores, aposentados e pensionistas e acirra as dificuldades dos idosos, principalmente dos mais pobres.

Com a globalização e a atual política econômica, o número de excluídos se ampliou de forma assustadora nos países do denominado Primeiro Mundo. Esses indicadores traçam um futuro pouco otimista, que arrasta seus problemas sociais, políticos, econômicos e culturais há algumas décadas, sem perspectivas de equacioná-los.

As condições da sociedade brasileira tornam difícil compreender de que modo é possível atender às chamadas demandas sociais numa sociedade que, ao mesmo tempo em que permite avanços científicos e tecnológicos, não resolve problemas básicos de sobrevivência de amplas faixas de excluídos, dentre as quais se situam os idosos.

As diversas designações, como terceira idade, melhor idade, maior idade, idade da experiência, tentam, sem muito sucesso, suavizar no discurso, a estigmatização que os idosos vivem no cotidiano. Importa mais que a rotulação, a superação do estigma a que os idosos são submetidos e a significação que adquirem na construção do espaço de cidadania como sujeitos históricos.

A chamada terceira idade se estabelece, de maneira geral, a partir da aposentadoria, quando o indivíduo se desvincula do processo produtivo formal. Evidencia-se que, se as sociedades sob a lógica do capital tendem a transformar as pessoas em mercadorias, reduzem os velhos à condição de mercadorias descartáveis.

Simone de Beauvoir foi uma das primeiras vozes a denunciar o drama da velhice. Seu livro A Velhice escrito na década de 70, na França, registra na introdução:

“Para a sociedade, a velhice aparece como uma espécie de segredo vergonhoso, do qual é indecente falar (... ) Com relação às pessoas idosas, essa sociedade não é apenas culpada mas criminosa. Abrigada por trás dos mitos da expansão e da abundância, trata os velhos como párias”.

Beauvoir fala sobre uma “velhice desumanizada”.

A velhice, portanto, não constitui fenômeno homogêneo e a-histórico. A posição de classe social torna diferenciada a situação dos idosos, reproduzindo-se nessa faixa etária, as condições de vida que perpassam o cotidiano das classes sociais fundamentais.

A marginalização dos idosos parece mais gravemente evidenciada no modo de produção capitalista, em sociedades que atingiram certo grau de urbanização e industrialização e que requerem contingente de trabalho produtivo, jovem e dinâmico.

Há ainda os problemas da desagragação familiar, da política habitacional esfacelada, do empobrecimento crônico devido ao modelo concentrador de renda. A desvalorização da aposentadoria e das pensões, os constantes aumentos no custo de vida, que não costumam acompanhar a correção anual dos benefícios previdenciários, contribuem muito para agravar o problema econômico dos idosos, pois a própria sobrevivência lhes parece ameaçada, principalmente se os gastos com remédios forem muito vultosos.

A civilização urbano-industrial se coaduna com a família nuclear, devido às próprias exigências do sistema. As famílias, no entanto, se vêem compelidas a ocupar espaços mais exíguos pelo preço, pelo alto contingente populacional das cidades. Assim, a tendência é alijar o idoso, excluí-lo, uma vez que, tendo já cumprido sua função produtiva, ele é relegado à condição de marginalizado. Restam, como alternativas, assumir sua velhice sozinho (ou com o cônjuge, caso haja) ou apelar para instituições asilares.

Mas a questão de classe também interfere na vida dos idosos. Os idosos de maior poder aquisitivo têm algumas opções: podem usufruir de apartamentos com serviços (apart-hotéis) ou serem usuários de casas geriátricas ou ficarem em suas próprias casas com pessoal especializado. Essas opções implicam o afastamento da família na condução da vida do idoso, fragilizando o aspecto afetivo.

Nas camadas mais pobres o idoso tanto pode ser empecilho para a família como pode ser a única fonte de renda (em forma de aposentadoria ou pensão). Há famílias, principalmente nos municípios mais pobres, em que os idosos mantêm as despesas familiares e são valorizados como um dos poucos consumidores locais com renda fixa.

As desigualdades sociais tornam-se mais visíveis quando os trabalhadores alcançam a etapa da aposentadoria. Os trabalhadores, de forma geral, principalmente os mais pobres, não conseguem sobreviver com suas aposentadorias, tornando comum o reingresso no mercado de trabalho (formal e/ouprincipalmente informal), quase sempre sob a forma de sub-emprego.

Face ao quadro apresentado, a educação poderia ser uma estratégia a ser adotada para a população idosa se atualizar, acompanhar o ritmo acelerado da vida social, facilitar o intercâmbio inter e intra-geracional e, também, para se qualificar para uma nova ocupação, pois a reinserção dos idosos no mercado de trabalho formal elouprincipalmente informal, mais do que uma ocupação do tempo livre, cada vez se mostra mais necessária como estratégia de sobrevivência.

EDUCAÇÃO CONTINUADA NA VELHICE

A questão da educação abarca todas as faixas etárias. A educação permanente se mostra como uma possibilidade pedagógica e de sociabilidade. Os alunos superam doenças, depressão e ociosidade, ampliam seus universos com a recuperação da auto-estima e da memória, fazem novos amigos e se inserem em novas ocupações. Há uma aceitação da velhice como uma etapa da vida, como uma fase com tempo livre para aproveitar a vida e se enriquecer com experiências.

Encontramo-nos cada vez mais com um grande setor da população que está livre do trabalho (aposentadoria antecipada pelo desemprego, aumento da população idosa ... ), livre de certas tarefas psico-sociais (por exemplo, o cuidado com os filhos que se tornaram autônomos) e com uma saúde boa para poder desfrutar do tempo livre que agora têm. Estas pessoas podem com a educação continuada, beneficiar-se de novas oportunidades para completar sua formação.

Os benefícios são muitos:

  • Promove o desenvolvimento pessoal: bem-estar e satisfação presente.
  • Manutenção do funcionamento cognitivo: aquilo que não se usa se perde.
  • Novas relações sociais: especialmente para quem perdeu pessoas queridas.
  • Integração social: o mundo em que vivemos é muito dinâmico e é importante que a pessoa se atualize, fique ligada no mundo, na realidade.
  • Utilidade prática do que se aprende.

No entanto, existem alguns obstáculos para a educação na velhice, que têm a ver com a percepção que as pessoas têm da velhice e os estereótipos ligados a ela. Estão centrados na idéia de perda, declínio. Este declínio não estaria somente associado ao plano físico, mas também ao psicológico e social. Pensa-­se muitas vezes no velho como alguém que tem uma saúde ruim, pouco motivado para implicar-se em novos projetos, etc. Quanto a suas capacidades mentais, pensa-se muitas vezes, que há um declínio das mesmas e da aprendizagem. Neste contexto pensar em educação permanente parece absurdo.

Hoje se sabe que as coisas não se passam exatamente assim. É claro que existem pessoas que não rendem cognitivamente tanto quanto os jovens, sempre existem limites. Quando as tarefas são muito abstratas, ou exigem uma performance em termos de tempo, sem serem vinculadas a experiências prévias. Existem algumas áreas, aquelas que mais tem a ver com a experiência vital do sujeito, em que ele rende mais. Independentemente da idade, todas as pessoas podem beneficiar-se de programas educacionais ou de treinamento dirigidos à melhora ou aquisição  de capacidades, conhecimentos ou habilidades. E isto vai contra os estereótipos de declínio cognitivo.

Estudos mostram que um eventual déficit na aprendizagem, constatado em idosos, não resulta fundamentalmente do processo de envelhecimento, mas principalmente de fatores somáticos, sociais, psíquicos, pedagógicos e de antecedentes pessoais. A dificuldade de aprendizagem resulta mais da insegurança do que da deterioração da faculdade de aprender.

Em nossa sociedade não estamos acostumados a perceber os idosos como sujeitos e nem sempre compreendemos a educação fora do chamado período escolar, nos anos da infância e da juventude.

Tradicionalmente, o conceito de educação tem a ver com uma preparação para uma vida futura, à aquisição de habilidades que permitem ao indivíduo viver como adulto na sociedade e integrar-se no mundo do trabalho, particularmente. O indivíduo na velhice deveria então "descansar" e esperar a morte próxima.

Enquanto vivemos, temos a capacidade de aprender, de acumular e trocar conhecimentos. Ensinar a população idosa tem lá suas particularidades, condicionadas não só pelo padrão etário, mas também pela cultura, pela classe social, pelo nível de instrução, pela região, pelas condições de saúde, entre outras. Por outro lado, um processo pedagógico exclusivo se configura também, como excludente e estigmatizador. O contingente idoso sadio tem potencial para se inserir no processo de aprendizagem tal como ocorre nas demais faixas etárias. A educação permanente se revela como uma das alternativas para a construção e consolidação dos direitos sociais e políticos dos idosos.

Felizmente, concepções deste tipo estão caindo por terra. O conceito de formação contínua rompe com este esquema, com estes estereótipos "ineducáveis", "incapazes de aprender", ou "com pouca motivação para isto". A concepção de educação não deve ser, no entanto, meramente utilitária, extrínseca ao sujeito, e centrada na obtenção de um rendimento monetário.

Existe uma prática pedagógica específica para o ensino na terceira idade? O processo de aprendizagem não se interrompe na velhice a despeito da exclusao dos idosos da formação educacional. Os limites à formação dos idosos de referem mais aos fatores sociais, histórico-culturais, psicossociais do que aos limites biológicos ou naturais. A gerontologia educativa tem, portanto, um papel fundamental na melhoria das condições sociais do envelhecimento, lutando contra a "aprendizagem das impossibilidades" imposta aos velhos e contribuindo para o resgate do significado da existência e a recuperaçào dos papéis sociais significativos aos aposentados.
   
Os programas educativos devem ser adaptados, em certa medida, às características dos estudantes mais velhos. Muitas pessoas passam décadas sem assistir a nenhuma aula, sem estudar, algumas já não são tão rápidas mentalmente como eram no passado, algumas necessitam mais tempo para assimilar conceitos ou algumas têm uma certa deficiência (sensorial, motora) que podem alterar ou mesmo impedir o processo de aprendizagem. Temos que levar em conta as características concretas das pessoas que receberão a formação, sabendo que elas não são iguais só porque têm a mesma idade.

O conteúdo da formação também deve ser interessante para a pessoa mais velha, ter a ver com sua experiência de vida. Para os idosos o que interessa mais é a satisfação presente, e não as promessas futuras. Conhecimentos novos devem ser relacionados com conhecimentos prévios.

Poder-se-ia implementar programas de caráter inter-geracional, para que o processo de intercâmbio ocorra de modo multifacetado, beneficiando, assim, todas as faixas etárias. Mas há atividades, como as que requerem condicionamento físico, que devem ser dirigidas às idades homogêneas. O mesmo ocorre com a informática, tão familiar aos jovens, socializados sob a égide da computação, muito diferente do processo pedagógico a que foram submetidos os idosos. E como a informática se faz cada vez mais presente na vida dos idosos, há que superar essa defasagem através de cursos formais específicos ou através de treinamentos no interior das famílias, onde os mais jovens podem ensinar os idosos, criando um processo fértil que aproxima as gerações.

A informática é um instrumento não somente de geração e transmissão de conhecimento, mas também está cada dia mais dentro da nossa vida cotidiana, podendo até mesmo alterar ou criar novas formas de interação e relação. A aprendizagem da informática é muito importante para os mais velhos.

Todo mundo tem direito à educação, seja de que raça for, sexo, idade. Não pode haver preconceito. O conhecimento é posto a serviço da população na forma de um curso de extensão universitária e atualização cultural. Acabou-se o tempo do "coitado do velhinho". Isto não existe mais.

Existe uma discussão entre autores se deve existir ou não uma pedagogia específica para a 3ª.idade. As universidades para a 3a idade e as pesquisas em gerontologia educativa em favor da formação dos idosos, são as forças motrizes para a educação permanente. Mas a educação permanente integral só será possível quando houver uma sociedade verdadeiramente democrática, em que o acesso à informação seja compartilhado pelos cidadãos, independente da faixa etária em que se situem.

O social pode ser visto não só como o relacionamento entre os indivíduos, mas também como o relacionamento do indivíduo consigo mesmo. O desenvolvimento pessoal do indivíduo é um dos objetivos da educação permanente, que abre novos horizontes e potencializa condições para o exercício da liberdade e para expressar sua personalidade de forma mais autêntica e autônoma. A pessoa capaz de se relacionar consigo mesma é capaz de aceitar e de dar significado à relação com os outros e com o mundo. O diálogo e as relações humanas favorecem a aprendizagem dos idosos.

A Universidade da 3a Idade é um espaço de sociabilidade e de cultura para aqueles que já superaram os 60 anos de idade. Ex. Toulouse. Os sentimentos de isolamento e inutilidade podem acelerar o envelhecimento, enquanto que a energia e a vontade de viver podem prolongar a existência com qualidade de vida. A Universidade da Terceira Idade é um espaço indispensável para conservar uma atividade intelectual, criadora ou afetiva que possibilite uma vida saudável. Essas universidades se propõem a reintegrar os idosos à sociedade, desenvolver sua criatividade e reativar suas capacidades intelectuais.

Além disto, a Educação Continuada é importante no sentido de aumentar as possibilidades dos indivíduos e da comunidade de atingir níveis mais amplos de consciência critica para o exercício da plena cidadania, pleiteando seus direitos e conhecendo suas responsabilidades. A Educação Permanente é aquela que se processa no decorrer de toda a vida e é um direito garantido constitucionalmente. (?)

Parece que o primeiro núcleo de estudos e pesquisas sobre a 3a idade, semente das atuais universidades abertas para a terceira idade, surgiu em Santa Catarina, em 1982. Em 1986 foi criada, no Ceará, a Universidade Sem Fronteiras.

Há também uma proposta pioneira no Sesc-SP, que teve seu início em 1977. O projeto veio responder às demandas dos idosos que freqüentavam o Sesc, principalmente no que concerne à atualização de conhecimentos e de informações e à apropriação de novos conhecimentos que lhes permitissem acompanhar o mundo em mudança e manter contatos com novas gerações. Seu público-alvo seriam as donas de casa, os aposentados e todas as pessoas que estavam liberadas das obrigações profissionais e familiares. Não se exige prova de seleção nem exames. O principal objetivo é a participação do aluno na busca de seu desenvolvimento pessoal. O programa tem possibilitado o restabelecimento de relações dos idosos com seus familiares, com as demais gerações e com a sociedade em geral.

A educação permanente é tarefa individual e requer disposição e intenção. Tem a ver com o desejo de cada um. É uma atitude de cada indivíduo para se confrontar com necessidades que a dinâmica social impõe. A educação permanente é processo de desenvolvimento individual, princípio de um sistema de educação global e estratégia de desenvolvimento integral tanto do sujeito quanto da sociedade. Pessoas com mais de 45 anos sempre podem aprender e os idosos acumulam vivências muito importantes para aprender e para repassar. A pessoa idosa tem uma importância social, cultural e histórica, contribuindo para o processo pedagógico como memória viva.
 
A importância da questão educacional é indiscutível para todas as faixas etárias e não pode ser negligenciada para os idosos. As universidades públicas e privadas têm uma função social relevante na conquista e usufruto da cidadania dos velhos, através de estudos, pesquisas, cursos, atividades e prestação de serviços. Mas só num país com distribuição de renda mais justa, com políticas sociais que contemplem os milhões de excluídos, com um padrão de valores e um aparato jurídico que se coadunem com a realidade nacional, sem favorecimentos para os mais afortunados, como ocorre cotidianamente no Brasil, podemos ter uma democracia de direito e de fato, para os cidadãos de todas as faixas etárias, inclusive uma vida mais digna para os velhos.

CONCLUSÃO

Para os mais velhos a configuração de um âmbito de empatia e reconhecimento é fundamental à vida, ao recuperar o equilíbrio narcísico, a superação dos conflitos e possibilitar os novos investimentos.

As relações sociais, afetivas, os espaços lúdicos, permitem o afrouxamento da censura e o exercício da criatividade. Desta forma, o ser humano se expressa e a experiência de viver se faz plenamente. Desfrutar plenamente daquilo que hoje se apresenta como o efêmero. Regozijar­se frente ao transitório, que, por assim ser, tem maior valor. Poder ter prazer frente à beleza daquilo que passa, ao invés de esperar a infinitude. Desejo e falta. Assim é que dá pra ser.

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"Psicanálise e Mídia"


Desde o século XIX até meados do XX haviam publicações específicas para “moças”, com assuntos de seu “interesse”: figurinos de moda e beleza, revistas para a “Rainha do Lar”, trabalhos manuais e receitas culinárias, além de romances açucarados. O discurso social definia a mulher neste lugar, sensível, maternal e caseira.

A partir da segunda metade do século XX vieram as grandes transformações trazidas pelo Feminismo. O que ocorreu com estas publicações? Elas se transformaram? Ou continuaram reproduzindo os mesmos valores, só que com uma cara mais moderna?

O espaço da mulher se ampliou enormemente. E, com toda certeza, houve todo um segmento da mídia super engajado que acompanhou as mudanças e refletiu o espírito da época. Publicações que tiveram e têm extrema importância, porque aquele era um momento em que se precisavam produzir novos discursos, ressignificar tantas coisas, elaborar tudo de novo que se produzia na cultura, no social, na política e economia. E as mulheres precisavam dar conta disto.

Passadas algumas décadas, podemos perceber que, se nos séculos anteriores havia um ideal de mulher a ser seguido, este ideal se apresentou, naquele novo momento, repaginado. A mulher tinha que atingir graus de excelência, agora, no escritório, na cama, na academia...

Na verdade, os ideais sempre estarão aí, circulando livremente pelo discurso cultural. Eles podem cumprir duas funções: 1. nos fisgam se encontram traços de nosso desejo e assim nos empurram para a frente em direção aos nossos objetivos e sonhos; 2. nos fisgam na falta de identidade e nos alienam mais ainda de nós mesmas.

Esta foi uma preocupação que sempre tive ao escrever na mídia dita feminina. Tomar muito cuidado com o lugar a partir do qual fala o especialista.

E porque esta preocupação? Porque, dependendo de que lugar o especialista fala, produz, do outro lado, um posicionamento de "escravidão" em relação ao “Mestre todo-poder, todo-saber”.

A relação que algumas mulheres (com traços histéricos mais acentuados) com o “saber” é muito problemática, porque esta mídia pode encarnar para elas, a verdade absoluta. Na verdade, nós nos constituímos a partir da relação com o Outro primordial. Este Outro, lugar de um suposto Saber, tesouro dos significantes, o qual produz uma alienação original necessária e estruturante, porque constitui o nosso Imaginário. Só que isto não pode perdurar para sempre, e aí a Castração...

A alienação sempre representa uma tentação ao neurótico. Daí o perigo da mídia vir a ocupar esse lugar. Lugar do Saber- Poder. A histérica pode aí aderir imaginariamente e se tomar o reflexo do saber do outro. Constitui-se uma servidão mantida em relação ao seu Senhor, mestre eleito, que supostamente sabe tudo.

As “pseudo-possibilidades” de completude, perfeição, felicidade suprema, que algumas vezes se apresentam, podem lançar a mulher em estados de angústia pela impotência que sente frente a esses ideais, muitas vezes, impossíveis: o corpo perfeito, o casamento perfeito, truques para seduzir quem não quer ser seduzido, como manter o desejo sempre aceso mesmo depois de um dia “daqueles”, filhos perfeitos, o homem ideal, etc.

Os modelos oferecidos de "outras" mulheres, que parecem perfeitas, que supostamente detêm o segredo da feminilidade! E a leitora/ telespectadora quer ser como ela, pensar como ela, viver como ela, fazer amor como ela! Em outras palavras, trata-se essencialmente de vampirizar esta outra, que ela supõe ter conseguido, à perfeição, sua identidade feminina. (Joel Dor)

Hoje em dia este panorama já mudou muito. O que se veicula tem sido mais a vida real. A vida como ela é. Que alívio! O cuidado é para que não se fale a partir de um lugar de ''verdade''. É importante que o público feminino tenha possibilidade de discernir, de pensar por si mesmas, ter um senso crítico. Mas muitas delas estarão sempre demandando ao "Mestre" um Saber sobre elas: "Quem sou eu?" "O que desejo?" em busca de verdades sobre si mesmas, sobre o feminino. Se respondermos do lugar do todo-saber elas vão continuar se des-responsabilizando pela própria vida, se alienando cada vez mais num saber de empréstimo.

É claro que existem muitas produções de qualidade, e, mesmo dentro de uma mesma publicação, uma certa heterogeneidade. Algumas delas induzem de fato à reflexão, informam, abrindo questões, fazendo pensar. Porque o ideal é que a imprensa possibilite à mulher criar seu próprio texto, articular seu próprio discurso, para além do discurso vigente, a sua própria especificidade enquanto sujeito do seu desejo. Porque não existe A Mulher. Existe cada uma, uma a uma. Viva, criativa.

A questão aqui é pensar de que lugar se fala. E o analista, como consultor, como articulista, pode estar aí ocupando um espaço. Aí inserido, não para responder à demanda, mas para criar um campo de possibilidades, que só serão possíveis se sua fala estiver marcada pela castração, portanto para além das idealizações, situando os limites do impossível. Esta é efetivamente uma contribuição. Nada preenche a falta, a imperfeição. O que há é pura incompletude.

Lacan nos disse que não há significante para o sexo feminino. O que há é um vazio, sobre o qual não se cessa de falar. Porém as palavras vão recortando as bordas, tecendo em torno, alinhavando.

 

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SEMINÁRIO JORNALISMO FEMININO
Universidade de Mogi das Cruzes - Faculdade de Comunicação
07/10/1997


Ao ser convidada a participar desta mesa, como psicanalista e consultora de revistas “femininas” uma série de questões foram se colocando para mim.

Não sei se sairemos daqui hoje com todas as respostas, se é que existem respostas definitivas, pois vejo que quando falamos sobre a mulher, quase sempre chegamos a paradoxos.

Deixarei as questões diretamente relacionadas ao “Jornalismo” para as profissionais que hoje estão aqui conosco, representantes competentes de um segmento tão importante da imprensa brasileira. Vou me ater às questões que tocam o meu campo de trabalho, a Psicanálise e que dizem respeito à linguagem, ao feminino e ao Desejo.

Gostaria primeiramente de ressaltar que com relação ao tema proposto existem duas vertentes: um jornalismo escrito por mulheres e um jornalismo lido por mulheres. E acrescentaria: a que remete o termo “Jornalismo Feminino” - puro preconceito ou marca de uma diferença?

Fruto de uma transformação dos papéis sexuais, através da qual a mulher ingressou no mercado de trabalho e o homem passou a dividir os cuidados com a casa e os filhos, a mulher ampliou enormemente o leque de assuntos de seu interesse (política, economia, finanças, esportes, entre outros) buscando-os em diversas publicações e o homem, abdicando de antigos preconceitos, passou a folhear as páginas das revistas “ditas” femininas.

Isto significou uma grande evolução. Mas, embora a mulher tenha conquistado no campo social igualdade de direitos poderíamos dizer que ainda existe a marca de uma diferença?

A Psicanálise diz que sim. Existe uma especificidade em ser mulher. De que ordem seria? Da ordem de um discurso. Como bem descreve Serge André em seu livro “O quê quer uma mulher?”:

Lacan falou de um impossível de se dizer que o sexo feminino encarna, mas que, no entanto, o ser humano não pára de querer falar daquilo que não pode dizer (a mulher, o sexo, a morte). Assim, aquilo de que não se pode falar é preciso dizê-lo!

Mas o quê significa ser uma mulher? O quê quer uma mulher? Mistério. Enigma. Mistificação. Mentira. Desconhecimento sobre a questão da feminilidade. Evidência alguma nos oferece seu apoio como quando se trata de saber o que é um homem. Quanto ao que ela pode querer jamais se está seguro.

Freud notou que aqui as considerações anatômicas não são de ajuda alguma. O caminho possível passaria talvez então pela questão da diferença sexual, para além da materialidade da carne, via significantes, via palavra. O ser falante se empenha em significar o sexo.

Portanto, a realidade do sexo não é o real do órgão anatômico. Assim, já em 1908, Freud vai afirmar que só reconhece um único órgão, o pênis. O menino vê os genitais da menina e diz que o pênis ainda é pequeno, mas que irá crescer. Essa constatação vai bem mais além de um erro, uma mentira, uma dissimulação.

Já em 1923, Freud acentua ainda mais que a ignorância fundamental do sexo feminino tem a ver com a castração. Falando dos meninos que descobrem as partes genitais femininas, Freud escreve: “Eles negam essa falta, acreditam ver apesar de tudo um membro, encobrem a contradição entre observação e preconceito dizendo-se que ele ainda é pequeno e crescerá dentro em pouco, e depois chegam lentamente a esta conclusão, de grande alcance afetivo: antes, ele estava lá, e depois foi retirado. A falta de pênis é concebida como o resultado de uma castração e nisso o sexo feminino fica sem ser descoberto. A menina também veria seu sexo sob esta lógica fálica, e veria aí um falo diminuído ou castrado. Para ela, também então o sexo feminino ficaria como não descoberto.

Freud, em seus textos de 1931 e 1932, “A Feminilidade” e “A Sexualidade Feminina”, tenta desvendar, através de um saber faltoso, o da castração, a verdade de um ser que se julga encarnar essa própria falta: o ser feminino.

A descoberta da castração da mãe acarreta, tanto para a menina, como para o menino, uma desvalorização do personagem materno. Além do mais, a menina, ao tomar a mãe responsável pela sua falta de pênis, junta a esse desprezo, um ressentimento, que se traduz por Desejo (inveja e desejo) com relação àquele que tem o pênis. (aquele que supostamente tem o falo). A menina, que, à Princípio amava a mãe, é assim levada a se voltar para o pai, portador do pênis (falo), na esperança de receber dele aquilo que sua mãe, por natureza, não lhe pode dar. Passa a amar o pai, a desejar um filho, rivaliza com a mãe. É na medida em que ela quer ter aquilo que falta à mãe que se toma uma mulher. Freud chegou até aqui: a questão com a Castração e a Inveja do Pênis.

O grande mérito de Lacan, neste campo, foi conceitualizar os três registros: Real, Simbólico e Imaginário. E, com relação a esta questão ele nos mostrou que a conceitualização freudiana nos colocava mais para o lado do Imaginário, ou seja, não se trata do pênis em si, mas de uma atribuição de valor que lhe é feita, ou seja, uma atribuição fálica e que pode ser qualquer coisa - pênis, bebê, dinheiro ). Lacan entrou com a Linguagem, o Simbólico, o discurso do sujeito. E avançou tentando apreender o ser da mulher, para além do que ela possa ser para um homem, ou em referência a ele. “Quem sou eu? Qual é o objeto do meu desejo?” Estas questões a obrigam a confrontar-se com a sua falta de saber em relação à feminilidade.

Lacan situou o problema ao nível da enunciação de um discurso. E, seguindo Freud, disse: Se não há sexo feminino enunciável como tal, a feminilidade não pode ser concebida como um ser que seria dado desde o início, mas com um “se tomar”, um “vir-a-ser”. Então: como nasce uma mulher? Ela não nasce mulher, do ponto de vista do psiquismo, ela se toma mulher. Isto depende, não da anatomia, mas da posição do sujeito em relação à castração. Ela primeiramente é investida pelo amor materno, se aliena neste discurso. Mais tarde, percebe um terceiro, o pai, que entra para separar, interditar esse gozo; representando a Lei contra o Incesto. A Função Paterna faz advir a linguagem, um ser sexuado, as Identificações e o Superego.

Voltando, Lacan nos diz que não há significante para o sexo feminino. Os termos “furo” ou “nada”, só podem evocar o vazio que se esforçam para nomear. Lacan foi além da Castração para se referir à mulher. Existem significantes para nomear esse furo. São as palavras, o discurso do sujeito. O significante recorta suas bordas, vai tecendo em torno, alinhavando. E isto produz um saber sobre a mulher, sobre cada uma. O discurso feminino se faz criativamente, a partir da falta, que possibilita o Desejo. (ex. o burrinho e a cenoura). Mas há um discurso específico, que tem a ver com o Real do corpo e com o Imaginário.

Na verdade, o ser humano é marcado pela castração, pela falta, seja ele homem ou mulher. E este ser pode estar mais ou menos alienado no discurso do Outro (lembremos o Outro primordial - a mãe - lugar das palavras, alienação fundante).

Situando a questão para vocês, futuros profissionais. A Imprensa pode encarnar este Outro. Lugar de Saber/Poder. Daí a questão ética. Informar, levantar questões, apontar caminhos. Ajudar a articular um discurso, mas é claro, não pela via da alienação. O sujeito neurótico interroga o Outro sobre o seu Desejo, porisso precisa ver de que lugar a gente responde. Para ajudar a mulher a se definir, como ser social, sexual, profissional. Contribuir para que ela encontre seu lugar no mundo. E, vejam, O Desejo inclui a falta, não a pura idealização. Exs. a feminilidade misteriosa encarnada no corpo da “outra”, a imagem da perfeição. Daí as questões com a castração, com a Lei, que são as vias de acesso para o Desejo.

Enfim, praticar um jornalismo que situe os limites do impossível. Um jornalismo que informe e não “enforme”. Que possibilite fundamentalmente a articulação do discurso de cada uma, na sua singularidade. Criativo, sempre em busca, vivo. Nada preenche a falta, a imperfeição. O que há é pura incompletude.

 

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